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Capa do romance MINHA PRECIOSA

MINHA PRECIOSA

Ana Beatriz, uma mulher negra deslumbrante, acabou perdendo sua autoestima em meio a tristezas e medos profundos. Seu caminho se cruza com o de Edward King, um empresário que se tornou frio após uma perda dolorosa, jurando nunca mais amar. Entre o charme e o temperamento difícil dele, Ana enfrentará desafios inesperados. Juntos, descobrirão a força do afeto: ele se abrirá para um novo amor e ela redescobrirá o valor de ser a joia rara que sempre foi.
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Capítulo 3

- Comece me contando a sua idade e como conheceu a Lourdes.

- Ah! Sim... Bem, tenho vinte e quatro anos...

- Novinha ainda. - Ela diz recostando em sua cadeira me encarando pensativa. Ignorando a vontade de desviar os olhos, voltei a falar.

- Eu e a Lourdes fazemos aula na mesma faculdade, na UFBA. Ela Ciências Sociais e eu fisioterapia. - Entortei a boca escondendo a minha contrariedade.

- Não gosta do que faz?

- Como assim?

- Não quer ser fisioterapeuta?

- Para dizer a verdade, eu quero mesmo é estudar moda, quem sabe um dia focar na moda plus size. Observo o empenho da indústria têxtil diante a inclusão de pessoas gordas na moda, contudo, há um longo caminho a ser trilhado. Espero um dia trilhar-lo.

- Por que não faz?

Sério que ela me fez essa pergunta? Não é óbvio?

- Porque não tinha essa opção de curso quando concorri a bolsa pelo Sisu.

E como uma pessoa que nem tem condições em comprar roupas decentes fará moda? Questionei-me em pensamento.

Quero ser uma, "design", ditar a moda, criar roupas que todos queiram usar, mas parece um sonho tão grande para mim.

Sim, eu poderia começar costurando, colocando meus desenhos em prática, mas tecido está caro, eu não tenho condições e Mainha nunca tinha o suficiente, então deixei esse sonho de lado.

- Ah! Você fez pelo Enem. 

- Sim, não tenho condições de pagar uma faculdade. - Digo com pesar.

- Entendo! - Ela fica em silêncio e eu me sinto no dever de quebrar o silêncio constrangedor que se formou entre nós.

- Eu e Lourdes fazemos... Quero dizer, fazíamos a aula de saúde pública juntas, no início eu e ela nos sentíamos deslocadas, ela por ser a mais velha e eu por ser a única negra cotista na sala. Nós meio que criamos uma proximidade e ficamos amigas. Ela só me contou ser uma... - Calo-me sem saber como continuar.

- Uma puta aposentada? Não tenha vergonha em falar Beatriz, a Lourdes não tem.

- Sei disso, ela sempre falava abertamente, mas confesso que no início pensei que fosse brincadeira dela. - Rir ao lembrar de minha cara quando ela afirmou ser verdade. - Eu nem acreditei de início. - Confessei ainda sorrindo.

- Imagino. - Ela rir também. - Mas, me diga, você realizar as diárias aqui, não vão te atrapalhar nos estudos?

- Não, eu tranquei, estou no último ano, talvez consiga terminar ano que vem. - Eu nem acreditava em minhas palavras, sinto que nunca mais estudarei.

- Mas porque isso menina?

- Perdi a minha mãe a seis meses, ela tinha câncer, fiquei com a guarda de meu irmão, ele só tem nove anos, meu pai também é falecido, então fiquei com a responsabilidade de cuidar dele e da casa. Serviço está difícil, não sei mais o que fazer, então falei com a Lourdes e pedir ajuda. 

- Você queria trabalhar como puta? - Afirmei com a cabeça, sentindo-me sem graça e ela me olhou surpresa.

- Mas a Lourdes disse que antes eu poderia tentar outra coisa, talvez limpeza, ou camareira. Admito que fiquei bastante aliviada. Eu sempre fui uma menina centrada nos estudos, nunca fui de me importar com sexo, minha mãe dizia: Bea, só abra as pernas para um homem que te faça se arrepiar da cabeça aos pés, se te fazer arrepiar, pode te fazer gozar. Nunca encontrei essa pessoa, então não liguei muito.

 E ainda não ligo.

