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Capa do romance MEU DELEGADO

MEU DELEGADO

Valentina Torres Encolho as pernas abraçando os joelhos, apoio minhas costas contra o azulejo frio da parede. Fecho os olhos sentindo a ardência das lágrimas que descem por meu rosto. Só peço que pare, por favor. Mais, socos na porta me fazem pular assustada, amedrontada. - Por favor, por favor, pare Spencer - imploro. - Vadia desgraçada. Abre essa porta Cindy. - Socos, e mais socos. Sinto algo pingando, abaixo a cabeça e vejo as gotas de sangue manchando o chão de vermelho. Deslizo a mão limpando minha boca, e a vejo suja com as evidências de mais uma maldita noite. - Spencer, por favor - suplico, em meio às lágrimas. - Eu vou te matar, sua puta - grita alto. Com um último pontapé a porta se abre. Alucinado e fora de controle, ele entra no banheiro vindo diretamente em mim. Seus dedos enrolam em meus cabelos e os puxam me levantando do chão. Posso ver em seus olhos a fúria cega, e tenho certeza de que hoje será meu fim. Grito por socorro, enquanto sou arrastada como um animal nosso quarto. Os vizinhos não se intrometem em brigas de casais, não importa para eles se serei morta. Debato-me tentando fugir de suas mãos, mas é inútil. Além do mais fugir para onde? Não tenho ninguém, e ele nunca me deixaria partir com vida. Sou suspensa no ar, e jogada na cama. Seu grande corpo por cima do meu, me segurando presa entre ele e o colchão. Usando as pernas como reforço, abre as minhas pernas rasgando em seguida minha calcinha. Suplico encarando dentro dos olhos verdes, e o sorriso que nasce nos seus lábios ao enfiar seu pau, me traz a realidade de que ele é um monstro frio e sem coração. Suas mãos seguram meu pescoço com força, e a cada arremetida na minha boceta seus dedos apertam mais forte, me sufocando. Desisto de lutar, simplesmente aceito o destino. - Gosta assim, não é? Admite. Eu vi você olhando para o homem que coleta o lixo. Quer ser fodida igual uma piranha. - Uma mão solta o pescoço, e desce em direção ao rosto me esbofeteando. Deus, por favor, acabe com isso. Acabe com isso, por favor. Sem ar, sufocando aos poucos, pouco a pouco vou perdendo a consciência. Quando saio na rua, ando sempre de cabeça baixa, ele que escolhe minhas roupas, só posso sair em sua companhia, sair é quase um milagre. Quando o conheci na faculdade, gentil, amoroso, bondoso, não fazia ideia do tipo de pessoa que ele se tornaria. Às vezes acho que o amor me cegou para enxergar os sinais. Ciúmes, discussões, suas mãos quando seguravam firme meu braço, mas sempre em seguida um pedido de desculpas com flores, e lágrimas. E como uma tola apaixonada, aceitei seu pedido de casamento. Sempre fui sozinha criada em lares adotivos e ter alguém cuidando de mim desse jeito era algo maravilhoso, não podia perdê-lo. Os primeiros dias de recém- casados foram inesquecíveis. Mas quando engravidei tudo mudou. Do dia para noite meu príncipe encantado se tornou meu carrasco. Em sua primeira crise me espancou a ponto de perder o bebê. Sangrando e com fortes dores abdominais fui levada para a emergência e como uma boa esposa devotada, contei aos médicos como tinha caído da escada arrumando o sótão. Depois daquele dia as coisas só pioraram. Violência sexual, agressão física, humilhação verbal. Perdida em pensamentos, sou pega de surpresa quando Spencer gira meu corpo me colocando de bruços e monta por cima da minha bunda. Mordo os lábios a ponto de sangrá-los. Algo duro é enrolado em meu pescoço e sou montada como se fosse uma égua. Minha visão vai ficando turva, embaçada. É o meu fim. Fecho os olhos sentindo alívio, porém uma voz ao fundo sussurra no meu ouvido que mereço mais, que não posso acabar assim. Reúno forças que não sabia que tinha, e decido lutar pela minha vida. O ar fugindo dos pulmões dificultando respirar, me contorço. Distraído com seu ato de violência, não percebe quando estico o braço até criado mudo e pego a caneta. Tento mover o abdômen e com um momento de coragem enfio no seu joelho. Gritando, Spencer solta a cinta que prendia meu pescoço e rola para o lado levando as mãos até o ferimento. Respirando fundo, pulo da cama. - Eu vou te matar, Cindy. Em pé, nua e sangrando. Procuro a arma que ele esconde em um compartimento secreto atrás do nosso retrato de casamento. Por vezes fingi estar dormindo e o vi mexendo. Talvez estivesse só esperando o momento certo para descarregá-la em mim. Levanto a arma em punho e miro em sua direção. Olhos que antes tinham fúria, agora tem medo. Está com medo de mim, querido? - Você não tem coragem de fazer isso. É só uma puta interesseira. Se me matar, minha família vai acabar com você. Engatilho a arma.
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Capítulo 2

