
Meu Conto de Fadas Estilhaçado: A Traição Cruel Dele
Capítulo 3
Clara Vasconcelos POV:
"Já chega, Clara", ordenou Juliano, sua voz carregada com a impaciência cansada de um rei lidando com uma camponesa histérica. "Foi um acidente. Helena se sente péssima." Ele acariciou o cabelo dela enquanto ela enterrava o rosto em seu peito, seus ombros tremendo com o que eu sabia serem soluços fabricados. "Eu compro um caixão melhor para você. O melhor que o dinheiro pode comprar. Agora, pare de fazer cena."
Um caixão melhor. Ele achava que o dinheiro poderia consertar isso. Ele achava que poderia comprar meu silêncio, comprar meu perdão, cobrir a ferida aberta e gritante da morte do meu irmão com seus reais ensanguentados.
A raiva dentro de mim, que era um fogo brando, explodiu em uma supernova. Queimou minhas lágrimas, meu luto, meu choque, deixando apenas uma certeza fria e dura.
Em um movimento fluido, eu me virei. Minha mão voou para cima, o estalo dela conectando com a bochecha de Helena ecoou no silêncio atordoado da capela. A cabeça dela virou para o lado, uma marca de mão vermelha florescendo em sua pele pálida. Seus soluços falsos se transformaram em um grito real de dor e surpresa.
Todos congelaram. Os enlutados, os seguranças, até mesmo Juliano. Eles me encararam como se eu tivesse criado uma segunda cabeça. A irmã enlutada e quebrada se foi. Uma Fúria estava em seu lugar.
"Você", eu rosnei, minha voz um sussurro venenoso enquanto apontava um dedo trêmulo para Helena. "Você vai queimar no inferno por isso."
O choque de Juliano se transformou em uma fúria estrondosa. Seu rosto ficou carmesim. "Peguem-na", ele rugiu para seus seguranças. "Agora!"
Dois homens grandes se moveram em minha direção, suas expressões hesitantes. Eles trabalhavam para Juliano há anos. Eles me conheciam como sua esposa, a mulher que ele havia estimado.
"O que vocês estão esperando?", berrou Juliano, sua voz tremendo de fúria. "Façam isso!" Ele apontou para mim. "Façam-na pedir desculpas a Helena. De joelhos."
Eu ri, um som cru e agudo. "Pedir desculpas? Prefiro morrer."
O diretor da funerária, um homem pequeno e careca, correu para frente. "Sr. Monteiro, por favor, esta é uma casa de Deus. Não vamos ter mais problemas."
Juliano lançou-lhe um olhar tão letal que o homem recuou fisicamente e se dissolveu de volta nas sombras. A capela era dele agora. Ele era o deus aqui.
"Última chance, Clara", disse Juliano, sua voz perigosamente suave. "Peça desculpas."
Quando eu apenas o encarei de volta com todo o ódio da minha alma, ele acenou para seus homens. "Quebrem as pernas dela."
Os seguranças trocaram um olhar horrorizado. "Senhor", um deles começou, "ela é..."
"Ela não é nada", Juliano o interrompeu, sua voz caindo para um frio ártico. "Ela é um inconveniente. Façam o que eu digo, ou podem se juntar ao irmão dela."
Isso foi tudo o que foi preciso. O medo, cru e primitivo, apagou qualquer lealdade remanescente que eles tinham por mim. Eles agarraram meus braços, seus apertos impiedosos. Eu lutei, mas foi inútil. Eles eram montanhas de músculos, e eu era apenas uma mulher estilhaçada pelo luto.
Eles me forçaram a ficar de joelhos no chão de mármore frio. Olhei para Juliano, para o rosto que um dia amei mais que a própria vida, e não vi nada além de um vazio. Sem amor, sem memória, apenas um vazio arrepiante e cruel.
Um dos guardas levantou um pesado genuflexório de madeira do primeiro banco. Ele hesitou por uma fração de segundo, seus olhos implorando para que eu apenas dissesse a palavra, para pedir desculpas. Encontrei seu olhar e balancei a cabeça lentamente.
Nunca.
Juliano deu outro aceno seco.
O genuflexório desceu.
O som do meu próprio osso quebrando foi doentiamente alto na capela silenciosa. Uma agonia diferente de tudo que eu já conheci subiu pela minha perna, incandescente e ofuscante. Eu gritei, um som longo e irregular de pura dor animal.
Eles não pararam. Eles o derrubaram na minha outra perna. Outro estalo, outra explosão de dor que ameaçou me engolir inteira.
Eu desabei no chão, meu corpo um monte inútil e quebrado. O mundo estava girando, pontos pretos dançando na frente dos meus olhos. Através da névoa de dor, vi Juliano me dar as costas. Ele gentilmente conduziu Helena, que agora me olhava com um sorriso triunfante e malicioso, para fora da capela.
"Limpe isso", foi a última coisa que o ouvi dizer antes que a escuridão finalmente me levasse.
Enquanto eu mergulhava na inconsciência, uma memória surgiu. Anos atrás, um rival de negócios desprezível me encurralou em uma gala, sua mão deslizando muito baixo nas minhas costas. Juliano viu do outro lado da sala. Ele não levantou a voz. Ele não fez uma cena. Ele simplesmente se aproximou, pegou a mão do homem e dobrou seus dedos para trás, um por um, até que o homem estivesse de joelhos, gemendo de dor. Juliano se inclinou e sussurrou: "Se você sequer respirar na direção da minha esposa de novo, eu pessoalmente vou te arruinar."
Ele tinha sido meu protetor. Meu protetor feroz, possessivo e amoroso. Ele estava disposto a quebrar a mão de outro homem por um toque desrespeitoso.
Agora, ele havia ordenado que minhas próprias pernas fossem quebradas em uma capela, sobre o corpo do meu irmão morto.
A linha entre o amor e o ódio, percebi enquanto a escuridão me consumia, não era uma linha. Era um penhasco. E Juliano tinha acabado de me jogar dele. Meu amor por ele, minha própria alma, foi estilhaçada nas rochas abaixo.
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