Porém, isso não digo em voz alta, ela não precisa saber que tenho uma baixa auto estima que só fez piorar no decorrer dos anos, às vezes eu me sinto uma mulher assexuada, não sinto atração por ninguém, nem mesmo me tocando sinto algo.

Só pode ter algo errado em mim, só pode! Mas, dona Cláudia não precisa saber disso também.

- Você cogitou em se entregar por dinheiro? - A voz dela me traz de volta a realidade.

- Isso vai contra tudo que a minha mãe me ensinou, mas pelo meu irmão, eu faria, ele é mais importante que qualquer coisa.

- Você é tão novinha, querida, deveria estar estudando, curtindo, transando muito por aí.

- Eu não sou assim dona Cláudia, sou careta demais, não sei flertar. Acredito que me perdi no tempo, perdi meu tempo de juventude.

- Credo, garota, você fala como se fosse uma velha. - Riu sabendo que ela está certa.

- Agora sou mãe dona Cláudia, irmã e mãe.

- Isso não quer dizer que você tem que se descuidar. Acredite, você ainda pode fazer a faculdade que quer, conhecer alguém e ainda cuidar de seu irmão, positividade sempre. - Diz levantando às duas mãos para o céu e rindo. 

Diferente de mim, ela age mais como jovem do que eu.

- Ultimamente não tenho sido muito positiva, a realidade me pegou em cheio.

- Otimismo é tudo! Agora chega desse negativismo, ficarei de olho em meus contatos, se eu souber de algum emprego te digo.

- A senhora faria isso? - Perguntei com um largo sorriso surpresa por suas palavras. Sorrir com alívio pela primeira vez  após meses.

- Claro, gostei muito de você! Agora venha, ela se levanta e eu a imito. - Vou te mostrar o lugar. - Afirmei. - Hoje quero que você apenas limpe às duas suítes principais. 

- E como faço quando os clientes tentarem algo comigo? - Perguntei não escondendo o meu medo.

- Eles são avisados para não tocar nas domésticas daqui.

- E eles o fazem?

- Às vezes eles tentam algo, mas se acontecer você chuta as bolas dele e me avisa para eu tomar providências. 

- Certo, farei isso!

- Olhe, às duas suítes serão ocupadas hoje, mas os cavaleiros vão demorar um pouco, estão em uma reunião muito importante. Um deles é muito exigente, gosta de tudo certo, então você limpa o quarto dele primeiro.

- Certo! Hum! Aqui também é hotel?

- Mais ou menos, a maioria dos clientes vem, faz a putaria e vai embora, mas os senhores, os clientes em questão, às vezes gostam de marcar suas reuniões de negócio aqui, então quando isso acontece, ele pede o local só para ele e seus acompanhantes. Ele sempre paga muito bem, muito bem mesmo.

- Ele deve ser bem rico. - Comentei acompanhando ela que saia pela porta que entramos a pouco. 

O cara deve ser um velho gordo e asqueroso. Penso não freando a minha cara de nojo. Ainda bem que dona Cláudia está andando na frente e não viu.

- Rico? Esse homem transborda dinheiro. - Ela para de andar e me fita. - Um gostoso que transborda dinheiro.

Sei! Volto a pensar não acreditando nas palavras dela. Ela parece exagerar um pouco... Sei lá.

- Qualquer dúvida você me fala, tudo bem?

- Sim, senho... - Ela me encara séria e eu me calo. - Desculpa, esqueço. - Sorriu envergonhada pela quinta, décima vez? Nem sei mais. - Agradeço dona Cláudia, pela oportunidade.

- Por nada menina, te ajudarei no que eu puder.

Quando Lourdes me contou sobre dona Cláudia, avisou que ela é uma ótima pessoa, eu fiquei na dúvida, acredito que pelo preconceito de ela ser uma espécie de cafetina e eu assisto a muitos filmes para tirar a conclusão que essas pessoas são más, contudo paguei com a minha língua, ela não me parece uma má pessoa. 

Tirando a parte que ela riu de mim por ser virgem, não tenho do que reclamar.

Ela prometeu tentar me ajudar e eu acredito, acredito de verdade, mesmo que ela não consiga fazer muito por mim. 

Afirmei com a cabeça para dona Cláudia e sorriu aliviada, sabendo que no outro dia teria dinheiro para comprar algo para Levi comer. Só esse pensamento renovou todas as minhas forças.

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