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Capa do romance Mesada, Mentiras e um Ex Secreto

Mesada, Mentiras e um Ex Secreto

Após cinco anos de casamento, descobri que Ricardo escondia sua verdadeira fortuna. Enquanto eu economizava cada centavo e cuidava do nosso filho com uma mesada ínfima, ele desviava trezentos mil reais para sua ex-mulher. Confrontado, ele e seus pais defenderam a traição financeira como uma obrigação. Cansada de mentiras e privações, decidi agir. Com o apoio de uma advogada, iniciei uma batalha judicial para recuperar o futuro que ele roubou de nossa família.
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Capítulo 2

Ponto de Vista: Carla Santos

Na manhã seguinte, Ricardo tentou agir como se tudo estivesse normal. Ele me trouxe uma xícara de café, feito do jeito que eu gostava, colocando-a na minha mesa de cabeceira. Ele até fez panquecas com doce de leite para Léo, um agrado incomum de domingo. O cheiro encheu o ar, uma tentativa enjoativamente doce de normalidade. Seus olhos, no entanto, estavam sombrios e suplicantes. Ele estava tentando comprar perdão com gestos domésticos.

Eu não toquei no café. Nem sequer olhei para ele. Meu olhar estava fixo em Léo, que devorava alegremente suas panquecas, alheio ao abismo que se abrira em nossa casa.

"Carla", Ricardo começou, a voz suave, "podemos conversar? Por favor?"

Finalmente olhei para ele, minha expressão vazia. "Sim, podemos conversar", eu disse, minha voz monótona. "Mas primeiro, quero saber sobre seu primeiro casamento. Tudo. A história real desta vez."

Ele hesitou, seu olhar piscando nervosamente. Ele se mexia de um pé para o outro. "O que você quer dizer com 'história real'?", ele murmurou, evitando meus olhos.

"Quero dizer, por que vocês dois realmente se separaram?", insisti, minha voz ganhando uma dureza. "Você sempre disse que foram 'diferenças irreconciliáveis', que ela simplesmente 'quis sair'. Foi outra mentira, Ricardo?"

Seus ombros caíram. Ele suspirou, um som longo e arrastado de resignação. "Foi... uma época difícil. Ela estava passando por muita coisa. O estresse de ser mãe de primeira viagem, minhas horas de trabalho eram uma loucura."

"Então, você a negligenciou?", interrompi, uma suspeita fria se formando. "É isso que você está dizendo? Você a deixou na mão quando ela mais precisava de você?"

Ele se encolheu. "Não, não exatamente. Foi complicado." Ele fez uma pausa, depois olhou para cima, encontrando meus olhos com um apelo desesperado. "Eu juro, Carla, eu não a traí. Não fisicamente."

"Não fisicamente?", repeti, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Então houve um caso emocional, então? É isso que você quer dizer com 'complicado'?"

Ele balançou a cabeça vigorosamente. "Não! Não foi um caso. Foi... eu estava apenas confuso. Perdido." Ele olhou para as mãos. "Ela disse que não aguentava mais. Ela queria o divórcio."

"Ela queria o divórcio?", repeti, minhas sobrancelhas se erguendo. Isso contradizia tudo o que ele já me dissera. Ele sempre se pintou como a parte injustiçada, aquele que foi deixado para trás.

"Sim", ele disse suavemente, quase um sussurro. "Ela disse que precisava ser livre. Ela disse que não me amava mais."

"E o que ela pediu?", perguntei, minha voz tingida de um cinismo recém-descoberto. "Durante este divórcio libertador e sem amor?"

Ele hesitou, torcendo as mãos. "Ela... ela só pediu a casa. E para eu pagar por ela. O financiamento."

Uma onda de compreensão irônica me invadiu. A casa. O financiamento. A mesma coisa que ele ainda estava pagando, cinco anos depois, às custas da nossa família. "Então, você concordou em pagar o financiamento dela. Por uma casa que ela possuiria totalmente assim que fosse paga, enquanto você morava de aluguel com sua nova família?"

Ele assentiu, evitando meu olhar. "Eu senti que devia a ela. Por tudo. Pelas minhas falhas."

"Seus pais sabiam dessa 'obrigação'?", perguntei, minha voz se elevando.

Ele engoliu em seco. "Sim. Eles sabiam."

Minha risada foi aguda, desprovida de humor. "Claro que sabiam. Uma família inteira no segredo. Que maravilhosa demonstração de lealdade."

"Eles acharam que era a coisa honrada a se fazer, Carla", ele disse, tentando defendê-los. "Para consertar as coisas."

"Consertar as coisas para quem, Ricardo?", eu disparei, levantando-me da cama. "Certamente não para sua esposa e filho atuais, que viviam de migalhas enquanto você bancava o ex-marido benevolente!"

Entrei no banheiro, jogando água fria no rosto. Sua presença, suas tentativas de reconciliação, pareciam um sudário sufocante. Eu precisava ficar sozinha.

Ele ainda estava lá quando saí, encostado no batente da porta. "Carla, eu te amo", ele implorou, a voz embargada com o que parecia ser emoção genuína. "Eu juro. Eu ia te contar. Eu só não sabia como."

"Você me ama?", eu zombei, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "Você demonstrou esse amor construindo nossa vida sobre uma base de mentiras? Deixando-me lutar, deixando Léo passar vontade, enquanto você secretamente sustentava sua ex-esposa?"

"Não foi um engano deliberado", ele insistiu, aproximando-se. "Foi... uma omissão. Eu simplesmente não toquei no assunto."

