
Milhões Desviados: O Preço da Traição
Capítulo 2
O médico tirou os óculos, o seu rosto mostrava um cansaço profundo.
"A hemorragia foi estancada, mas devido à grave perda de sangue e à demora na transfusão, não conseguimos salvar o bebé."
A sua voz era calma, mas cada palavra parecia pesada.
"Senhora Clara, o seu tipo de sangue é raro, e o hospital não tinha reservas suficientes. O seu marido, o senhor Tiago, era o dador mais compatível e rápido."
Senti um vazio gelado no meu abdómen, onde antes havia vida.
"Ele... ele doou?" perguntei, com a voz a falhar.
O médico hesitou, depois suspirou.
"Ele doou. Mas não foi para si."
Nesse momento, risos e conversas animadas vieram do corredor, passando pela porta entreaberta do meu quarto.
"Tiago, obrigada, salvaste-me a vida! Sabia que eras o melhor irmão do mundo!"
Era a voz da minha cunhada, Sofia.
"Claro que sim, sua tonta. És a minha única irmã. A tua cirurgia plástica ao nariz não podia esperar. A beleza é o mais importante," respondeu o meu marido, Tiago, com um tom carinhoso que nunca usava comigo.
A voz da minha sogra, Helena, juntou-se a eles, cheia de orgulho.
"O meu filho é o mais responsável! A Sofia é a nossa princesinha, não pode haver um único defeito no seu rosto. Quanto à Clara, ela é forte, pode aguentar."
Podia aguentar.
Então era isso. A minha vida e a do meu filho, que esperei durante três anos, não valiam tanto como a cirurgia ao nariz da minha cunhada.
As lágrimas que eu segurava caíram finalmente, silenciosas e quentes.
O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Peguei nele com as mãos a tremer e liguei ao Tiago.
Ele atendeu rapidamente, a sua voz irritada.
"O que foi agora, Clara? Não vês que estou ocupado a cuidar da Sofia? Os médicos disseram que ela precisa de descansar depois da anestesia."
"Tiago," a minha voz era um sussurro rouco. "O nosso bebé... morreu."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Durou talvez cinco segundos.
"Eu sei. O médico já me disse," respondeu ele, com uma frieza que me gelou os ossos. "Não faças um drama por causa disto. Somos novos, podemos ter outros. A Sofia só tem um nariz."
"Podemos ter outros?" repeti, incrédula. "Este bebé era o nosso filho, não um objeto que se pode substituir!"
"Estás a gritar comigo? Clara, estás a ser irracional. Eu tive de fazer uma escolha. A Sofia estava ansiosa, a cirurgia dela estava marcada há meses. Tu tiveste um acidente. Como é que eu podia adivinhar?"
A sua lógica era tão distorcida que me deixou sem palavras.
"Vamos divorciar-nos, Tiago."
A decisão saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar. Mas, uma vez dita, pareceu a única verdade que restava no mundo.
Ele riu, um riso sarcástico e cruel.
"Divórcio? Deixas de ser a senhora Mendes para voltares a ser ninguém? Pára com as birras. Estás fraca e emocional. Conversamos quando voltares a casa. Agora tenho de ir, a Sofia está a chamar-me."
Ele desligou.
Olhei para a minha barriga lisa. Onde antes havia um mundo, agora só havia um vazio.
Desta vez, não haveria volta a dar. A ponte entre nós tinha desabado, e eu estava do outro lado, sozinha. E, pela primeira vez, isso pareceu-me uma libertação.
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