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Capa do romance Morri por Sua Indiferença

Morri por Sua Indiferença

Após um grave acidente, Sofia é ignorada pelo namorado, Leonardo, que prioriza o resgate da amiga Bianca. No hospital, o descaso persiste e as queixas de Sofia sobre uma dor abdominal severa são negligenciadas. O que parecia apenas um choque era uma hemorragia fatal. Agora, como um espírito, ela observa o próprio óbito e a negligência de quem amava. Sofia não descansará; ela retornará como fantasma para assombrar a consciência de quem a deixou morrer.
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Capítulo 3

Eu flutuei de volta para o quarto de Bianca, um fantasma em uma missão. O ar ali era pesado com o cheiro de antisséptico e a falsa preocupação de Leonardo. Ele ainda estava sentado ao lado da cama, agora descascando uma maçã para Bianca com a precisão de um cirurgião, as mesmas mãos que deveriam ter me segurado, que deveriam ter me protegido.

Ele estava pálido sob a luz fluorescente do hospital, com olheiras começando a se formar sob seus olhos. Seu cabelo, normalmente impecável, estava bagunçado. Ele parecia cansado, mas sua atenção estava totalmente focada em Bianca.

"Aqui", ele disse, oferecendo a ela uma fatia perfeitamente cortada. "Coma um pouco. Você precisa recuperar as forças."

Bianca fez uma careta.

"Não estou com fome, Leo. Só quero ir para casa."

"Eu sei. Mas você precisa comer."

A cena era tão doméstica, tão íntima, que uma onda de náusea espectral passou por mim. Eu me aproximei, ficando entre eles. Eu queria gritar, sacudi-lo, forçá-lo a lembrar de mim.

"LEONARDO!"

Minha voz silenciosa ecoou no vazio. Ele não ouviu nada. Tentei empurrar a mão dele, a que segurava a maçã. Minha forma fantasmagórica passou através dele, causando apenas uma leve ondulação no ar, como o calor subindo do asfalto em um dia quente.

Ele franziu a testa e olhou em volta.

"Você sentiu isso? Parece que tem uma corrente de ar aqui."

"É o ar condicionado", Bianca respondeu, sem paciência. "Será que a Sofia já ligou? Ela devia ter pelo menos mandado uma mensagem para saber como eu estou."

O nome. Meu nome. Dito com tanta displicência, com tanta irritação. Leonardo suspirou, um som de exaustão e aborrecimento. Ele pegou o celular.

"Vou ligar para ela. Ela provavelmente foi para casa tomar um banho e se esqueceu de tudo. Você sabe como a Sofia é, meio avoada."

Ele discou meu número. No bolso da calça que meu corpo sem vida usava no necrotério, meu celular começou a vibrar, uma chamada perdida para a eternidade.

Eu flutuei na frente dele, olhando em seus olhos enquanto ele ouvia o telefone chamar sem resposta.

"Atende, Leonardo. Atende essa ligação com a verdade. Diga a ela que você está no necrotério, não em casa. Diga a ela que você me deixou morrer."

Minha súplica era inútil. Ele desligou o telefone com um suspiro irritado.

"Caixa postal. Típico. Ela deve ter desligado o telefone para não ser incomodada. Às vezes, o mundo da arte dela é mais importante que tudo."

A amargura em sua voz me chocou. Era assim que ele me via? Como alguém egoísta e desligada? Eu, que pintei inúmeros retratos dele, que decorei seu restaurante com minhas obras, que coloquei minha carreira em segundo plano tantas vezes para apoiar a dele?

Uma tristeza fria e pesada se instalou em meu peito fantasma. Era uma dor diferente da hemorragia que me matou. Era a dor da desvalorização, a confirmação de que eu nunca fui vista de verdade por ele. Eu era apenas um acessório em sua vida bem-sucedida.

Bianca, percebendo a mudança em seu humor, colocou a mão sobre a dele.

"Não se preocupe com ela agora, Leo. Ela está bem. Eu sou a que preciso de você."

Sua voz era mel, doce e pegajosa. Manipuladora.

Ele olhou para ela, e a irritação em seu rosto se suavizou, dando lugar a uma expressão de carinho e responsabilidade.

"Você tem razão. Desculpe. Como está o braço? A dor diminuiu?"

"Um pouco. Mas eu estou com medo de ficar sozinha."

"Eu não vou a lugar nenhum", ele prometeu, apertando a mão dela. "Vou ficar aqui com você a noite toda."

Ele ajeitou o travesseiro dela, puxou o cobertor até seu queixo. Cada gesto era um golpe para mim. Cada ato de cuidado para com ela era uma prova de sua negligência para comigo. Ele se preocupava com o conforto dela em uma cama de hospital, enquanto meu corpo esfriava em uma gaveta de metal em algum lugar no subsolo daquele mesmo prédio.

Eu me afastei, flutuando para a janela. Lá fora, a cidade continuava a viver, indiferente. Carros passavam, luzes se acendiam nos prédios. O mundo não tinha parado para a minha morte. E no quarto atrás de mim, o homem que eu amava estava cuidando da mulher que me odiava secretamente.

Eu observei os dois por mais um tempo. Ele contou a ela sobre uma nova receita que estava desenvolvendo. Ela riu, uma risadinha fraca e forçada. Eles pareciam um casal. Talvez sempre tivessem sido, e eu era apenas a intrusa que não percebeu.

A ironia era esmagadora. Ele, o chef renomado, que entendia o equilíbrio delicado de sabores e texturas, foi incapaz de ver o desequilíbrio gritante em nossas vidas, a podridão que crescia sob a superfície da nossa relação.

Eu me virei da janela. Minha tristeza estava se transformando em outra coisa. Uma calma gelada. Uma resolução. Se ele não se lembrava de mim, eu o faria lembrar. Se ele não sentia minha falta, eu faria com que minha ausência se tornasse um buraco em sua vida, um vazio que ele nunca conseguiria preencher.

Eu era um fantasma agora. E fantasmas, eu estava descobrindo, têm todo o tempo do mundo para assombrar.

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