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Capa do romance Meu mercenário- Livro 4

Meu mercenário- Livro 4

Nas sombras geladas de Paris, um mercenário aguarda para cumprir seu quarto contrato do ano: eliminar um marido adúltero a mando da esposa traída. Entediado e impaciente com o frio rigoroso, ele observa o alvo e sua jovem amante enquanto prepara sua pistola com silenciador. Após abater a garota sem hesitação, o assassino confronta o homem bêbado e em pânico para entregar um recado final da esposa vingativa antes de encerrar o serviço e buscar suas merecidas férias.
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Capítulo 3

Confesso que nunca havia presenciado o velho Charlie tão

debilitado quanto com a morte de Esther. Eu acredito que nada é por

acaso, cada pessoa nessa terra tem a oportunidade de traçar o

próprio destino. O que você irá colher, depende do que plantar.

Infelizmente, perdi o que mais amava por uma vingança idiota de um

bando de traficante de merda. Desgraçado, estava nervosinho

porque o FBI havia prendido a cabeça da quadrilha. Ou

melhor, Charlie o prendeu. E como consequência, pagamos um alto

preço. Ele abandonou seu trabalho oficial, aposentou-se

indiretamente. A revolta, a mágoa, misturadas com a dor da perda o

transformou. Simplesmente se tornou um dos melhores assassinos

de aluguel, ou usando um termo mais apropriado, mercenário. A

diferença entre nós, é que Charlie somente aceitava contratos onde

deveria matar bandidos cruéis, corruptos. Agora eu? Indiferente.

Acredito que se alguém contrata os meus serviços é porque tem um

bom motivo, então, cada um com seus problemas.

Ouço a voz do comandante comunicando sobre nossa

chegada ao aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Não é a primeira

vez que venho a trabalho para o Brasil. Domino com destreza o

idioma português. E por sorte, tenho um grande amigo em quem

posso confiar para me acomodar com segurança. Em alguns

minutos, sinto a vibração das rodas na pista de pouso. Aguardo a

saída dos passageiros apressados, não me importo em ficar por

último apreciando a linda mulher que estava me servindo durante o

voo, uma pena que não pode me servir de outro jeito. Sexo em

banheiro de avião é adrenalina pura.

Levanto-me da poltrona, caminhando lentamente em direção à

aeromoça. Paro ao seu lado aproximando a boca da sua orelha, e

sussurro:

— Obrigado — digo com a voz rouca.

Vejo que sua pele se arrepia, deixando-a com as bochechas

coradas. Talvez devesse ter aproveitado melhor o serviço exclusivo

da primeira classe. Sorrindo, enfio as mãos dentro dos bolsos na

calça social. Engulo em seco limpando a garganta, e sigo em direção

à saída. Faço os procedimentos necessários, e aguardo a retirada da

mala com roupas e pertences pessoais.

Puxo os óculos de sol que estavam dentro do bolso da camisa

e o coloco no rosto. Arrasto a mala, andando no saguão principal,

mais à frente vejo Marcelo acenando euforicamente. Balanço a

cabeça negativamente. Aproximo-me rapidamente para acabar com

o show de vergonha alheia. Cumprimentamo-nos, e seguimos direto

para o estacionamento do aeroporto. Pedi que fosse cuidadoso ao

alugar o carro, já que não quero chamar atenção. Mas quanto mais

me aproximo do automóvel, tenho a certeza de que ele tem

problemas com discrição. Andar pelas ruas de São Paulo dirigindo

um Camaro Branco não é algo que se possa dizer que é discreto.

Encaro-o, fuzilando com o olhar matador. Sorte que não estou

armado, senão, seria uma morte a mais na minha conta.

Sem graça e desajeitado, abre o minúsculo porta-malas,

guardando a bagagem. Encosto na porta do motorista e estendo a

mão pedindo a chave. Com certeza o iludido achou que ia ficar

desfilando com esse carro, atraindo olhares curiosos.

— Qual é, capitão, só mais uma vez — suplica juntando as

mãos.

Meu Deus, estou lidando com um homem ou uma criança?

Enfim, opto por deixá-lo dirigir, mas só porque preciso me familiarizar

com as ruas paulistanas novamente.

Aproximadamente uma hora depois de sairmos do

estacionamento, entramos em uma área rural, repleta de galpões

abandonados. Sem casas, ou qualquer outro tipo de vizinhança.

Marcelo para o carro em frente a uma grande porta de metal, e

aperta o controle remoto, abrindo-a. Entramos, e o som do motor

ressoa ecoando dentro do grande galpão.

