
Meu Coração, Sua Peça de Reposição
Capítulo 2
Ponto de Vista de Kianna Medeiros:
O celular parecia pesado na minha mão, mas minha voz estava firme. "Pai, eu tomei uma decisão."
Meu pai, o magnata da mídia, riu do outro lado. "Oh? Que grande plano minha pequena fogueteira inventou agora?" Ele ainda me via como a garota impulsiva, mas essa garota se foi.
"Estou pronta para considerar a aliança com a família Queiroz." Minhas palavras eram calmas, desprovidas do drama que ele esperava.
Houve um silêncio chocado do outro lado. Então, uma inspiração profunda. "Kianna? Você está falando sério?" Sua voz estava carregada de surpresa e um toque de alívio.
"Totalmente séria", afirmei, meu olhar fixo na parede branca e estéril. "É um passo lógico para a Mídia Medeiros. Uma parceria estratégica." Não mencionei os pedaços do meu coração, a traição que forçou essa mudança estratégica.
"Bem", ele pigarreou, "isso é... inesperado. Mas bem-vindo. Vou começar os preparativos imediatamente. Aaden Queiroz é um jovem formidável, inteligente e, bem, certamente não lhe falta charme."
"Apenas organize, pai", eu disse, uma onda de exaustão me invadindo. "Confio no seu julgamento."
"Tudo bem, querida. Descanse um pouco. Conversaremos sobre os detalhes quando você sair do hospital."
Desliguei, o clique do telefone final. Por um momento, a fachada rachou. Um tremor percorreu meu corpo, uma dor crua no peito. O quarto do hospital, antes um santuário, agora parecia uma jaula. Meu coração, ainda em carne viva pela revelação, clamava por uma fuga. Essa aliança era minha fuga. Minha única saída.
Os dias que se seguiram foram um borrão de comida de hospital sem graça e sorrisos forçados. Grant, sempre o guarda-costas dedicado, permaneceu uma presença constante e silenciosa. Ele me trazia meu chá da manhã, ajustava meus travesseiros, cada movimento preciso e atencioso. Ele ainda antecipava minhas necessidades, um hábito enraizado ao longo dos anos. Ele abria a persiana apenas o suficiente para o sol da manhã, lembrando como eu não gostava de luz forte. Ele garantia que minha água estivesse sempre na temperatura perfeita. Cada gesto atencioso, antes uma fonte de conforto, agora parecia um corte novo.
O fio dourado ainda pulsava de sua cabeça. Esticava-se, uma coisa viva e vibrante, diretamente para o quarto de Dariana no fim do corredor. Era um lembrete constante e cintilante de sua verdadeira lealdade. Um lembrete de que sua atenção a mim era apenas um meio para um fim.
Finalmente, chegou o dia em que recebi alta. Enquanto arrumava meus poucos pertences, um impulso estranho me tomou. "Grant", eu disse, virando-me para ele, minha voz deliberadamente casual. "Antes de irmos para casa, quero visitar a antiga zona portuária de Santos."
Suas sobrancelhas se franziram levemente. "Kianna, essa área não é segura. Especialmente depois do seu acidente."
Nesse momento, Dariana, parecendo frágil e agarrada a um cobertor, apareceu na porta. Ela ofegou, os olhos arregalados de alarme fingido. "Kianna, não! É muito perigoso! Você acabou de sair do hospital. Grant, você não pode deixá-la ir." Sua voz tremia, uma aula magistral de vulnerabilidade fabricada.
Eu a observei, um distanciamento frio endurecendo meu olhar. Tão previsível. "Minha segurança não é mais sua prioridade, Grant?", desafiei-o, meus olhos fixos nos dele. "Ou é apenas a segurança dela que realmente importa?"
Ele hesitou, a mandíbula tensa. Seus olhos piscaram para Dariana, depois de volta para mim. A luta silenciosa era clara. Sua lealdade, seu fio, estava sendo puxado em duas direções.
"Eu a levarei onde quer que deseje ir", disse ele, a voz plana, sem emoção. "Mas insisto em tomar todas as precauções. E Dariana deve ficar aqui."
