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Capa do romance Mas será o Benedito?

Mas será o Benedito?

Vanderléia não aceita ser rotulada como uma garota comum ou fora dos padrões. Autoconfiante e cheia de atitude, ela exalta suas curvas e recusa o papel de vítima do preconceito. Prefere ser chamada de Léia ou Vavá, ignorando quem usa seu nome completo. Entre fugir do síndico e viver seus dias com intensidade, ela assume o controle da própria narrativa, provando que sua autoestima é inabalável e que ninguém contará sua trajetória melhor do que ela mesma.
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Capítulo 3

Parada em frente ao meu prédio, dentro do carro pensando na loucura foi meu dia hoje, estava trabalhando para uma mulher que não pagava meu salário por pirraça, agora vou trabalhar para uma construtora conhecida no Brasil e no mundo. Foi difícil mas dona Marta aceitou minha demissão, não vou precisar cumprir aviso, até me assusta a forma rápida em que tudo foi resolvido.

Vai ser maravilhoso trabalhar para uma construtora tão famosa e com o salário que vou receber então, sou muito cara, preciso pagar meus cartões de crédito, afinal não sou rica, sou de classe média em ascensão, da turma dos nem, nem rica, nem carente, pobre nunca fui, porque já dizia a minha avó:— minha filha pobre é o diabo! (Prefiro o termo carente) com muito esforço e estudo consegui uma bolsa em uma faculdade, fiz secretariado executivo, por quatro anos assim que me formei, fiz várias especializações, também na área administrativa, fiz cursos de inglês, francês e espanhol, tentei o alemão, mas desisti.

Meu pai depois de casado concluiu o ensino médio, e quando completei 7 anos, ele entrou para a faculdade de direito, quando eu estava com 12 anos ele terminou e se especializou em direitos trabalhistas para defender os trabalhadores que não tem condições de pagar um advogado. Na mesma época minha mãe pediu a separação e se mudou para outro apartamento, o motivo? Meu pai andava cansado, sem tempo, trabalhava demais e ganhava de menos, só que agora ela está sozinha e meu pai com uma namorada por semana, parece um garotão, minha ligação com ele é muito forte, mais forte que com a minha mãe, não que eu não a ame, a amo, ela segurou muito a barra enquanto meu pai estudava, só que chegou um momento que ela não conseguiu mais aguentar e se mudou, meu pai aceitou numa boa, até demais... mentira. Ele sofreu muito, mas algum tempo depois ele descobriu as garotas mais jovens, pois apesar da idade meu pai era e ainda é um homem charmoso e bonito; ele não ganha muito, mas seu trabalho é digno e dá para viver bem, sem luxos, e foi com o salário do seu Joaquim que consegui pagar minha faculdade, tenho muito orgulho dele que não se deixou abater pelo abandono da mulher amada, pelas dificuldades que passou.

Meu telefone toca e falando nele...

- Oi pai, boa noite! - falo animada já dentro da garagem, saio do meu Dodge Charge RT 1969. Super conservado, como eu tenho um carro tão valioso?! O pai do meu avô trabalhou muito, muito mesmo, guardou dinheiro por muitos anos e com muito esforço conseguiu comprar mesmo com algumas peças quebradas, meu avô o ajudou a restaurar e o manteve assim, quando meu avô completou maioridade o carro passou para ele e do meu avô para o meu pai e foi assim que ele veio para mim, e Deus me livre alguém bater nele é pior que se alguém me batesse, é meu xodó, quase não saio com ele, só quando quero me sentir poderosa é assim que me sinto dentro dele.

Todos me olham por onde passo com ele, colecionadores já me ofereceram muito dinheiro por ele, mas na garagem deles meu carro se tornaria só mais um, então eu não vendo, não empresto e muito menos dou, gente não me critiquem, não é apego a bens materiais, imagina você usando alguma coisa que pertenceu ao seu bisavô? É muito bom mesmo, me faz lembrar de quem eu sou, de onde vim.