Desço do Camaro, analisando o local. Caixas pretas blindadas

empilhadas ao lado da pilastra, e no centro, computadores com

sistemas de localização. Não existe um programa que meu

escandaloso amigo não consiga hackear. Ele me faz lembrar aquele

amigo nerd do delegadinho da Camilly. Tenho certeza de que seriam

grandes amigos, irmãos separados na maternidade.

Enquanto Marcelo fala sem parar sobre o funcionamento

geral, ando de um lado a outro observando todas as entradas e

saídas, e possíveis rotas de fuga caso seja necessário. Do lado de

fora várias câmeras de segurança.

— Ali tem banheiro, e como pode ver, improvisei uma cozinha,

e camas. Já que alguém não quis ir para o hotel. Por que dessa vez

não? — questiona-me.

— Prevenção. É um contrato milionário, e não tenho muitas

informações sobre o cliente. Todo cuidado é pouco. Hoje à noite irei

ao seu encontro, ou melhor, falso encontro.

— E se ele cancelar o contrato?

— Acredito que não, depois posso alegar que tive problemas

por isso o atraso.

— Cara, você pensa em tudo.

— Hum... Agora quero comer alguma coisa e descansar um

pouco — digo, abrindo a geladeira improvisada.

Desço do táxi em frente ao restaurante combinado com o

contratante. A atmosfera em volta do local é suspeita. Através da

grande vidraça de luxo, consigo visualizar muitos clientes usando

ternos, na cor preta. Qual a probabilidade de 70% desses homens

usarem a mesma roupa em pleno sábado à noite? Eu digo, é zero.

Óbvio que isso está cheirando a emboscada.

Não sei se me sinto ofendido, ou se me considero importante

levando em consideração o tanto de capangas que aguarda a minha

chegada. Entrar ou não entrar, eis a questão? Talvez ele só queira

garantir a sua segurança ao estar do meu lado. Qual é Jhon, quer

enganar quem? Esse filho da puta acha que pode me pegar assim?

Ah, qual é? Não está lidando com nenhum amador.

Sei que dentro desses carros estacionados do outro lado da

rua, está repleto de homens armados só esperando o sinal para

atirar. E que em cima dos prédios provavelmente também têm

atiradores de elite com seus rifles de mira noturna. Patético.

Esgueirando-me através das sombras da noite. Ajeito o capuz

sobre a minha cabeça, passo direto pelo restaurante, avançando

alguns quarteirões. Logo à frente, encontro uma cabine telefônica.

Entro, fecho a porta, insiro algumas moedas, e digito o número do

celular do contratante.

— Sou eu. Achou mesmo que eu fosse idiota o suficiente de

encontrar você com essa cambada armada? Ah, qual é? Não,

vingança? Porra, já falei que não tenho nada a ver com isso? Matar-

me? Tente a sorte, seu porco. Cuidado para não acabar com uma

bala no meio da testa.

Coloco o telefone no gancho encerrando a chamada.

Desgraçado, chamou-me até o Brasil só para me matar. Caralho, já

expliquei que não estou envolvido na morte do seu filho, mas o infeliz

quer achar um culpado de qualquer jeito para superar o luto. E o

bode expiatório da vez, sou eu.

        Capítulo 4

Com a cabeça escondida debaixo do travesseiro, procuro

com uma mão o despertador que está em cima da mesinha de

cabeceira. Bato os dedos em todos os lugares, menos no botão para

acabar com aquele som torturante. Bufando, tateio mais algumas

vezes até encontrá-lo, bato com força quase quebrando o meu

pequeno objeto de tortura matinal. Rolo o corpo na cama ficando de

barriga para cima. Encaro o teto branco e sem graça do quarto. O

final de semana passou muito rápido. Ainda não acredito que meus

pais insistem em fazer inspeção quinzenal. Bem, na verdade, eles

trazem alimentos abastecendo o armário e geladeira, mamãe com

sua mania de limpeza, é como se eu fosse uma criança

irresponsável que não pode cuidar de si própria. Divido o

apartamento com Diego há mais de dois anos, ele não reclama dos

mimos dos meus “Dadys” como ele faz questão de chamá-los.

Depois daquela maldita viagem, criei coragem para enfrentar a vida,

e entendi que posso andar com minhas próprias pernas, não preciso

de marido, ou homem, para seguir em frente rumo ao futuro. Para

alguma coisa serviu ser sequestrada, e usada como um objeto

sexual descartável por um desconhecido. Sherolayne aproveitou

cada segundo, mas quando relembro que fui expulsa praticamente

com a calça nos pés, ainda tenho vontade de gritar. Sorte daquele

Don Juan do Paraguai, não nos encontrarmos mais, senão, iria falar

tudo que ficou entalado na garganta. Paris, quem precisa disso?