Amigo, você é um traidor. Está proibido de ficar desse jeito por causa

dela, vai por mim, não vale a pena.

— Oh babaca anda logo. — Ouço o som de buzina e uma voz

gritando.

Encaro o retrovisor e vejo a longa fila que se formou atrás de mim.

Coloco a mão para fora e não resisto o impulso de erguer o dedo do meio.

Babaca é você, cretino. Acelero liberando a passagem. Camilly

definitivamente é problema, além do mais ela foge de mim como diabo foge

da cruz. Será que é meu perfume? Ah que se foda essa maluca.

Depois de dez minutos e três quarteirões abaixo da localização da

igreja consigo estacionar. Enquanto subo a ladeira sinto olhares sobre mim,

cochichos, e de canto de olho consigo ver que são mulheres de bochechas

coradas e sorrisos bobos.

Estão rindo de mim ou para mim? Cada dia que passa entendo menos

essas mulheres. Minha doce Sheron era tão fácil de lidar, amorosa, gentil,

educada. Nunca irei me conformar de como ela escapou por entre meus

dedos. Ainda me pergunto se eu poderia ter feito algo para evitar sua morte.

Sempre carregarei essa incerteza dentro da minha alma, e jamais me

perdoarei.

— Ouuu está garanhão hein? — Ethan se aproxima, sorrindo e

assobiando.

— E aí, poderia não ficar gritando isso? Já não estou me sentindo

confortável e você não ajuda.

— Ahhhhh qual é? Um delegado fodão com vergonha, cena épica.

— Ethan — resmungo entre dentes.

—OK. OK. — Erguendo as mãos em sinal de rendição, anda ao meu

lado. — Cara acabei de ver Camilly, se eu pego uma mulher dessa esfolo a

cabeça do gandalf.

— Gandalf? — questiono confuso. Ou seria melhor não pensar no que

significa.

— É meu pau, sabe, coloquei um apelido carinhoso.

— Você me assusta. Juro, e muito. — Recuo dois passos criando certa

distância entre nós.

Enfim chegamos à frente e longa da escadaria da igreja. Subimos

pulando de dois em dois, a cada passo tenho a sensação de que essa maldita

borboleta irá me sufocar. Contornamos a entrada principal procurando a

porta da lateral para os padrinhos. Encontramos e mais que depressa a

empurramos para fugir do calor escaldante. Assim que colocamos o pé

dentro da sala o ar gélido toca minha face, me fazendo suspirar de alívio

com os olhos fechados.

Ethan parado ao meu lado, me cutuca com o cotovelo. Observo ao

redor percebo o quanto chamamos atenção irrompendo pela porta daquela

maneira. Envergonhado, balanço a cabeça cumprimentando os demais.

Minha acompanhante disfarça rindo. Os meses em que Dylan

permaneceu no hospital em coma, esbarrei várias vezes com essa mulher, e

uma única vez conseguimos conversar por cinco minutos e para ser sincero

não parecia a mesma pessoa.

— Está charmoso senhor delegado. — Colocando um pé na frente do

outro como se estivesse desfilando, Camilly se aproxima puxando meu

braço para entrelaçar ao seu.

E agora, ferrou tudo. Quem desligou o ar condicionado? Está

esquentando aqui dentro também.

— É... Hum... Você está muito elegante, bonita, sabe. Bonita.

O som da sua gargalhada entra por meus ouvidos, desce por meu corpo

penetrando minha pele, causando arrepios.

— Entendi gracinha. Não precisa ficar envergonhado, sei que me acha

uma tentação. — Piscando, ela sorri com seus lábios carnudos pintado de

vermelho.

Puta merda! Foco Brian, lembre-se que ela não faz seu tipo.

