
ME ADORA
Capítulo 3
“A vida é uma batalha que se deve transformar em festa.”
Provérbio francês
Rayssa
— O que aconteceu, minha filha? — minha mãe me pergunta assim que me sento para o café da manhã.
Minha avó que considero como mãe já está na faixa dos 60 anos e me criou desde recém-nascida. Amo essa senhorinha de cabelo grisalho mais que a mim mesma, ela me criou e amou incondicionalmente, já minha mãe biológica nunca escondeu de ninguém que não estava nem aí para o fruto de sua desgraça da juventude.
Quando Alice engravidou aos 14 anos, só não abortou porque tinha esperança do amante a assumir. A mulher sempre escondeu de todos que tinha uma filha e não se importa com nada que não seja ela mesma. Filha egoísta e mãe desnaturada como ela não há.
— Não houve nada, mãe.
— Diga logo Rayssa, te conheço como a palma da minha mão e sei quando algo não está bem com você — diz olhando em meus olhos.
— O bom é que ela está aqui com a gente Maria — tia Joana comenta animada.
— Estou feliz com isso, só que sei quando algo está errado — diz e me olha séria.
— Só peguei o George e a Priscila me traindo — digo de uma vez.
— O que? — Minha mãe arregala os olhos. — Sinto em dizer minha filha, mas foi melhor assim. Nunca achei que aquele cabra fosse homem para você. Agora não esperava isso da Priscila. Que sem-vergonha!
— Que cachorro e que amiga da onça essa tal Priscila se mostrou, nunca fui com a fuça dessazinha — bufa tia Joana.
— Você quebrou a cara deles? Quando seu tio aprontava assim quebrava a vassoura nele. O homem que aprontava! Aquele traste não valia nada e que Deus o tenha em um bom lugar.
— Nunca me sujeitaria a tanto tia, só virei as costas e fui embora. Não perdoo traição. Nós mulheres, hoje em dia, somos independentes e não precisamos de homens para viver. Perdoar é pedir para ser chifrada a vida toda. Acredito que o homem dos meus sonhos deve estar perdido em algum lugar e uma hora ou outra vou encontrá-lo. Quem ama de verdade não trai, isso é fato irrevogável.
— Verdade, todos temos a tampa da nossa panela — diz minha tia.
Tomamos nosso café com um cuscuz de milho quentinho.
Passo manteiga em um pedaço, que derrete em segundos e enquanto comemos o delicioso cuscuz, elas me contam as novidades.
Nunca vi tanta disposição em duas senhoras como elas.
(•••)
— Filha as coisas vão se ajeitar, você vai ver — diz minha mãe fazendo carinho no meu cabelo.
— As coisas ultimamente só têm dado errado para mim mãe. Estou cansada, sabe?
— Ninguém nunca disse que seria fácil e se tudo fosse tão fácil, que graça a vida teria?
Sempre fui a garotinha da mamãe, não tem um momento na vida que eu me lembre de não ter corrido para pedir colo, estando bem ou mal. Tenho nela uma amiga, minha mãezinha é meu porto seguro.
— Eu sei, vou continuar tentando e não tenho tempo a perder.
— As encomendas estão prontas, não acredito que demos conta de tudo antes do prazo — diz minha mãe animada.
— Que notícia boa! — digo animada.
Minha mãe e tia Joana têm um ateliê de costura em Angra desde que eram novas. Elas confeccionam de tudo, desde vestidos de noivas a fantasias de carnaval. Todo ano elas pegam várias encomendas do pessoal da escola.
— Você se superou mais uma vez — diz se referindo a minha fantasia que desenhei o modelo.
— Vai ficar lindo, não vai? — pergunto.
— Sim, você será a rainha de bateria mais linda da noite!
— A senhora dizendo isso não vale, pois para as mães os filhos são sempre lindos.
— Engraçadinha! — diz e sorrimos.