Bocejando, levanto lentamente, arrasto o corpo cansado para

fora da cama em direção ao banheiro. Lavo o rosto, escovo os

dentes e prendo o cabelo em um coque alto. Lidar com vinte e cinco

crianças na idade de cinco anos é um grande risco para cabelos

compridos e soltos. Glitter, cola, por vezes piolhos, com tudo que

uma professora do jardim de infância tem direito. Mas não troco

meus “pimpolhos” por nenhum outro tipo de trabalho, amo o que

faço.

Ouço o som da porta da frente sendo aberta. Diego passou

novamente à noite fora trabalhando como barman em uma boate. É

um clube de público misto, constantemente insiste para que eu vá à

caça como costuma dizer, e colocar a Sherolayne para malhar, mas

ela está sedentária, contentando-se com exercícios leves em casa.

— Diego? — chamo seu nome.

— Sim, honey. Oh, meu Deus, estou mortinha — responde.

Escolho um jeans e uma regata, calço o par de sapatos, e

abro a porta do quarto, indo direto até a cozinha/sala. Encosto no

batente e fico admirando a beleza do grande homem jogado no sofá.

Não consigo definir sua beleza. Droga. Homens de sorte. Aproximo-

me nas pontas dos pés, e puxo os tênis, jogando-os no chão. Por

trás do seu 1,80m de altura, e lindos olhos castanhos tem uma

história de vida muito triste. Preconceito, decepção, tortura física e

psicológica. Quando vejo meus pais o tratando como filho, sinto um

aperto no peito. Ainda não acredito que as pessoas que lhe deram a

vida o torturaram durante anos, só por sua opção sexual. Faltou

amor? E sobrou preconceito, incompreensão. Seu peito sobe e

desce acompanhando o ressonar da sua respiração regular,

indicando que já está dormindo. Continuo andando nas pontas dos

pés até a geladeira. Pego uma fruta, e a bolsa de cima da cadeira, e

saio sorrateiramente para não o acordar.

Aperto o botão do elevador e aguardo. Logo os vizinhos do

nosso andar também aguardam a chegada da caixa de metal. É

como se combinássemos, mas aparentemente todos cumprimos a

mesma carga horária. Ansiosa, confiro o relógio no pulso mais uma

vez. Quando a porta dupla se abre, revelando uma grande

quantidade de pessoas, considero a hipótese de esperar o próximo

ou até mesmo descer de escada, mas quando vejo o sorriso do

nosso querido condômino, Caio, não resisto e entro na lata de

sardinha suportando o aperto. Droga, droga, não aprende mesmo. É

só um homem bonito sorrir que a Sherolayne bate palmas

empolgada. Oh, meu Deus, sinto como se faltasse o ar, além das

fragrâncias misturadas dos perfumes das pessoas. Recuo alguns

passos no pequeno confinamento para me afastar de uma senhora

que provavelmente exagerou no perfume, e esbarro em algo duro,

sólido, mas ao mesmo tempo macio, aconchegante. Estou dentro

dos braços de Caio. Abaixo a cabeça envergonhada sem coragem

para encará-lo. Algumas partes do meu corpo comemoram com

gritos, palmas e confesso que até mesmo rojões barulhentos, porém

a parte racional, aquela que me faz querer sair correndo e nunca

mais encontrá-lo, no momento é quem controla a situação. Respiro

fundo, controlando a respiração para não parecer a louca tarada do

sétimo andar.

— Está tudo bem — sussurra próximo à minha orelha.

Fecho os olhos, lutando internamente contra a Sherolayne

que insiste que devo aproveitar o momento e tirar uma casquinha do

vizinho bonitão. Mas, não posso fazer isso, ou posso?

— Não, você não pode — penso alto deixando as palavras

escaparem da boca.

— O quê? — questiona confuso, encarando-me.

Droga... Droga... Nossa senhora das calcinhas molhadas,

como resistir à tentação? Porque me colocais à prova logo pela

manhã, ainda mais quando sonhei com aquele... Aquele... Sabe...

Tenho raiva só de lembrar seu nome, ou melhor, eu não lembro.

Como era mesmo? Pietro? Pablo? Quem quer saber o nome de uma

criatura desprezível.

— Desculpe, estou pensando alto. — Sorrio envergonhada.

Só mais duas paradas, aguenta firme, Malu. Flashes de três

anos atrás, naquele quarto contra a parede invadem meus

pensamentos. Mesmo tão próxima do Caio, não sinto aquela

eletricidade que percorreu meu corpo naquela noite. Foi inexplicável,

incomparável. Esquece, Malu, esquece, foca no Caio.