"Uma omissão?", olhei para ele, incrédula. "Quando eu te perguntei diretamente sobre nossas finanças, sobre seu salário, sobre por que estávamos sempre tão apertados de dinheiro, você mentiu. Repetidamente. Isso não é uma omissão, Ricardo. Isso é uma mentira. Uma mentira calculada e cruel."

Ele se calou, os olhos fixos no chão.

"Quantos anos Samuel tinha quando você e Jaqueline se separaram?", perguntei, mudando de tática, um pensamento novo e perturbador se formando em minha mente.

Ele hesitou por um longo momento, depois murmurou: "Ele tinha... três anos."

Três. Assim como Léo. Meu filho. A ironia doeu. "E com que frequência você vê o Samuel?", perguntei, um gosto amargo na boca.

Outro longo silêncio. "Não... com a frequência que eu deveria", ele admitiu, a voz quase inaudível. "Talvez a cada quinze dias. Às vezes menos."

"Então, você manda R$ 5.000,00 por mês para uma casa onde seu filho mora a cada quinze dias, mas você briga comigo para colocar o Léo naquela aula extra de ciências que ele queria, alegando que não podemos pagar?", exigi, a injustiça de tudo aquilo um peso esmagador. "Você prioriza uma casa em que não mora em vez das necessidades reais do seu filho comigo?"

"Isso não é justo, Carla", ele protestou, a voz fraca. "Eu faço isso pelo Samuel. Pela estabilidade dele."

"Não", eu sibilei, dando um passo em sua direção. "Você faz isso pela sua culpa. Você faz isso pela sua imagem. Você faz isso porque não consegue se desapegar do seu passado, e está nos arrastando para o fundo com você."

Virei-me, a conversa parecendo um beco sem saída. Eu precisava escapar, respirar. "Vou sair."

"Onde você vai?", ele perguntou, tentando bloquear meu caminho. "Por favor, Carla. Não vá."

"Preciso de espaço. Preciso pensar. Não me siga." Passei por ele, pegando minhas chaves.

Quando cheguei à porta, ele gritou, a voz desesperada: "Eu não sou mais apaixonado pela Jaqueline, Carla! Eu juro!"

Suas palavras me fizeram parar. "Você ainda tem contato com ela, além desses pagamentos?", perguntei, minha voz vazia. "Vocês conversam? Trocam mensagens? Alguma mensagem secreta?"

Seu rosto ficou pálido. Ele desviou o olhar, um sinal revelador. "Não, não muito. Só sobre o Samuel. Coisas necessárias."

"Me mostre seu celular, Ricardo", ordenei, minha mão estendida. "Me mostre suas mensagens com a Jaqueline."

Ele gaguejou, procurando o celular. "Carla, não é nada. Só coisinhas." Ele tentou esconder, seu corpo enrijecendo.

"Me mostre!", eu gritei, minha paciência completamente esgotada. "Agora!"

Com um suspiro de derrota, ele o entregou. Meus dedos voaram por suas mensagens. Rolei e rolei. Nada de Jaqueline. Nenhuma conversa recente. Até que cliquei em uma pasta oculta, uma que eu nem sabia que existia. Uma pasta chamada "Fotos do Sam".

Estava cheia de centenas de fotos de seu filho, Samuel. Fotos de eventos escolares, festas de aniversário, feriados. Todas recentes. Todas enviadas por Jaqueline. E sob muitas delas, respostas curtas e amorosas de Ricardo. "Muito orgulhoso dele", "Ele está crescendo tão rápido", "Queria poder ter estado aí".

Então eu vi. Uma rolagem rápida mais para baixo, passando pelas fotos. Uma mensagem de Jaqueline, de apenas dois dias atrás. "A febre do Sam ainda está alta. O médico disse que pode ser sério. Estou preocupada." E a resposta imediata de Ricardo: "Estou indo para aí. A caminho."

Minha respiração falhou. Ele tinha ido até ela. Enquanto eu estava lutando com a infecção de ouvido do próprio Léo, ele estava correndo para o lado de Jaqueline.

"Você disse que não estava em contato", sussurrei, minha voz tremendo de fúria contida. "Você disse que só via o Samuel a cada quinze dias. Mas você correu para ela quando o filho dela estava doente. Você mal notou quando o Léo teve febre na semana passada."

Ele começou a falar, mas eu o cortei, minha voz afiada com acusação. "Você sempre os colocou em primeiro lugar, não é? Sempre. Mesmo agora, mesmo depois de todo esse tempo."

Eu precisava de uma cabeça fria. Precisava falar com alguém, alguém que entendesse e me ajudasse a navegar por este destroço de casamento. Havia apenas uma pessoa para isso.

Peguei meu celular e disquei para Diana. "Oi", eu disse, tentando manter a voz firme. "É a Carla. Preciso da sua ajuda. Descobri que o Ricardo tem escondido dinheiro de mim por cinco anos, pagando o financiamento da ex-esposa. Preciso saber sobre imóveis. Registros públicos. Tudo."

A voz de Diana ficou instantaneamente séria. "Carla, do que você está falando? Você está bem?"

"Vou ficar", eu disse, meu maxilar cerrado. "Só preciso saber o que estou enfrentando. Você pode me ajudar a investigar?"

"Você sabe que sim", ela disse, a voz firme. "Não se preocupe com nada. Vou começar agora mesmo. Me encontre no meu escritório mais tarde."

Ao desligar, um nó frio se instalou no meu estômago. A informação que Diana encontrasse poderia confirmar meus piores medos, ou descobrir ainda mais camadas de traição. Preparei-me para o que quer que estivesse por vir. Isso era apenas o começo.

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