
Meu Delegado - o despertar da submissão
Capítulo 3
6 anos depois...
Rio de Janeiro.
Sentada na cama, vejo minha filha dormir. Alice era o meu anjo da guarda, a minha força para continuar e não desistir de viver. Sim, Alice é fruto do abuso que sofri, eu escolhi tê-la, e foi ela que me impediu de me matar. Lembro como se fosse ontem, estava no banheiro da escola, havia acabado de vomitar e Ingrid tinha ido comprar um teste de gravidez. Naquele dia, eu chorei tanto que dormimos ali mesmo no chão do banheiro. Minha mãe, assim que descobriu me expulsou de casa, não quis me ouvir, disse que eu escolhi abrir as pernas então eu que me virasse. Isso não é mãe, mãe não humilha e nem desiste de um filho, mãe não manda ele embora e manda ele se virar sozinho, mãe é aquela que cuida, que ama, a que dá amor e carinho, aquela que se preciso for dá a vida pelo filho, e se fosse preciso eu daria a minha vida pela minha filha.
Passo a mão em seus cabelos claros, e ela se mexe na cama. Um filho é um dos melhores presentes de uma mulher, mas também é uma responsabilidade a vida toda. A dispensa está praticamente vazia, o que temos é água, arroz, pão velho e ovos. Com muito custo achei umas moedas perdidas e consegui comprar 2l de leite para Alice. Havia colocado currículos o ano todo, na verdade desde que me formei. Escolhi direito, mas não pretendo advogar, o meu sonho é ser promotora, é colocar atrás das grades um monstro, não só um mas como todos os monstros, meu sonho é fazer justiça! E se Deus quiser irei passar no concurso.
Mas enquanto isso não acontece, eu precisava de um emprego, na verdade era o meu primeiro emprego, e cada vez estava mais difícil conseguir, pois todo lugar pedia experiência, e infelizmente, eu não tinha.
— Acorda meu amor — dou beijinhos por todo seu corpinho.
— A mamãe me deixa ficar mais um poquinho, é que eu tô sonhando.
— Já está quase na hora do almoço, filha.
Levanto e abro as cortinas.
— Mas tem Barbie, e tem a masha e o urso.
Eu ri. Alice tinha a incrível capacidade de falar mesmo dormindo. As vezes era divertido, mas as vezes não.
— E o que eles estão fazendo?
— Eles estão brincando comigo, e a casa é... é... — ela volta a dormir, como se nada tivesse acontecido.
— Deixa a menina dormir, coitadinha— Ouvi Ingrid dizer do corredor.
Ingrid foi quem me socorreu quando fui expulsa de casa. Eu morava em Porto Alegre, cresci lá, adorava aquela cidade. Ingrid também morava lá, mas quando soube do que aconteceu comigo, fez de tudo para me ajudar, pegou suas economias e comprou um flat para nós duas. Ela é uma irmã mais velha para mim, e para minha filha é como se fosse a segunda mãe.
Ingrid foi a única que se preocupou comigo na minha gravidez, a única que me ajudou, a minha família biológica nunca sequer procurou saber se eu estava viva. Quando Alice nasceu, foi Ingrid que me estendeu a mão mais uma vez, desde então prometemos nunca abandonar a outra.
— Tia babona. Você faz tudo para mimar minha bebê. — digo, seguindo ela para a cozinha.
— Que olhos vermelhos e fundos são esses? — ela arregalou os olhos, perplexa — Elena você não dormiu a noite toda? — disse, ao notar o notebook ligado.
Suspirei.
— Como dormir com a dispensa desse jeito? Como dormir se o leite da minha filha já vai acabar? — digo, e lágrimas se formam em meus olhos.
Olho pra cima para que elas não caiam. Estava cansada de chorar a noite toda.
— Ai amiga — ela me abraça — senta aqui, escuta, nós vamos dar um jeito, como sempre demos. Eu vou ver se consigo pedir um vale no escritório.
— Você já deve estar cansada de carregar tudo sozinha. Desde que saí do estágio, não consigo arrumar nada. Não tenho esperanças, não tenho mais forças para ouvir Alice pedir as coisas e eu não ter como pagar.
Ela segurou a minha mão e enxugou as minhas lágrimas.
— Nada disso! Você vai sentar ali e vai continuar colocando currículos, cadê a promotora que eu conheço em? — ela ri...e me faz rir também.
Respiro fundo.
— Você está certa!
— Mamãe, porque tá chorando? Chora
não mamãe — Alice diz e me dá um abraço.
— Elena, ouvi dizer no escritório que o delegado Thomas Martinez abriu seleção para vaga de assistente pessoal — Ingrid diz animada — mas é claro, como não pensei nisso antes? Na verdade eu pensei, eu esqueci de te falar — ela me diz andando de um lado para o outro — Você tem nível superior, já estou até vendo você empregada, mamãe irá comprar muitos fini Licee.
— Mas eu não tenho experiência, sem contar que o delegado Martinez é o melhor do país, só de pensar em trabalhar para ele minhas pernas tremem.
— Vou falar pra todo mundo da escolinha que mamãe trabalha pra um delegado — Alice ri, toda boba.
Ah meu Deus! Será?
— Mamãe vai namorar o delegado também.
— Ingrid!— a repreendo. — Eu nunca tenho sorte, mas vou tentar.
— Vai abre aí, vamos ver o que diz no site desse gostosão.
— Quem é gostosão tia Inguid?
Olho para Ingrid. Essa garota não tem jeito.
— Gostosão é um sorvete coisa fofa da titia.
— A eu quero esse sorvete.
Abro o site, Thomas Martinez, delegado federal, reconhecido pela União e pelo Ministério da defesa como melhor do país. Atua na investigação de crimes federais, políticos, crimes com repercussão internacional ou interestadual. Pós graduado em direito penal, processo penal e mestre em Direito, Thomas é Autor de livros recordes de vendas nas livrarias.
— Esse homem é um espetáculo. Ah, se eu pudesse e meu dinheiro desse — Ingrid ri.
— Sua boba. Ele é muito inteligente, queria eu ter um currículo desse.
— Um dia vai amiga, tenho fé.
— Vamos! Deus te ouça.
Clico na aba processo seletivo e vejo a descrição do cargo para assistente pessoal.
Cargo: Assistente pessoal.
Requisitos - ser brasileira, maior de 18 anos, possuir inglês a partir do nível intermediário, ter nível superior ou médio, se for médio, deverá ter curso de assistente pessoal), noções de direito, ter disponibilidade para trabalhar em casa e viajar.
— Amiga, tudo o que você tem! Você não quer advogar, pra você vai ser ótimo, vai ganhar uma bolada e vai poder estudar pro concurso.
— Ai meu Deus! Nunca te pedi nada por favor me ajude nessa, pelo menos uma vez na vida ! — rezo e clico em " enviar currículo ".
— Mamãe vai trabalhar e me dá a luna.
— Se mamãe conseguir esse emprego, ela vai te dar quantas lunas você quiser — Ingrid diz.
Rezo mais uma vez. Mesmo sabendo que as chances são poucas, e que dezenas de pessoas irão se inscrever, passo a fazer planos, esse emprego seria um sonho.
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