
Meu Primeiro Amor, Minha Última Vingança
Capítulo 2
Júlia Brandão POV:
A vida no sítio se estabeleceu em uma rotina sombria, pontuada apenas pelas constantes e baixas discussões dos meus avós. Era um som familiar, um eco maçante da minha própria infância, e aprendi a ignorá-lo, assim como fiz com meus pais. Eu era um fantasma na casa deles, silenciosa e útil.
Então, quando eu tinha nove anos, meu avô não acordou uma manhã. Um ataque cardíaco durante o sono, disse o médico. Foi pacífico.
Minha avó não estava. Ela lamentou e se enfureceu, uma tempestade de dor que me aterrorizou. Ela culpou o mundo, culpou os médicos, culpou-o por deixá-la. Ela nunca falou comigo, mas eu sentia seu olhar acusador sobre mim, como se minha presença fosse um insulto final e insuportável.
Três semanas depois, ela o seguiu. O médico chamou de coração partido. Eu a encontrei em sua cadeira de balanço, uma colcha inacabada no colo, seus olhos fixos em uma parede que só ela podia ver.
Eu era órfã duas vezes.
Uma assistente social, uma mulher de aparência cansada e olhos gentis, me levou de volta para a cidade. Meu pai havia sido localizado. Ele tinha uma nova vida. Uma nova parceira.
Sentei-me em um escritório estéril, com as mãos cruzadas no colo, enquanto meu pai e uma mulher que eu nunca tinha visto antes falavam em tons baixos e urgentes com a assistente social. O nome da mulher era Cátia Guedes. Ela tinha uma filha.
Eu não conseguia ouvir suas palavras, mas podia ler o rosto de Cátia. Seus braços estavam cruzados firmemente sobre o peito. Sua expressão era uma mistura de pena e rigidez. Ela não me queria.
A assistente social me chamou. Cátia se ajoelhou na minha frente, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos. "Júlia, querida... esta é uma situação difícil."
Meu pai ficou atrás dela, evitando meu olhar. Ele parecia mais velho, mais cansado. Ele não tinha ido a nenhum dos funerais.
Eu sabia o que estava acontecendo. Este era o momento em que eu seria descartada novamente. Enviada para um lar com estranhos. O pensamento era uma dor física, um punho frio se fechando em meu estômago.
"Eu vou ser boazinha", sussurrei, as palavras saindo apressadas. "Eu sei cozinhar. Sei limpar. Prometo que não vou dar trabalho. Por favor."
Olhei por cima dela, para o meu pai. "Pai?"
Ele finalmente encontrou meus olhos, e não vi nada ali. Nenhum amor, nenhum remorso. Apenas uma resignação cansada.
Virei meu olhar desesperado de volta para Cátia. Meu instinto de sobrevivência, aprimorado por anos de negligência, assumiu o controle. "Eu te chamo de mãe", eu disse, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "Por favor, me deixe ficar."
Vi um brilho de algo em seus olhos. Cálculo. Ela olhou para o meu pai, depois de volta para mim. Uma garotinha, pequena para a idade, que já estava treinada para ser uma serva. Uma babá de graça para sua própria filha.
Ela tomou sua decisão. "Tudo bem", disse ela, sua voz suavizando, o sorriso se tornando um pouco mais genuíno. "Claro que você pode ficar com a gente."
O casamento foi uma pequena cerimônia em um cartório. Fiquei ao lado da filha de Cátia, Amanda, que tinha a minha idade. Eu agora fazia parte de uma nova família.
A diferença em nossas vidas foi gritante e imediata. Amanda tinha um quarto cheio de bonecas e vestidos bonitos. Eu recebi um colchão fino no chão do quarto dela. Amanda ganhou sapatos novos para a escola. Eu herdei os velhos dela. No jantar, Amanda era servida primeiro, seu prato cheio. Eu comia o que sobrava.
Eu dividia o quarto com Amanda. Na primeira noite, ela me olhou do outro lado do quarto, uma mistura de curiosidade e suspeita em seus olhos. "Minha mãe diz que sua mãe e seu pai de verdade não te quiseram."
Eu me encolhi, mas não neguei. "Eu posso te ajudar com a lição de casa", ofereci, mudando de assunto. "E posso te contar histórias à noite se você tiver medo do escuro."
"Meu nome é Amanda Schneider", disse ela, parecendo considerar minha oferta.