Depois das saudações começa o drama.

— Minha filha quando você vem visitar seu pai querido, tem tanto tempo que você não vem aqui.

— Pai... Não faz uma semana que eu fui aí! Deixa de drama qualquer dia bato em sua porta e o senhor faz um jantar daqueles maravilhosos que só o senhor sabe fazer, o senhor mora muito longe não dá pra ir todo dia. — dou risada com a pequena piada.

Meu pai mora do outro lado da rua, mas como somos muito ocupados nos vemos uma vez por semana e às vezes passamos duas semanas sem nos vermos, ele com seus processos e eu trancada naquele escritório.

— Estamos sem tempo, não é mesmo. — Ele gargalha.

— Somos pessoas ocupadas. -- falo entrando no apartamento dando graças por não ter encontrado seu José agora, antes de tomar um banho e me preparar para a ladainha.

—Tenho novidades! — Ele diz empolgado.

— Eu também! — já até sei qual a novidade dele.

— Então me conta, qual a sua novidade? — Penso por onde começar.

— Pedi demissão...— Esperei sua reação e.... nada, ele disse apenas:

— Isso eu já esperava, uma hora você explodiria com aquela mulher, demorou mais do que eu imaginei, se você tivesse deixado teria entrado com um processo contra ela, mas qual é a outra? — respiro querendo segurança.

— Fui contratada pela Bel Planet Urbanism. — Falo um pouco contente, mas preocupada, nervosa até.

— A Bel Planet filha? Sério? A maior empresa de urbanismo/paisagismo/construtoras? Tem escritórios no mundo inteiro? — ele continua todo animado e eu vou ficando cada vez mais nervosa ao me lembrar dos meus objetivos naquela empresa, não vai ser fácil, tenho a sensação de que vou sair de lá mais machucada do que fiquei com o tombo que levei da bicicleta quando era criança.

— Por que não sinto tanta empolgação em você, quer conversar?

— Não pai outro dia a gente conversa, traz ela aqui em casa, qual o seu nome mesmo Hannah?!

— Hannah não meu bem, com ela não deu certo, ela pensou que eu fosse rico e lhe daria uma vida de princesa, por ser mais jovem sei lá. — diz desanimado.

— Então quem é agora? — Meu pai até que tenta mas sei que ainda é apaixonado por dona Fera (minha mãe). Minha mãe assim como minha avó, mãe dela são péssimas na escolha de nomes. Veja se o nome Ferônia é um nome de criança? Será que minha avó queria colocar Verônica e o cara do cartório era surdo?

— Seu nome é Velma, é psicóloga e tem dois filhos, uma garota de dezessete e um rapaz de 22, é separada do marido, e está tentando começar de novo. O ex-marido a deixou por uma aluna, já que é professor. — Enquanto ele a descreve eu só penso na Velma do Scooby Doo. Dou altas risadas.

—...Ainda não estamos prontos... filha você está me ouvindo? — Já estou esparramada no meu sofá me livrando dos meus assassinos (vulgo: sapatos, que apesar de caros e confortáveis não são pra ficar indo e vindo por aí) vou te revelar uma coisa sobre mulheres muito importante, elas podem economizar com qualquer coisa menos com sapatos.

Voltando ao momento... Estou quase rolando de rir lembrando do Salsicha, eu lembro até da voz do Salsicha dizendo: "Oi Velma você viu o Scooby?" E volto a rir.

— Ela também usa óculos e tem um cachorro chamado Scooby? — ele fica um pouco em silêncio e responde com a voz um pouco engraçada.

— Como você sabia? Já a conhece? — eu não aguento dessa vez gargalho mais alto.

— Vanderléia Ribeiro de Sousa! — Paro de rir na mesma hora, quem em sã consciência coloca esse nome na filha? Agora quem gargalha é meu pai, ele sabe o quanto eu detesto meu nome.