(•••)
Acordo cedo, tomo um banho frio para despertar do meu sono rápido e me depilo, porque ir à praia com a perseguida parecendo uma aranha caranguejeira, não rola. Visto meu biquíni preto de cortininha e minha saída, verifico na bolsa de praia se meu poderoso bronzeador de urucum está lá, coloco a toalha de banho e saio do quarto.
— Bom dia, meus amores! — digo animada e deixo um beijo na testa da minha mãe e da minha tia que já estavam acordadas tomando café da manhã.
— Que bom que acordou disposta — diz minha mãe terminando seu café.
— O que as duas acham de irem à praia comigo? — pergunto puxando uma cadeira.
— Que pena não podermos ir, nossa agenda hoje está cheia — comenta minha tia.
— Ray fiz seu bolo preferido, o de milho. Você anda tão magrinha — diz tia Joana.
— Obrigada, tia. — Agradeço.
Corto um pedaço do bolo, mordo e fecho os olhos saboreando a delícia.
— Essa menina começou a dieta há meses de novo. Está comendo mais frutas e mato ultimamente — reclama minha mãe.
— Mato? — pergunto sorrindo. — Deixa de implicância com a minha alimentação, vocês duas. É só uma dieta balanceada, passada pelo nutricionista. Vocês acham que é fácil ter um corpo fitness? Ando malhando bastante, também não quero uma gordurinha indesejada no dia do desfile.
— Você já é magra por natureza, menina, para que seguir à risca essas frescuras? — diz minha tia.
— Bora trabalhar irmã que ganhamos mais. Filha mais tarde precisamos que você tire umas fotos com os vestidos novos para nós — pede minha mãe.
— Sim senhora!
Elas seguem para o andar de baixo onde fica o ateliê, minha tia mora em uma casa de dois andares deixada pelos meus avós. No andar de baixo tem uma lojinha de vestidos de noivas e no fundo uma grande sala que elas fizeram um ateliê digno do sonho de uma boa costureira.
Elas se despedem e termino meu café comendo mais do que deveria.
Tiro a mesa do café, arrumo tudo rapidinho, saio de casa e logo estou na praia que fica do outro lado da rua.
Angra é um paraíso, meu lugar preferido no mundo!
A praia estava vazia por ainda ser bem cedo, forro minha toalha na areia e passo meu bronzeador no corpo, pois nas próximas horas pretendo ficar com a pele dourada.
(***)
Horas depois estou pronta para voltar para casa, me lavo no chuveiro para tirar o excesso de areia, coloco minha saída e caminho para comprar uma água de coco.
Sabe quando os cachorros estão sedentos com a língua para fora?
Encontro-me dessa maneira.
Enquanto me delicio com uma das sete maravilhas do mundo, aproveito para tirar algumas fotos do mar que estava lindo com o sol de brigadeiro. Distraída, nem percebo que vem uma pessoa correndo e acabamos levando um grande esbarrão. Só não vou ao chão porque a pessoa me segura, mas a minha bolsa e celular não tiveram o mesmo destino.
— Moça me desculpe, estava distraído e não percebi que você vinha na mesma direção — diz a voz com um sotaque estrangeiro ao soltar minha cintura.
— Tudo bem — balbucio sem reação.
Não podia ser grossa com ele, as pessoas corriam e faziam caminhada na orla o tempo todo.
Onde suas mãos grandes e quentes encostavam esquentava devido o contato com a minha pele úmida. Perco-me por alguns segundos nos olhos hipnotizantes do desconhecido, eles são tão azuis quanto o mar que estava admirando há pouco, o que me faz perceber que fui distraída de um oceano para outro. O desconhecido é o primeiro a desconectar nossa troca de olhares e se abaixa pegando minha bolsa e celular.
— Desculpe-me mais uma vez.
— Acidentes acontecem — digo.
Ele faz um meneio de cabeça e se afasta seguindo sua caminhada.