Não sei de onde, e como, mas um odor fedorento exala dentro

do elevador, dificultando respirar. Fala sério, meu dia começou

maravilhosamente bem. Prendo a respiração. Credo, alguém anda

comendo muitos ovos nesse prédio. Graças a Deus, em fração de

segundos chegamos ao térreo, como se tivesse uma bomba prestes

a explodir, todos saem correndo, desesperados por ar puro.

Agradeço gentilmente o vizinho por ter me acolhido mesmo sem ser

sua intenção. Despeço-me indo na direção contrária a dele.

Acelero os passos por alguns quarteirões até o ponto de

ônibus. Sento no banco da pequena casa azul aguardando a

condução. Pego o celular do bolso, e percorro o Facebook

procurando algo útil, então, quando ergo a cabeça sou atingida com

uma bomba pior do que a que soltaram no elevador.

Em plena avenida, dirigindo um Camaro branco, com o braço

apoiado na janela, e uma mão no volante, está Pierry. Não pode ser

meus olhos são traiçoeiros e estão tentando me enganar, deve ser

alguém muito parecido, impossível que depois de todos esses anos,

iremos nos encontrar no Brasil, na minha cidade. Meu coração bate

acelerado como se fosse saltar do peito, a sensação é de borboletas

no estômago causando náuseas. Levanto rapidamente, deixando o

celular cair no chão. Perplexa, em choque, permaneço encarando o

homem sentado atrás do volante. E se for ele? Por que estou agindo

assim? Não é da sua conta, ele não é importante, não é ninguém

para você.

Como se notasse minha presença, Pierry vira a cabeça,

levando seus olhos diretamente até onde estou. Pela expressão no

rosto com o olhar surpreso, confirmo o que suspeitava. É ele, esse

homem, o Don Juan falsificado. Faço menção de abrir a boca, mas a

fecho imediatamente. Lanço um último olhar em sua direção, e viro

de costas para não o ver. Infantilidade? Talvez. Qual mulher madura

nunca teve uma noite de sexo quente e casual? Só não quero ter

contato nunca mais, nunca mais, repito mentalmente.

Desço do ônibus em frente à escola. As crianças correm na

calçada, despedindo-se dos pais, outros encontrando os amigos para

entrar na sala de aula. Sorrio ao ver o quanto é lindo o gesto de uma

criança, sempre sincero e puro, ao contrário de uns e outros que

acha que pode... Ahhgrrrr... Resmungo comigo mesma. Esqueça

isso, passou, foi só sexo, só sexo.

Só sexo, nada. Espero que esse cretino nunca mais cruze

meu caminho. Respiro fundo, e lembro dos braços de Caio.

Caio, nada, Pierry contra a parede, quente, selvagem...

Cala a boca, Sherolayne, você não opta por nada sua

assanhada. É o vizinho sim, nada de parede ou quente. Não tem

amor-próprio, eu, hein, se controla mulher.

        Capítulo 5

Como diabos pude encontrar essa mulher depois de todo

esse tempo? Ela tinha que morar logo na cidade de São Paulo. Ah,

qual é, e sua reação como se não me reconhecesse. Duvido que não

me reconheça, por isso virou de costas, fazendo-se de difícil. Ela não

estava nada difícil naquela noite no hotel, enquanto a fodia contra a

parede.

Piso fundo no acelerador na marginal, ultrapassando os carros

mais lentos. O som do motor ronca alto atraindo olhares curiosos.

Sinto como se estivesse com algo entalado na garganta. Em três

anos, Maria Luiza não mudou em nada. Continua linda, e sensual

com seus seios fartos de prender atenção de qualquer homem com

sangue quente.

Ingrata. Salvei sua vida em Paris, tirando-a das ruas, já que

estava bêbada igual um gambá, colocando-se em perigo. E se eu

fosse um psicopata, estuprador ou qualquer coisa assim? Hoje, ela

estaria enterrada em qualquer lugar, morta. Tudo bem, que também

a teria matado se fosse necessário, mas não quer dizer que não

sentiria remorso. Okay... Okay... Não sentiria remorso. O que posso

fazer? É minha profissão, ganho a vida basicamente arrancando a de

outras pessoas. Agradeçam ao meu querido pai, responsável por

envolver o filho nesse mundo sombrio e solitário.

Desde pequenos aprendemos que devemos seguir os passos

dos pais. É considerado que são responsáveis pela criação e futuro.

Mas, acho que Charlie ficou cego de raiva e dor depois do que

aconteceu com a esposa. Quem pode culpá-lo, não é? Talvez fosse

melhor se tivessem acabado o serviço, mas, os desgraçados

queriam deixar uma testemunha para contar em detalhes. E

adivinhem quem foi o sortudo. Eu. Enfim, isso ficou no passado, e

hoje, sou forte graças às feridas que com o tempo cicatrizaram.

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