
Minha Dor, Sua Ruína
Capítulo 2
A água da inundação subia depressa, já a bater na janela do meu carro.
O túnel estava escuro, só com as luzes de emergência a piscar.
Eu estava grávida de nove meses, presa.
O meu telemóvel mostrava o nome do meu marido, Marcos. Era a décima vez que eu ligava.
Finalmente, ele atendeu. O barulho do outro lado era de festa, não de pânico.
"Lia? O que foi agora? Estou ocupado."
A voz dele era fria, impaciente.
"Marcos, estou presa no túnel da Baixa, a água está a subir. Preciso de ajuda, o bebé..."
A minha voz tremia.
Ele suspirou, um som que eu conhecia bem. O som de quem está a ser incomodado.
"Oh, meu Deus. Não consegues simplesmente esperar pelos bombeiros como toda a gente? A Sofia está aqui, o cão dela, o Trovão, está a ter um ataque de pânico por causa da trovoada. Ela precisa de mim."
Sofia. Sempre a Sofia.
"Um cão é mais importante que o teu filho por nascer? Marcos, eu não estou a brincar!"
"Para de ser dramática, Lia. A Sofia não tem mais ninguém. Tu sabes desenrascar-te. Liga para a emergência."
Ele desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel. Chamada terminada.
Tentei ligar de volta. Caixa de correio. Ele tinha desligado o telemóvel.
A água forçou a porta, começou a entrar no carro. Gelada.
Senti uma dor aguda na barriga. Uma dor que não era normal.
Olhei para a minha barriga enorme. O meu filho. O nosso filho.
A dor veio outra vez, mais forte.
Grávida, sozinha, num túnel a encher de água. E o meu marido estava a acalmar o cão de outra mulher.
Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto frio.
Depois outra. E outra.
A dor na minha barriga tornou-se insuportável.
Agarrei-me ao volante, a única coisa sólida no meu mundo que se desfazia.
A última coisa que vi antes de desmaiar foi a água a cobrir o para-brisas.
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