
Meu Salário, Sua Humilhação
Capítulo 3
A gota d'água veio dois dias depois, de uma forma tão banal que chegava a ser cruel. Miguel foi à sala de Juliana para pegar uma referência de cor em um manual que ficava na estante dela. A sala estava vazia, ela devia estar em alguma reunião. Sobre a mesa de vidro, esquecido, estava um documento. Um contrato de trabalho. A curiosidade foi mais forte que ele.
O nome no contrato era Pedro Almeida. O cargo: Estagiário de Design. Miguel sorriu com amargura. Mais um garoto para ele ter que treinar. Então, seus olhos desceram para a cláusula do salário.
Seu coração parou.
R$ 30.000,00.
Trinta mil reais. Por mês. Para um estagiário.
Dez vezes o seu salário.
O ar faltou em seus pulmões. Ele sentiu uma tontura, uma onda de náusea. Aquele número dançava na sua frente, zombando dele, de seus oito anos de lealdade, de suas noites mal dormidas, de sua dignidade pisoteada. Era um tapa na cara. Não, era um soco no estômago.
Naquele exato momento, Juliana entrou na sala, falando ao celular. Ela o viu parado, pálido, olhando para o contrato. O sorriso dela desapareceu. Ela encerrou a ligação bruscamente.
"O que você está fazendo aqui?"
Miguel levantou o olhar, e pela primeira vez em oito anos, não havia submissão em seus olhos. Havia fogo.
"Trinta mil reais, Juliana? Para um estagiário?"
A voz dele era baixa, mas carregada de uma fúria contida.
Juliana cruzou os braços, a arrogância voltando a tomar conta de sua expressão. Ela não demonstrou um pingo de vergonha.
"E qual o problema? O dinheiro é meu, a empresa é minha. Eu decido quem vale o quê."
"Quem vale o quê?", ele repetiu, incrédulo. "Eu estou aqui há oito anos. Eu construí a reputação desta agência junto com você. E você me paga um salário de miséria enquanto joga uma fortuna para um garoto que provavelmente nem sabe usar o Photoshop direito!"
"Isso se chama investimento, Miguel. Investimento em talento novo, em sangue novo, em uma nova direção para a empresa. Algo que você, com suas ideias velhas e sua falta de ambição, não pode oferecer."
A justificativa dela era tão falsa, tão desonesta, que o enojou. Era pura exploração disfarçada de estratégia de negócios. Ele sabia o que era aquilo. Era um sobrinho, um afilhado, algum protegido com um sobrenome importante. E ele, Miguel, o idiota leal, estava sendo descartado.
"Você é uma mentirosa", ele cuspiu as palavras.
A máscara de calma de Juliana caiu. O rosto dela se contorceu em uma careta de ódio.
"COMO VOCÊ OUSA?"
Ela bateu com as duas mãos na mesa com uma força que fez o vidro tremer. Num movimento rápido, ela pegou uma pasta de apresentação que estava sobre a mesa e a arremessou contra ele.
O canto da pasta bateu com força em sua bochecha. A dor foi aguda, ardente. Ele levou a mão ao rosto, sentindo o papelão duro que o atingiu. Mais do que a dor física, foi a humilhação final, o golpe que selou seu destino ali. Ele sentia o sangue pulsar na bochecha, a pele latejando. Ele estava chocado, mas o sentimento mais forte era o de um profundo e amargo ressentimento.
Juliana o encarava, ofegante de raiva.
"Você está demitido do seu posto. Mas não vou te mandar embora. Vou te fazer desejar nunca ter me confrontado."
Ela apontou para o fundo do escritório, para uma pequena mesa de metal encostada na parede, ao lado da porta do banheiro.
"A partir de amanhã, aquele é o seu lugar. Limpe sua mesa antiga. O Pedro começa amanhã, e ele vai precisar do espaço."
Aquele era o seu lugar agora. Ao lado do banheiro. Um símbolo claro de sua nova posição na empresa: lixo.
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