"Não!", gritou Dariana, agarrando seu braço. "Grant, por favor! E se algo acontecer com você? Não posso ficar sozinha." Sua voz era um apelo frágil, projetado para tocar seu coração.
Eu sabia que o porto era perigoso. Sabia que os antigos armazéns abandonados eram notórios por atividades ilícitas. Era imprudente. Era estúpido. Mas eu precisava saber. Eu precisava pressioná-lo. "Sua prioridade, Grant", lembrei-o, minha voz baixa e firme. "Você fez um juramento."
Ele fechou os olhos por um breve momento, um músculo se contraindo em sua mandíbula. Quando os abriu, o conflito havia desaparecido, substituído por sua máscara estoica habitual. "Muito bem." Ele se virou para Dariana, a voz suavizando: "Fique aqui, Dariana. Voltarei em breve."
O lábio inferior de Dariana tremeu. "Mas, Grant..."
"Eu ficarei bem", ele interrompeu, o tom firme, mas gentil. Ele se afastou dela, e o rosto dela se desfez.
A viagem foi silenciosa, pesada com uma tensão não dita. Dariana, contra a vontade de Grant, insistiu em vir, seus protestos frágeis se transformando em uma teimosia que de alguma forma sempre vencia com ele. Ela sentou-se no banco de trás, encolhida e pálida, ocasionalmente soltando uma pequena tosse fabricada. "Grant, você tem certeza de que está bem para isso? Você ainda está se recuperando."
Eu vi o fio dourado, vibrante e inegável, estender-se de Grant para Dariana, puxando-o para ela, priorizando-a. Era uma verdade sufocante.
Olhei pela janela, as luzes da cidade se transformando em rastros de cor. Isso não era sobre a emoção do perigo. Era sobre cortar os últimos fios de um relacionamento tóxico. Sobre provar, de uma vez por todas, que sua lealdade sempre foi condicional. Um meio para um fim.
Eu sabia que este era um caminho autodestrutivo. Uma parte de mim, a velha e ingênua Kianna, ainda queria que ele me escolhesse. Que escolhesse minha segurança, meu bem-estar, em vez dela. Mas a nova Kianna sabia que não. Ela sabia que ele não faria isso. Este era meu teste. Minha última e desesperada aposta para matar os últimos vestígios de esperança.
Chegamos ao porto. O ar ficou pesado com o cheiro de sal e decomposição. Armazéns abandonados se erguiam como gigantes esqueléticos contra o céu machucado. Grant estacionou o SUV blindado perto de um prédio em ruínas. "É muito arriscado ir mais longe com o veículo, Kianna", disse ele, a voz tensa de preocupação. "O terreno aqui é instável."
Ele ainda mancava um pouco por causa dos ferimentos, um lembrete constante de seu sacrifício, mas por quem? Ao sair, eu o vi fazer uma careta, um pequeno gesto de dor que ele rapidamente disfarçou. Ele abriu minha porta, a mão estendida para mim. Seu toque era firme, mas senti um tremor em seus dedos.
"Você está bem, Grant?", perguntei, uma lasca de preocupação genuína perfurando minha fria determinação.
Ele balançou a cabeça, descartando. "Estou bem. Apenas siga-me."
Dariana, envolta em um cachecol grosso, emergiu da parte de trás do carro, o rosto uma máscara pálida de medo. "Grant, por favor, vamos voltar. Este lugar é aterrorizante."
"Fique perto, Dariana", ele instruiu, a voz firme. Ele não olhou para mim, seu olhar varrendo as sombras. Ele estava em alerta máximo, seus instintos afiados por anos de combate.
O chão era irregular, entulho e metal enferrujado espalhados por toda parte. Navegamos pelos restos esqueléticos de máquinas antigas, o vento assobiando pelas janelas quebradas. De repente, meu pé prendeu em um pedaço solto de concreto. Tropecei, perdendo o equilíbrio. Meu tornozelo torceu, e um grito agudo escapou dos meus lábios.
