
Meu pequeno, meu Cupido
Capítulo 3
Allison nunca considerou Kyle como o pai de Lucas. Quando se mudou para Blirson, ela mudou seu número de celular e apagou qualquer vínculo que ainda pudesse ter com o passado.
Por achar que Kyle provavelmente já estava casado e com filhos, ocupado com sua vida, ela parou de prestar atenção às notícias sobre ele.
À noite, ela se aconchegou ao lado de Lucas na cama dele, lendo sua história favorita pela centésima vez, enquanto o garotinho continuava de olhos arregalados e inquieto.
Após fechar o livro de histórias, ela o colocou no criado-mudo. Puxando o cobertor até o pescoço dele, pediu em um tom suave, mas firme: "Feche os olhos. Hora de dormir."
Lucas se enfiou debaixo das cobertas, mas sua voz saiu baixa e magoada. "Mãe, eu errei mesmo hoje?"
Na verdade, ele não havia feito nada de errado, mas sua forma de lidar com os problemas era um pouco desajeitada, e nunca recuava de uma briga quando podia resolver as coisas sozinho.
Dessa vez, Allison não o repreendeu nem insistiu que ele estava errado. Acariciando seus cabelos, ela respondeu baixinho: "Não, você não errou."
Sendo sincera consigo mesma, sabia o quanto era importante para uma criança entender o que era certo e errado, e que guiá-lo era sua função como mãe.
Lucas franziu a testa, confuso. "Então por que todos ficaram bravos comigo? Até você, mãe?"
Allison ficou em silêncio por um momento, depois explicou: "Às vezes, mesmo quando você tem boas intenções, a forma como você lida com as coisas não é o que as pessoas esperam. Quando você tenta proteger alguém, pode acabar machucando outra pessoa no lugar. Muitas vezes, os adultos ficam do lado da criança que chora mais alto, mesmo que isso não seja justo. Às vezes, as coisas são assim."
Lucas franziu a testa, ainda sem se convencer. "Ainda não entendi. Se você entende, por que gritou comigo?"
"Foi porque os outros pais estavam com raiva. Se eu não tivesse intervindo e falado algo, eles poderiam ter tentado te punir, e isso poderia ser muito pior. Eu precisava te proteger, mesmo que isso significasse ter que fingir ser rígida. Mas você sabe que eu nunca te machucaria, não sabe?"
"Se eu fiz algo errado, você deveria me dizer. Se eu fiz algo certo, você também deveria me dizer. Não é assim que deveria ser?", disse ele, olhando para ela e procurando a verdade no seu rosto.
Nesse momento, um alívio invadiu Allison, sabendo que o mundo ainda não havia obscurecido o senso de justiça de seu filho. Beijando a testa dele, ela sussurrou: "Você tem toda a razão. Eu errei hoje. Da próxima vez, pode me dizer se eu cometer um erro também, tá bem?"
Um sorriso se abriu no rosto de Lucas, que acenou com toda a seriedade que um garotinho poderia ter. "Tá bem, mãe!"
Na manhã seguinte, Allison estava na cozinha, preparando o café da manhã como de costume. Enquanto isso, Lucas saiu de fininho, ansioso para mais um dia de aventuras.
Quando o café da manhã ficou pronto e Lucas ainda não havia aparecido, Allison tirou o avental e desceu as escadas para procurá-lo. Na rua, ela foi recebida por uma fileira de elegantes carros pretos que haviam parado no meio-fio e vários homens com ternos pretos impecáveis.
Uma multidão de crianças da região já havia se reunido em volta dos veículos, atraídas pelo cromo brilhante e pelo luxo que raramente viam. No meio de tudo isso, Lucas estava paralisado, olhando para o primeiro homem que saiu do carro da frente.
Sem dizer uma palavra, o homem tirou os óculos de sol e os entregou a alguém.
Ele levou um tempo para observar o bairro, depois olhou para os prédios de apartamentos degradados antes de desviar o olhar para o grupo de crianças e, por fim, para Lucas.