— Então quando o senhor vai trazer ela aqui?

— Quando estivermos prontos, desta vez vou mais devagar, aos poucos.

— Está certo, faça igual mineiro, comendo pelas beiradas, quando ela menos perceber você dá o bote. — Continuo rindo dele.

— Piadinha de mau gosto filha. — Ele tenta impor uma voz séria, mas sei que está rindo.

— Tenho que ir, chegou um cliente, beijos meu amor, até mais...

Eu respondo e ele desliga. Vou tirando a roupa e jogando pelos cantos até chegar ao banheiro. Tomo um banho demorado lavo meus cabelos longos e ruivos, com um shampoo específico para cabelos como os meus, tive que procurar um shampoo assim, pois alguns comuns estavam mudando a cor e eu amo essa cor natural que ele tem, lavo bem minhas dobrinhas macias, meus seios que são grandes mas não exagerados, depois do banho faço o mesmo caminho de volta catando as roupas espalhadas pelo chão.

Arrumo o apartamento, uma vez por mês dona Francisca (Dona Xica, como eu gosto de chamá-la) vem aqui fazer a limpeza mais pesada e o restante do mês eu me viro, não faço refeições em casa todos os dias e a limpeza semanal sou eu que faço, passo o dia inteiro fora então não sujo muito, as roupas eu mesma coloco na máquina de lavar e já sai quase seca, o banheiro eu limpo, um dia sim outro não.

Quando termino de arrumar meu pequeno closet vejo meu celular vibrar sobre a cama e o nome Tião na ligação, Tião é o apelido que dei ao meu amigo Sebastião Moreira, ele prefere Titi, mas eu prefiro Tião quando eu quero irritá-lo.

— Oi, Tião gatão!

— Não me chama assim Vanderléia raputenga! — Ele detesta o apelido mas eu adoro.

—Ai essa doeu, tá com saudade é? — pergunto imaginando o que esse doidinho quer.

O conheço desde sempre, descobrimos e fizemos muita coisa juntos, até sua homossexualidade eu o ajudei quando se assumiu, no começo seus pais não aceitaram, o pai o expulsou de casa e ele veio morar comigo, sofreu muito pela falta da mãe e após seis meses a mãe adoeceu, e seu pai veio pedir perdão, e para ele voltar pra casa, que o amava acima de tudo, mas o que o convenceu a voltar foi saber que a mãe estava doente.

Foi lindo ver o abraço e o amor entre pai e filho.

— Adivinha onde estou?

— Num clube de sexo? — Queria ver a cara dele agora.

— Não né! Nem só de sexo viverá o homem, estou na praia vendo alguns crushs de sunga, cada delícia uuui! Você tinha que estar aqui pra ver, mas você prefere ficar aí trancada com a *Miranda.

— Eu não estou mais lá, pedi pra sair. — respondo indiferente. — ela atrasou muito meu salário.

— Nossa você ainda foi muito paciente, e o que a jararaca disse, qual foi a explicação?

— Ela disse que eu não sou humilde, que não tinha todo o dinheiro e que estava em um momento complicado. Um monte de asneiras.

—E você chutou o balde né meu amor?

— Chutei, e ela pagou na mesma hora, estava só de pirraça. — Continuei falando sobre o assunto mas acho que meu amigo não está me escutando, ele combina algo com alguém.

— Ô piranha você está me ouvindo?! — Nos tratamos assim, com apelidos carinhosos.

— Não... aqui está bom demais pra ficar ouvindo uma gralha feito você, vem logo pra cá amore, aqui tá uma delícia uuuii. — Eu não acredito que ele gemeu no telefone.

— Eca! Vou desligar, me espere aí onde você está!

Eu nem imaginava que meu destino seria mudado completamente hoje, e que atitudes impensadas levariam tanta confusão para o meu futuro.

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