
Meu Mundo Parou: A Traição Que Custou Uma Vida
Capítulo 3
A voz da minha mãe era como vidro partido, cada palavra a cortar mais fundo.
"A Sofia está traumatizada! O teu pai está a tentar acalmá-la. E o Miguel ousa fazer uma piada destas? Diz-lhe para pedir desculpa à Sofia imediatamente!"
Leo ouviu em silêncio, o seu rosto a endurecer a cada segundo. Ele não disse nada. Apenas olhou para mim, e nos seus olhos vi a mesma dor e raiva que sentia no meu peito.
Finalmente, ele falou, a sua voz perigosamente calma.
"Mãe, não é uma piada."
Houve um silêncio chocado do outro lado.
"A Eva morreu. O bebé também. Estou no hospital com o Miguel agora."
Leo não esperou por uma resposta. Ele desligou a chamada e bloqueou o número da minha mãe. Depois, olhou para mim.
"Vamos para casa, Miguel."
"Que casa?" perguntei eu, a minha voz vazia. "A Eva era a minha casa."
"Então vamos para a minha casa," disse ele firmemente. "Não vais ficar sozinho."
Ele ajudou-me a levantar. As minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Cada passo para longe daquele hospital era um passo para longe da Eva.
O caminho para casa do Leo foi um borrão. Lembro-me das luzes da cidade a passarem pela janela, cada uma um ponto de felicidade indiferente à minha miséria. O rádio estava desligado. O silêncio no carro era pesado, preenchido apenas pelo som da minha respiração irregular.
Quando chegámos ao seu apartamento, ele guiou-me para o sofá.
"Senta-te. Vou buscar-te um copo de água."
Sentei-me, mas não senti o sofá debaixo de mim. Eu estava a flutuar num vazio, um lugar frio onde o tempo não existia. Olhei para as minhas mãos. As mesmas mãos que seguraram a mão da Eva enquanto ela prometia amar-me para sempre. Agora, estavam vazias.
Leo voltou com a água. Ele sentou-se à minha frente, a sua expressão séria.
"Miguel, o que queres fazer?"
"Fazer?" repeti eu. "Não há nada para fazer. Acabou."
"Não, não acabou," disse ele, a sua voz firme. "Tens de decidir o que fazer com... com eles. O teu pai e a tua mãe."
A menção deles trouxe uma onda de raiva gelada. Eles não eram meus pais. Não mais. Eles escolheram o seu lado.
"Eles não são nada para mim," disse eu, e as palavras soaram verdadeiras. "Eles fizeram a sua escolha."
"E a Sofia?" perguntou Leo.
Sofia. A mulher que, de alguma forma, ainda conseguia destruir a minha vida mesmo depois de termos terminado há anos. O meu pai sempre a adorou, sempre a viu como a filha que nunca teve. Ele nunca aceitou a Eva. Para ele, a Eva era a mulher que roubou o seu filho preferido.
"Ela pode ficar com eles," disse eu. "Eles merecem-se uns aos outros."
Naquela noite, não dormi. Fiquei sentado no escuro, a reviver cada momento com a Eva. O nosso primeiro encontro, o nosso primeiro beijo, o dia em que lhe pedi em casamento. A imagem do seu sorriso, o som da sua risada. E depois, a imagem do seu rosto pálido na cama do hospital.
O meu telemóvel pessoal, o que não estava partido, começou a vibrar incessantemente. Mensagens do meu pai, da minha mãe. Chamadas perdidas. Ignorei tudo. Eles não existiam.
Na manhã seguinte, Leo entrou na sala de estar. Ele tinha olheiras escuras, mas os seus olhos estavam determinados.
"Tomei uma decisão," disse ele.
Eu olhei para ele sem expressão.
"Vou vender a minha parte da empresa da família. E vou ajudar-te a processá-los por negligência emocional e assédio."
Fiquei chocado. A empresa era o legado do nosso avô, o orgulho do nosso pai.
"Leo, não precisas de fazer isso."
"Sim, preciso," disse ele. "Eles não te trataram como um filho. Eles trataram-te como um incómodo. E o que fizeram ontem... foi imperdoável. A família não é sangue, Miguel. É lealdade. Eles não foram leais a ti."
As suas palavras atingiram-me. Lealdade. Era isso que a Eva me tinha dado. Era isso que o Leo me estava a dar agora. E era isso que os meus pais me tinham tirado.
"Ok," disse eu, uma nova determinação a formar-se dentro de mim. "Vamos fazer isso."
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