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Capa do romance Mil Vezes Você

Mil Vezes Você

Allegra Bianchi quase se perdeu em um romance tóxico com um influenciador na Itália. Buscando cura, ela foge para Paris para recomeçar entre telas e cafés. Na Cidade Luz, seu caminho cruza com o de Lucca Moreau, um violinista enigmático que também carrega as marcas de um passado difícil. Enquanto exploram ruas históricas e redescobrem a liberdade, esses dois corações feridos buscam reconstrução. Uma história sensível sobre amizade, arte e a coragem de se ouvir novamente.
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Capítulo 2

Nápoles tinha um jeito de me segurar, mesmo quando eu tentava escapar.

As ruelas do bairro - tortas, estreitas, com seus prédios antigos e varandas penduradas de roupas coloridas - eram o único lugar onde eu conseguia me encontrar em silêncio. O cheiro do café fresco misturado ao mar distante, os passos dos vizinhos conversando em dialeto - tudo aquilo me lembrava quem eu era antes do "nós".

Eu adorava caminhar por ali, mesmo que a liberdade fosse só uma ilusão. Acordava cedo, tomava um café rápido na cozinha minúscula do apartamento e fazia o que ele chamava de "meu trabalho": responder mensagens, planejar stories, editar fotos, cuidar do que as pessoas esperavam que eu fosse. Era estranho como o tempo se diluía nesses pequenos afazeres, como se cada curtida fosse uma moeda de sobrevivência. Mas, por dentro, eu sentia que estava afundando.

O curso de artes visuais, que eu tinha abandonado no ano passado, era um segredo entre mim e o vento. Ou melhor, um segredo que ele transformou em silêncio quando "sugeriu" que eu parasse.

- Você não vai dar conta, Allegra - ele disse com aquele sorriso meio falso, enquanto eu arrastava a mochila pesada pelas escadas da universidade. - Isso vai tirar o foco do que realmente importa. A gente tem uma imagem pra manter.

E eu acreditei. Porque acreditar doía menos do que lutar. Porque acreditar fazia o silêncio na minha cabeça parecer menor.

Meus pais tinham morrido há quase dois anos. Eles eram minha âncora - e quando se foram, eu me senti à deriva. Enzo prometeu ser meu porto seguro, mas, no fim, ele virou a tempestade. Com ele, a vida se transformou em um looping de exigências disfarçadas de carinho, de controle vestido de cuidado.

Por isso, aquelas caminhadas nas ruelas eram meu refúgio. Ninguém sabia, mas eu costumava me sentar em um banco escondido atrás de uma igreja antiga, perto da praça, e simplesmente observar. Era meu esconderijo, onde o tempo parecia desacelerar.

Observava as crianças correndo, as velhinhas sentadas em cadeiras de madeira, os casais discutindo baixo. Havia uma vida ali que não pedia nada de mim. Era como se, ali, eu pudesse respirar sem peso. Às vezes, eu levava um caderno escondido, só para rabiscar qualquer coisa, como um gesto de resistência secreta.

Mas o peso me seguia. Sempre.

Chegar em casa era sempre uma aposta. Enzo podia estar quieto, ou poderia estar irritado. Às vezes ele chegava do nada, querendo controlar até o jeito que eu falava.

- Por que não responde logo? - ele resmungava quando eu demorava a atender o telefone. - Você não entende que o público quer ver química? Não posso parecer distante.

Eu me tornava personagem da vida dele, um papel sem roteiro onde meu texto era apagado e reescrito a cada cena. Era como se eu existisse apenas no reflexo do que ele queria mostrar.

Uma noite, enquanto arrumava a bagunça dos nossos equipamentos para gravação, encontrei um dos meus antigos desenhos. Era um esboço de uma mulher com olhos fechados, rodeada de folhas ao vento. Parecia uma parte de mim que estava esquecida. Uma lembrança de quem eu fui antes de tudo.

Peguei o papel, senti o toque áspero da tinta seca e, por um instante, imaginei como seria poder voltar a ser aquela mulher. A sensação foi quase física. Meu peito apertou, e os olhos arderam.

Mas logo a porta se abriu. Enzo estava ali, olhando.

- Ainda tem essas coisas? - perguntou com aquela voz que sempre tinha um jeito de machucar sem parecer.

- Só guardo o que é meu - respondi, tentando segurar a voz trêmula.

Ele deu de ombros e saiu, deixando o silêncio invadir o apartamento.

Naquela noite, enquanto tentava dormir, pensei nas ruas de Nápoles, naquele banco escondido, nas vozes que eu podia ouvir se me calasse. Senti saudade dos meus pais, de como minha mãe me chamava de "ragazza d'arte", mesmo quando eu só rabiscava no canto das agendas.

Eu sabia que algo precisava mudar. Mas mudar doía. Mudar era se perder. Mudar era coragem que eu ainda não tinha.

Por enquanto, eu caminhava. Caminhava para tentar lembrar quem eu era, antes do "nós". Porque no fundo, uma parte minha já começava a sussurrar: talvez ainda existisse uma Allegra lá dentro, esperando ser encontrada.

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