Algo nos ternos impecáveis e na autoridade silenciosa do grupo chamou a atenção de Allison, pois esses homens não pareciam pertencer a esse lugar.
De repente, ela se deu conta de que havia deixado a porta do seu apartamento destrancada. Não querendo se envolver com o que quer que estivesse acontecendo, gritou: "Lucas! Venha, o café da manhã está esfriando!"
Em Streley, ela conseguia manter a compostura, mas aqui, tinha que aprender a gritar até ficar rouca só para chamar a atenção do filho.
"Estou indo!", gritou Lucas, se afastando do homem e correndo na direção de Allison.
Allison pegou a mão dele e eles subiram as escadas correndo. Quando ela estava secando as mãos após lavá-las, uma batida forte na porta soou.
"Quem é?", ela perguntou sem pensar, colocando os pratos do café da manhã sobre a mesa e limpando as mãos na calça.
Ao abrir a porta, se deparou com o mesmo homem que liderava o grupo lá fora e ficou sem palavras por um momento.
Allison já havia conhecido muitas pessoas na sua vida profissional, mas tinha certeza de que nunca havia visto esse homem antes.
De longe, ele não parecia tão intimidador, mas de perto, ela sentiu a intensidade da sua presença.
Ele era alto, com pelo menos um metro e oitenta, ombros largos e traços marcantes, usando um terno que provavelmente custava mais do que o aluguel dela.
A princípio, ele não disse nada, apenas a observando em silêncio com um semblante indecifrável.
Enquanto isso, Allison segurava firmemente o batente da porta, sem se mover. "Posso te ajudar em alguma coisa?"
"Onde Lucian está?", ele perguntou num tom seco.
As sobrancelhas de Allison se franziram em confusão. "Lucian? Quem é esse? Não conheço ninguém com esse nome."
"Meu filho." O tom do homem permanecia calmo, cada sílaba lenta e deliberada. "Lucian Lawson."
O coração de Allison batia tão forte que chegava a doer. Lutando para manter a voz firme, ela respondeu, tentando fechar a porta: "Você está no lugar errado. Não há nenhum Lucian aqui."
O homem não disse nada, apenas dando um passo à frente e bloqueando a porta com a mão. Sem pedir permissão, entrou e parou para observar o espaço organizado, mas modesto, a pilha de livros infantis sobre a mesa e os brinquedos por baixo do sofá. Após um aceno de cabeça silencioso, se sentou no sofá como se fosse dono do lugar.
Nesse momento, passos ecoaram no corredor. Lucas apareceu, esfregando as mãos úmidas na calça, e parou, seus olhos indo e vindo entre a mãe e o estranho sentado confortavelmente na sala de estar. Algo na postura rígida da mãe lhe dizia que a situação era séria.
Geralmente, ela era inabalável, mas agora parecia menor do que ele jamais a vira.
Aproximando-se, Lucas tentou parecer o mais maduro possível ao perguntar: "Quem é você e por que está na nossa casa?"
Os lábios do homem se curvaram num sorriso lento. Ele estendeu a mão, como se quisesse puxar Lucas, que se afastou, o olhando com cautela.
Sem se ofender, o homem se recostou e disse, sua voz suave, mas convicta: "Sou seu pai."
Allison sentiu suas pernas fraquejarem, pois temia esse momento há anos. Depois de todo esse tempo mantendo Lucas por perto de si, agora a verdade estava na sua sala de estar, impossivelmente real.
Lucas olhou para o estranho, depois para o rosto pálido da mãe e franziu a testa. "Mas a mãe disse que meu pai estava morto."
Os olhos do homem se desviaram para Allison, seu sorriso se intensificando, quase como um aviso. "Sinto muito em te decepcionar, mas estou muito vivo. E vim levar meu filho para casa."
Nesse momento, o silêncio se instalou, e nem Allison nem Lucas conseguiram dizer uma palavra.
Mesmo com quatro anos, Lucas percebeu a mudança no clima, olhou para a mãe e começou a juntar as peças, se dando conta de que a história do estranho poderia ser verdadeira.
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