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Capa do romance Memórias irresistíveis

Memórias irresistíveis

Ele domina o mundo corporativo com precisão; ela traduz emoções em perfumes. Um encontro de negócios entre opostos desencadeia uma conexão avassaladora que desafia a lógica. O controle dele desmorona diante de um desejo possessivo, enquanto ela se vê atraída pelo homem que jurou evitar. Entre toques inebriantes e limites que se apagam, o que parecia temporário torna-se uma obsessão profunda. Agora, eles precisam descobrir onde termina a paixão e começa a rendição total.
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Capítulo 3

A dona Velázquez era uma das minhas clientes habituais. Ela comprava perfumes para si, para a irmã, para dar de presente. Trazia as amigas - quase as arrastava -, mas elas também voltavam. Tinha uma fragrância favorita e, pelo jeito, tomava banho com ela, porque todo dia seis do mês entrava na loja e pedia mais.

- Aquela velha é doida, o que ela vai fazer com tantos perfumes?

- Ela me disse que é o aroma do marido falecido, Renata. Deve espalhar por tudo quanto é lugar.

Eu guardava minha própria lembrança engarrafada, por isso a entendia e me esforçava para torná-la perfeita. A minha era a do meu pai - uma lembrança distante, e eu não podia garantir que fosse exatamente aquele o aroma certo. Mas gostava de pensar que sim.

Não sabia bem como fazia, era algo natural, embora às vezes fosse mais difícil. Como na semana passada: entrou um homem meio estranho, que tinha vindo por indicação de outro cliente. Me disse que queria um perfume que trouxesse de volta a época em que havia vivido perto do mar e da floresta.

Era um trabalho solitário na maior parte do tempo, mas de vez em quando a Renata aparecia para romper aquela bolha de aromas e silêncios. Às vezes trazia café, outras vezes trazia problema - e naquela tarde veio com os dois.

Chegou como sempre fazia: entrou e foi direto para os fundos, sem cerimônia. Tinha aquele sorriso besta de quem acabou de ver o Felipe. Isso me irritava.

- Hoje vim te visitar, mas também pra te fazer uma proposta de trabalho - começou ela, enquanto colocava as xícaras de café na mesa.

- De trabalho?

- Sim, e é ótima. Você vai adorar.

- Vamos ver, do que se trata? - perguntei, curiosa.

Renata e meus perfumes não se encaixavam em nenhuma equação profissional.

- Você sabe que o Felipe trabalha na rede de hotéis Monteiro - ela disse o nome dele e eu travei; é um reflexo que não controlo e que ela percebe -. Antes de você falar alguma coisa, me escuta. Eles terminaram um hotel boutique no centro, vi as fotos e é lindo. A inauguração é na sexta-feira e o Felipe teve uma ideia fora do comum: em vez de uma festa de gala, uma experiência sensorial.

- Ah.

- Sim, já sei o que você tá pensando, mas dessa vez é uma boa ideia de verdade. Vão incluir texturas, comida exótica, efeitos visuais e, claro, aromas. E adivinha em quem ele pensou?

- Vou mandar um lote de aromatizadores de banheiro. Pode dispensar.

- Sabia que você ia dizer alguma coisa assim. Sei que você não gosta dele, mas não dá pra deixar passar só dessa vez? Ele tá animado e não vai te fazer mal ampliar sua clientela.

- Não gosto dele? Isso é pouco. E por que ele mesmo não veio, se é um projeto tão incrível? Não é profissional.

- Porque acha que você vai mandá-lo embora.

- E ele tem razão. Não tenho a menor vontade de facilitar as coisas pra ele, muito menos de ajudá-lo. Tem um monte de perfumistas que podem oferecer a mesma coisa, ou melhor.

A postura da Renata mudou. Ela ficou tensa, endireitou as costas. Durou dois segundos, mas eu vi. Sempre me pegava de surpresa essa coisa dela - como se aquele infeliz fosse a melhor coisa do mundo e ela o defendesse sem precisar abrir a boca. Até a voz estava diferente.

- Você não consegue fazer isso só como um favor pra mim? Você sabe que eu gosto dele, que ele é importante, que gosto de vê-lo feliz.

- Se fosse recíproco, eu não teria problema. Mas não é.

Depois de dizer isso, percebi que estava deixando vazar aquele meu lado mais difícil - e eu tinha jurado e prometido que ia guardar minhas opiniões sobre o Pablito pra mim, pra não magoá-la.

- Vou pensar - acabei cedendo. - Hoje é segunda. A inauguração é na sexta, né?

- Sim.

- Então que ele me traga a proposta como tem que ser. Não vou expulsá-lo à força.

- Tem certeza?

- Tenho.

- Obrigada, amiga!

Me dava uma certa satisfação vê-lo murchar quando respondia aos meus comentários. E eu ia fazê-lo vir até a Essenza só pra que ele entrasse com aquela mesma postura de quem perdeu o argumento antes de abrir a boca. Porque na minha frente ele não se atrevia a bancar o engraçadinho.

Tenho pena desses meio-homens que só sabem se impor rebaixando os outros, as mulheres especialmente. Quando se deparam com alguém que os enfrenta no mesmo nível, que devolve o olhar esperando a resposta com a mesma frieza, eles murcham.

Na terça-feira, o coitado fez a campainha da porta tocar ao entrar. Eu estava atrás do balcão, terminando de arrumar umas caixas.

- Oi, Lívia.

- Oi, Felipe.

- Trouxe a proposta do hotel boutique - disse ele logo, me mostrando a pasta.

- Entre - apontei para a porta do escritório.

Ele se sentou e me passou os papéis. Li com calma; a Renata tinha razão, era uma boa ideia. Estava bem estruturada, bem detalhada. Eles sabiam exatamente o que queriam, e isso me poupava metade do trabalho. Além disso, não eram muitas fragrâncias: eu só precisava criar a base e o coração e, no mesmo processo, adicionar as notas de cabeça dos aromas.

- O que você achou? - perguntou com um tom formal.

- Tá bom, gostei.

- Que alívio! Esse tipo de hotel é o primeiro que vamos abrir. Queremos nos diferenciar desde o início e, quem sabe, estabelecer uma base para algo novo. Seu trabalho não existe em nenhum outro lugar, pelo menos não do jeito que você faz. Isso nos dá exclusividade.

- Tudo bem, pra mim serve.

- O Dário me deu carta branca pra conseguir o que for necessário. Você só precisa me dizer o que precisa.

- Quem é o Dário?

- Dário Monteiro, o presidente da rede. Ele se envolve em cada projeto, em cada hotel.

- Certo, vou fazer uma lista curta. Tenho a maioria dos ingredientes.

- Obrigado por topar.

- Faço isso pela Renata.

Ele entendeu e não disse mais nada. Saiu do mesmo jeito que entrou.

Pouco depois, minha amiga me ligou pra agradecer como se eu tivesse topado doar um rim pra ela. Suspirei depois de desligar; quando ela falava comigo daquele jeito tão feliz, a culpa me apertava. Não sabia por que me custava tanto fingir que não me importava, por que eu precisava sentir tanta rejeição.

Ela o amava. Ponto.

Reuni os ingredientes: ylang-ylang, lascas de cedro, lavanda, fava tonka.

Um favor para a Renata e o Felipe, mas também uma oportunidade para a Essenza e para mim.

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