
Minha Filha, Minha Destruição
Capítulo 2
A mesa de fórmica barata do restaurante simples tremia um pouco, assim como as minhas mãos debaixo dela. Na minha frente, Sofia, minha única filha, olhava para o prato vazio com um nervosismo que eu conhecia bem. Ao lado dela, Pedro, seu namorado, mantinha um sorriso forçado no rosto, enquanto a mãe dele, uma mulher de olhar duro e boca fina, me encarava como se eu fosse um inseto.
"Então, Maria da Luz," a mãe de Pedro começou, a voz arrastada e cheia de uma superioridade que não combinava com o lugar. "Já que a Sofia e o meu Pedro vão se casar, precisamos acertar os detalhes."
Eu assenti em silêncio, esperando. Eu sabia que isso não seria fácil.
"Primeiro, a festa," ela continuou, levantando um dedo. "Não precisa ser nada luxuoso, mas tem que ser decente. Para a nossa família não passar vergonha."
"E um carro," Pedro acrescentou rapidamente, o sorriso vacilando por um segundo. "Preciso de um carro para levar a Sofia ao médico, para o trabalho... você sabe."
Eu respirei fundo. Eu era uma imigrante, viúva, que trabalhou em dois empregos por quase vinte anos para criar minha filha. Cada centavo que eu tinha foi ganho com suor e sacrifício. Eles falavam de festa e carro como se dinheiro crescesse em árvores.
"Podemos conversar sobre isso," eu disse, a voz mais firme do que eu me sentia. "Mas preciso saber o que vocês estão oferecendo."
A mãe de Pedro riu, um som seco e desagradável.
"Nós estamos oferecendo o nosso filho, o nosso nome. Isso não é suficiente?"
Antes que eu pudesse responder, ela se inclinou para a frente, o olhar ganancioso fixo em mim.
"E tem o apartamento. O seu apartamento."
Meu coração parou por um instante.
"O que tem o meu apartamento?"
"Para a segurança do casal," ela disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "Acho justo que você passe o apartamento para o nome da Sofia. Afinal, ela é sua única herdeira, não é? É só adiantar as coisas."
Aquele pedido não era apenas ganancioso, era um insulto profundo. Aquele apartamento era a minha vida. Eram as noites mal dormidas, as mãos calejadas, a juventude que eu perdi para dar um teto a nós duas.
"Não," eu disse, e desta vez minha voz não tremeu. "O apartamento é meu. Ele não faz parte desta negociação."
Eu bati a mão na mesa com força, fazendo os copos vibrarem.
"Meu apartamento não está à venda e não será dado a ninguém."
Pedro e a mãe dele se entreolharam. Havia um brilho de pânico e raiva nos olhos deles. Eu vi a mãe dele dar um cutucão em Pedro debaixo da mesa. Ele pigarreou.
"Sogra... é que tem uma coisa..."
A mãe dele o interrompeu, o sorriso voltando, mas agora era um sorriso de vitória, venenoso e cruel.
"O que o meu filho está tentando dizer, Maria da Luz, é que você não tem muita escolha."
Ela fez uma pausa dramática.
"A Sofia está grávida."
O mundo ao meu redor ficou em silêncio. O barulho do restaurante, as conversas, a música baixa, tudo desapareceu. Eu olhei para Sofia. Minha filha. Meu bebê.
"Sofia? Isso é verdade?"
Ela não conseguia me olhar nos olhos. Ela apenas abaixou a cabeça, os ombros encolhidos, e sussurrou um "sim" quase inaudível.
A sensação não foi de surpresa, foi de uma dor física, uma pontada no peito que me deixou sem ar. A decepção era tão grande que eu senti meu corpo inteiro esfriar.
Sofia continuava de cabeça baixa, mexendo nos dedos. Ela sabia. Ela sabia o que aquilo significava para mim, a traição que era usar uma gravidez para me encurralar.
"Vamos embora, Sofia," eu disse, a voz rouca. Estendi a mão para pegá-la. "Agora."
Ela recuou, puxando a mão dela da minha como se a minha queimasse.
"Não, mãe! Eu o amo! Nós vamos nos casar!"
O desespero na voz dela era real, mas a cegueira era ainda maior. Ela não via a armadilha em que estava se metendo, a armadilha que ela mesma ajudou a armar para mim.
A mãe de Pedro viu sua vantagem e atacou.
"Viu só? Ela nos escolheu," a mulher disse, triunfante. "Agora que tem um neto a caminho, você tem a obrigação de garantir o futuro deles. O apartamento é o mínimo que você pode fazer. Ou você quer que seu neto nasça na rua?"
A cara de pau dela era inacreditável. Eles planejaram isso. Cada passo. Engravidar minha filha para me forçar a entregar o fruto do trabalho da minha vida.
A raiva que subiu pela minha garganta era quente e violenta. Eu não conseguia mais pensar. Eu só agi.
Com um grito que veio do fundo da alma, eu empurrei a mesa.
Pratos, copos e talheres voaram pelo ar, espatifando-se no chão com um barulho ensurdecedor. O molho de tomate manchou a parede branca. O restaurante inteiro se calou e olhou na nossa direção.
A mãe de Pedro e ele pularam para trás, os olhos arregalados de choque.
"Vocês não vão conseguir nada de mim! NADA!", eu gritei, apontando o dedo para eles. "Fiquem longe da minha filha e do meu dinheiro!"
Virei-me para Sofia, que chorava em silêncio, o rosto coberto pelas mãos.
"E você," eu disse, a voz quebrada pela dor e pela fúria. "Que decepção. Que imensa decepção."
Eu não esperei por uma resposta. Dei as costas àquela cena de destruição e saí do restaurante, batendo a porta com força.
Do lado de fora, o ar frio da noite bateu no meu rosto, mas não conseguiu apagar o fogo que queimava dentro de mim.
Enquanto eu me afastava, ouvi a voz estridente da mãe de Pedro gritando de dentro do restaurante.
"Sua velha maluca! Você vai se arrepender disso! Nós vamos conseguir o que queremos, de um jeito ou de outro!"
Aquelas palavras ecoaram na minha cabeça, uma promessa sombria do que ainda estava por vir.
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