Algo brilha na areia onde ele pegou minha bolsa, pego a corrente de ouro e abro o relicário que tem duas fotos antigas de uma mulher loira e de um garotinho. Espero um dia poder reencontrá-lo para entregar sua joia, mas sei que é uma chance em um milhão em uma cidade cheia de turistas e sou péssima em guardar fisionomia, ainda mais que ele estava de boné.
(•••)
— São lindos demais! Mas esse... — digo olhando o vestido em frente ao espelho, encantada com o modelo.
Ele é simplesmente deslumbrante, tem mangas longas de rendas, justo até a cintura, um caimento perfeito na saia e as costas nuas.
Simplesmente perfeito!
— Sabe filha agora que você terminou com aquele encosto, tenho esperança de que irá encontrar um homem bom — diz me olhando com carinho.
— Ainda bem que acordei a tempo, né? — digo sorrindo.
— Antes tarde do que nunca — brinca.
— Alice sempre foi motivo de desgosto, aquela filha desnaturada, mas pelo menos ela me deu algo precioso na vida além de aborrecimentos. Pode até parecer estranho o que vou dizer, mas o amor que sinto por você consegue ser maior do que o que sinto pela minha própria filha. Dizem que as avós conseguem amar em dobro e concordo com isso. Esse vestido fiz para você e sinto que agora irá encontrar o seu homem dos seus sonhos — minha avó diz emocionada.
— Ah, mãezinha! Sabe que também te amo muito, muito obrigada por sempre cuidar de mim e me amar tanto! — digo e a abraço apertado.
— Promete-me que mesmo que eu não esteja mais aqui, vai realizar meu sonho e se casar com esse vestido?
— Para com esse papo bobo mãezinha, a senhora não só estará aqui como vai entrar comigo na igreja.
— Só me promete menina! — pede mais uma vez.
— Prometo! Mesmo que não me case tão cedo, depois do que George me fez, vou ficar atenta e só darei valor a quem provar com atitudes que me merece. Porque preciso de um homem que seja companheiro, me respeite e simplesmente me adore. Quando encontrar um homem que me trate assim, vou realizar seu sonho me casando com ele e você estará presente, viu?
— Isso mesmo, saiba que ele está perto! — prevê.
— Quando a senhora vem com essas premonições sinto até medo, sabia?
— Ah, é? Então vou dizer logo tudo de uma vez — diz séria. — A caminhada vai ser árdua para ambos, mas no final terão suas recompensas pelas lágrimas derramadas. Você será a cura para um coração aflito e ele te mostrará que é capaz de amar incondicionalmente — diz e me arrepio inteira.
Ela não errou da outra vez quando disse que o George me decepcionaria feio e não era homem para mim. Minha avó nunca errou uma, as mulheres do bairro iam atrás dela sempre para conversar, a maioria saía sorridente, já outras nem tanto.
— Acho dona Maria, que deveríamos abrir lá em casa um atendimento de cartomante, o que acha?
— Respeita-me, garota! Ser sensitiva não me dá o direito de ser charlatã.
— Concordo moça sensitiva! — brinco abraçando-a apertado mais uma vez agradecendo o lindo presente e internamente agradeço a Deus por ter me presenteado com uma pessoa tão maravilhosa.
(***)
Volto à praia no dia seguinte para ver se encontro o rapaz para lhe entregar o colar, mas foi em vão.
Guardo o colar na minha bolsa e aproveito o dia para manter o meu dourado e olhar o lindo mar a minha frente. Depois de mais uma manhã na praia retorno para a casa da minha tia para aproveitar um pouco mais da companhia delas e assim após um fim de semana maravilhoso volto para casa com as energias renovadas.
Ainda na estrada ligo meu celular e ele apita com inúmeras mensagens do George, leio por cima uma delas que diz que era tudo armação para nos separar.
Meu ex realmente não tem noção do perigo.
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