Encaro sua boca, imaginando como seria tê-los em volta de algo

grosso e grande, sentindo a maciez e suavidade. Não, não, agora. Tento

afastar os pensamentos para coelhinhos fofos na fazenda. Engulo em seco,

sem saber o que responder, na verdade sei bem o que gostaria de fazer.

Colocá-la de joelhos e observar sua boca engolindo meu pau. PORRA

BRIAN! Não.

Seus olhos escuros e brilhantes encaram os meus de um jeito profundo

e sensual. E sou salvo pela cerimonialista que surge com a prancheta em

mãos, organizando os casais para a entrada. Seguimos a organizadora até a

porta de entrada e ficamos em fila, aguardando o sinal para cada um entre

com seu par.

Mantenho o olhar firme para frente, mas o perfume de Camilly atingi

em cheio meu nariz. Adocicado, suave.

Qual é Brian? Esqueceu Sheron, sua esposa?

Como um flash de memória, relembro o dia do nosso casamento. A

empolgação dela era contagiante, a dedicação com cada detalhe. Fez

questão de acompanhar os decoradores, o Buffet, ela era muito detalhista.

Todos amavam minha Sheron. Usando vestido branco de renda, com um

detalhe singelo no cabelo e um simples buquê de flores do campo.

— Brian. Brian. Vamos. — A voz feminina me traz dos pensamentos

perdidos.

— Sim, vamos — respondo, afastando as dolorosas lembranças.

Como todos os casamentos a noiva está atrasada e pude sentir a agonia

de Dylan enquanto aguarda no altar. O clima tenso impregnou o ambiente.

Ando alguns passos sutilmente e me aproximo o suficiente para que

ele possa me ouvir. — Desfaz essa cara, sua mulher está chegando ok. Ou

vou te dar um soco.

Objetivo alcançado com sucesso. Consigo tirar um sorriso tímido do

famoso agente do FBI.

De repente a marcha nupcial soa alto dentro da igreja, as portas se

abrem. Alyssa está maravilhosa usando seu vestido branco. E ao lado da

noiva dona Emilia, a sogra. Não sei como, mas com o passar do tempo Aly

conseguiu convencer Dylan sobre sua mãe ser tão inocente quanto eles, e

aparentemente fizeram as pazes.

Inquieto ao ver sua mãe, o pequeno Dominic se remexe no colo de

uma senhora e estica os braços na direção dos seus pais. O pequeno está

crescendo rápido.

Percorro meus olhos pela igreja enquanto a marcha ainda toca para a

entrada triunfal da noiva, me pego encarando a senhorita encrenca. E para

minha surpresa, ela me encara de volta com um brilho especial no olhar.

Fique longe tentação, bem longe.

Alyssa está maravilhosa em seu vestido especial de noiva. Lembranças

dolorosas invadem meus pensamentos, engulo em seco sentindo o sabor

amargo da saliva. Mas, minha amiga teve sorte, reencontrou seu grande

amor do passado e mesmo com tudo que aconteceu, agora, estão juntos e

serão felizes para sempre ou até que dure. Depois de tudo que passei só

quero viver minha vida em paz, e sozinha. O amor entre um casal é só um

sentimento ilusório da mais plena satisfação. Infelizmente descobri isso de

uma forma cruel, com muita dor e sofrimento. Mudar de nome, país e fugir

das consequências dos meus atos me custaram um alto preço. Com sorte

uma amiga da época da faculdade conseguiu me emprestar um dinheiro, e

pude recomeçar em um país novo, mas como nada vem fácil, por vezes

adormeci sentada no banco da praça por não ter onde passar à noite. Fome,

às vezes uma refeição por dia ou até mesmo nenhuma.

Já tinha perdido minhas esperanças e só desejava que a morte viesse ao

meu encontro, aquele mundo não tinha mais nada para me oferecer. Nunca

acreditei em milagres, mas a senhora Josefy foi um anjo enviado até mim

como um grande milagre. Ela estava caminhando na praça com seus

filhotes, ao me ver praticamente desmaiada no banco, suja, com fome, e

semiviva. Sentou-se ao meu lado. Permaneci com os olhos fechados, não

tinha força suficiente para reagir. Suas mãos enrugadas ergueram uma

garrafa d’água e um sanduíche na minha direção. Relutei por uns minutos

para aceitar a ajuda de um estranho, mas o que mais eu poderia fazer?