"Eu sei", eu disse. "Estarei aqui se precisar de alguma coisa."
"Ok", disse ela, virando-se e me dando as costas.
Fiz tudo o que pude para me tornar indispensável. Eu era a primeira a levantar, fazendo o café da manhã. Eu era a última a ir para a cama, depois que a louça estava lavada. Eu levava Amanda para a escola e a buscava. Eu a ajudava com seus trabalhos. Eu era sua sombra, sua serva, sua protetora.
Uma tarde, um grupo de meninos mais velhos começou a provocar Amanda, xingando-a. Eu, pequena e magra, me coloquei entre eles. "Deixem ela em paz", eu disse, minha voz trêmula, mas firme.
Um dos meninos me empurrou. "Senão o quê, garotinha?"
Eu o empurrei de volta. A briga foi curta e brutal. Acabei com o nariz sangrando e a blusa rasgada, mas os meninos fugiram.
Quando chegamos em casa, Cátia viu meu rosto e o dela se contorceu de raiva. Ela não perguntou o que aconteceu. Apenas agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha pele.
"O que você fez?", ela gritou, me sacudindo. "Eu sabia que você era problema! Eu sabia!" Ela me empurrou com força, e eu tropecei, batendo na parede.
Meu pai entrou então, atraído pelo barulho. "O que está acontecendo?"
"Ela arrumou briga!", Cátia acusou, apontando para mim. "Arrastando a Amanda junto!"
"Eu estava protegendo ela!", gritei, a injustiça doendo mais que meu nariz. "Eles estavam fazendo bullying com ela!"
O rosto do meu pai endureceu. "Não se atreva a responder pra sua mãe", ele disse, e sua mão voou, me acertando na bochecha. A força do golpe me jogou no chão. Foi a primeira vez que ele me bateu com tanta força.
"Pai, não!", Amanda finalmente gritou, suas próprias lágrimas esquecidas. "Ela está falando a verdade! Eles estavam sendo maus comigo, e a Júlia mandou eles pararem."
Meu pai congelou, a mão ainda levantada. O rosto de Cátia era uma máscara de fúria.
"Mesmo assim", disse meu pai, sua voz baixando, mas ainda cheia de raiva. "Você não deveria tê-la tirado dos portões da escola sem nos avisar. Você conhece as regras, Júlia."
Cátia não disse nada. Apenas pegou uma Amanda soluçante nos braços e a levou para o quarto, lançando um último olhar de ódio por cima do ombro para mim. Fui deixada no chão, minha bochecha latejando, meu coração um nó frio e pesado no peito.
Mais tarde naquela noite, Amanda se aproximou do meu colchão. "Está doendo?", ela sussurrou.
Toquei minha bochecha. Estava inchada e sensível. "Estou acostumada", eu disse, e as palavras eram verdadeiras.
Naquele momento, uma compreensão profunda e terrível se abateu sobre mim. Não importava o que eu fizesse. Não importava se eu era boa ou má, certa ou errada. Uma criança não amada está sempre errada.
Quando chegou a hora do ensino médio, o dinheiro estava curto. Cátia e meu pai sentaram-se à mesa da cozinha, examinando as contas.
"Só podemos pagar uma escola decente para uma delas", disse Cátia, sem nem tentar esconder sua preferência. "Amanda precisa de uma boa educação."
Meu pai assentiu. "Você está certa. Amanda deve ir."
Eles nem olharam para mim. Eu estava parada perto da pia, lavando a louça, uma testemunha silenciosa do meu próprio apagamento. Eu deveria ficar em casa, continuar meu papel de empregada e babá sem salário. Minha educação era um luxo que eles não podiam pagar, ou melhor, não pagariam para mim.
Amanda, para seu crédito, pareceu sentir uma ponta de culpa. Ela voltava da escola e espalhava seus livros no chão da sala.
"Olha, Júlia", ela dizia, "foi isso que aprendemos em álgebra hoje."
Ela me ensinava o que tinha aprendido, traçando equações com o dedo, soletrando palavras difíceis de seu livro de literatura. Eu era uma esponja faminta, absorvendo tudo. Não era uma escola de verdade, mas era alguma coisa. Era uma tábua de salvação.
E por aqueles breves momentos, sentada no chão com Amanda, o mundo dos números e das palavras se abrindo para mim, eu senti um lampejo de algo quase como felicidade. Era uma paz frágil, e eu a valorizava, porque sabia que não duraria.
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