Antes que eu pudesse cair no chão, Grant estava lá. Seus braços fortes me envolveram, me puxando para perto. Ele se virou, me protegendo de um pedaço afiado de vergalhão que se projetava de uma parede. Um baque surdo ecoou, e ele soltou um gemido sufocado de dor.
Seu braço, ainda se recuperando do acidente, levou o impacto. Ele cambaleou, mas me manteve firme, seu corpo absorvendo o choque. "Você se machucou?" Sua voz estava rouca, cheia de alarme.
"Grant!", gritou Dariana, correndo para frente, seu medo por ele ofuscando sua própria fragilidade. "Seu braço! Você está sangrando de novo!"
Eu o encarei, atordoada. Ele tinha feito de novo. Sem hesitar, ele se colocou em perigo por mim. Uma onda de emoções conflitantes, agudas e dolorosas, me invadiu. "Grant", sussurrei, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Seu braço..."
Ele olhou para mim, um leve sorriso tocando seus lábios. "É só um arranhão, Kianna. Você está segura."
"Um arranhão?", gritou Dariana, a voz subindo de tom. "Olhe para isso! Está jorrando! Kianna, olha o que você fez com ele!"
Meu primeiro instinto, uma resposta primal e emocional, foi confortá-lo, cuidar de seu ferimento. Mas então, o fio dourado apareceu, vibrante e pulsante, apertando-se em torno de Dariana mesmo enquanto Grant me segurava. Era um lembrete gritante. Seu sacrifício, seu instinto de proteger, não era por mim. Não de verdade. Era pelo ativo. A doadora de rim.
Reprimi a onda de compaixão, a dor no peito. Não. Isso tudo fazia parte do ato. Forcei-me a permanecer impassível. "Vamos continuar", eu disse, minha voz plana, afastando-me de seu abraço.
Como se fosse um sinal, uma rajada de vento repentina uivou pelo armazém quebrado, deslocando uma pesada chapa de metal do telhado dilapidado. Ela caiu, diretamente em nosso caminho.
Grant reagiu instantaneamente, me empurrando para trás dele, puxando Dariana para mais perto com o braço bom. A chapa de metal atingiu seu braço já ferido, um baque surdo ecoando pelo espaço cavernoso. Ele grunhiu, um som profundo e doloroso, e cambaleou para trás, o rosto empalidecendo ainda mais.
Dariana gritou, um som genuíno e agudo desta vez. "Grant! Meu Deus, Grant!" Ela se agarrou a ele, o rosto enterrado em seu peito. "Kianna, como você pôde ser tão imprudente? Olha o que você está fazendo com ele!" Sua voz era estridente, cheia de fúria.
Ele estava balançando, a respiração saindo em arquejos irregulares, mas mesmo apoiado pesadamente na parede, seus olhos varriam a estrutura em colapso, seu corpo ainda tenso, nos protegendo. Seus instintos eram notáveis.
Eu o observei, uma pedra alojada na minha garganta. Ele estava perto de desmaiar, mas seu foco permanecia no perigo, em garantir nossa segurança. Minha segurança. Mas não era a minha segurança que ele realmente valorizava. Não da maneira que eu sonhara. Era a preservação de um recurso. Uma ferramenta.
"Você está satisfeita, Kianna?", gritou Dariana, afastando-se de Grant, os olhos ardendo de ódio. "Você vê o que seus joguinhos estão fazendo com ele?"
Grant gemeu, os olhos desfocados, uma fina camada de suor na testa. Mesmo em seu estado semiconsciente, seu braço ainda estava protetoramente em volta de Dariana.
Minha mente, embora entorpecida, registrou a verdade com clareza gélida. Cada instinto protetor, cada ato altruísta, era, em última análise, impulsionado por sua devoção perversa a Dariana. Ele não me salvou por mim. Ele me salvou por ela. O fio dourado pulsava, vibrando com uma intensidade quase insuportável, puxando-o mais fundo para a órbita dela.
Isso era o suficiente. Mais do que o suficiente. "Acabamos aqui", eu disse, minha voz fria e firme. "Vamos voltar." Não havia mais nada a testar. Nada a provar. Sua lealdade, sua aliança final, não era comigo. Nunca tinha sido.
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