Esquecendo quaisquer resquícios de educação, tomei de suas mãos

rapidamente o que estava oferecendo. Sem cerimônias devorei em pouco

tempo o sanduíche.

— Obrigada — agradeci educadamente com a voz trêmula.

— Não precisa agradecer querida. Faz dias que há vejo sentada aqui

nesse mesmo banco. — Seu olhar terno e gentil, aqueceu meu coração.

— Hum... É obrigada novamente. — Abro um sorriso tímido e

envergonhado.

— Querida, por que está morando na rua? — Calada, encaro o rosto da

senhora. — Desculpe minha intromissão, mas uma mulher jovem e bonita,

assim na rua.

— Tudo bem, é complicado. Problemas familiares. — Colocando sua

mão marcada pela idade por cima, me surpreendi. E pela primeira vez, sinto

vontade de contar o que aconteceu para alguém.

Comecei a história desde o primeiro dia que conheci o Spencer, as

agressões, o cárcere privado, a perda do bebê, mas pulei a parte do

assassinato. Não queria que essa senhorinha bondosa sentisse medo de

mim, a assassina do próprio marido.

Então, um milagre chamado Josefy Carter surgiu na minha vida. Sem

filhos, irmãos ou parentes, ela era uma pessoa sozinha. Comovida, abriu seu

grande coração e as portas de sua casa para mim. Ajudou-me a mudar de

nome acrescentando seu sobrenome, assim me tornando sua filha. Durante

três anos pude sentir como era ter o amor de uma mãe, infelizmente Josefy

morreu com câncer de pulmão. O que tinha em abundância de bondade

tinha em teimosa. Pedi inúmeras vezes para fazer o tratamento e largar o

vício do cigarro, mas ela só respondia.

“Filha estou velha e cansada, quero morrer feliz fazendo algo que

gosto.”

Como sua única herdeira, sou responsável pelo dinheiro e seus

investimentos. Camilly Carter, dona de uma pequena fortuna.

Só posso agradecer por ter encontrado um anjo em meu caminho,

graças a ela tive um recomeço. Confesso que tenho medo, sinto como se a

qualquer momento a polícia fosse invadir o apartamento e me prender pela

morte daquele cretino. Quando deito na cama e fecho os olhos, ainda posso

vê-lo com o cinto na mão. O ódio queimando em seus olhos, suas mãos

estrangulando meu pescoço enquanto me violentava. Já se passaram cinco

anos, mas tenho a impressão de que mesmo morto aquele desgraçado nunca

irá me dar paz.

Ergo a cabeça e sinto o olhar do delegado Brian sobre mim. Como não

iria notar um Deus em formato de homem? Moreno, alto, forte e com um

sorriso que molharia a calcinha de qualquer mulher. Seu único defeito é ser

policial. Impossível se envolver com aquilo que venho fugindo por anos, e

sei como esses policiais podem ser persuasivos quando querem descobrir

algo. Então, melhor manter distância e torcer a calcinha no banheiro.

Minha nova personalidade é descontraída, apaixonada pela vida. E

sim, descobri a sensação de gozar, coisa que o Spencer jamais conseguiu. É

típico a mulher fingir que está satisfeita para agradar o companheiro, mas se

tem algo que aprendi nisso tudo, jamais finja um orgasmo, deixe o homem

saber que ele fode mal, quem sabe assim aprende não pensar só no prazer e

satisfação pessoal.

Encaro os olhos escuros do delegado que desconfortavelmente se

remexe desviando sua atenção. Sinto um calor crescente percorrendo meu

corpo, não consigo evitar percorrer os olhos desde a ponta do seu sapato

másculo até o último fio de cabelo.

Como dizia Josefy: Filha tem que transar muito. Porque depois a

terra vai comer mesmo. Homem é objeto de prazer filha, o deixe pensar

que está te usando, mas na verdade quem está usando alguém é você.

Acatei cada conselho, Josefy era sábia. Em pouco tempo aprendi muita

coisa com ela, desde como investir o dinheiro até como ser feliz na vida

sexual, sem me machucar.

Dominic inquieto estica seus pequenos braços para os pais a todo o

momento, o que faz o padre acelerar os votos matrimoniais. Meus pés doem

dentro do sapato apertado, e logo ouvimos o sonoro SIM do casal de

pombinhos e o DECLARO MARIDO E MULHER. Aplausos seguidos de

gritos de felicitações ecoam dentro da igreja.

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