
Marcado Pelo Passado, Seduzido Pela Inocência
Capítulo 3
O inverno russo castigava São Petersburgo com seu vento cortante, mas o que gelava Irina Petrov por dentro não tinha nada a ver com o frio. Aos 19 anos, ela já conhecia o peso do desespero. A vida lhe havia arrancado a inocência cedo demais, deixando cicatrizes invisíveis, gravadas no coração.
Seus cabelos loiros dourados caíam em ondas suaves pelos ombros, a pele clara parecia quase etérea sob a luz cinzenta da cidade, e os olhos verdes intensos guardavam um brilho que chamava atenção sem esforço. Uma beleza quase perigosa, uma mistura de fragilidade e força, de luz e sombra. Quem a olhava, sentia que havia nela segredos que não ousava revelar.
Mas, por trás da aparência angelical, havia uma jovem que carregava o peso do mundo sobre os ombros. E agora, pela primeira vez, estava prestes a tomar uma decisão que mudaria tudo.
Duas semanas antes, a vida dos Petrov desmoronou. Alexei Petrov, o pai de Irina, um homem outrora respeitado, havia perdido tudo para os cassinos de Moscou. Dinheiro, propriedades, influência... tudo evaporou. Envergonhado, ele fugiu deixando sua família desprotegida e sem um pilar. As dívidas se multiplicaram, e as ameaças chegaram.
Foi numa manhã fria de domingo que o inevitável bateu à porta.
Irina abriu e se deparou com um homem alto, de expressão impenetrável, vestido com um terno escuro impecável. O homem estava parado na porta enquanto o vento gelado de Moscou entrava com ele, trazendo um peso que parecia sufocar o ar. Seu terno escuro estava impecável, mas o olhar era duro, frio e impiedoso. Em uma mão, ele carregava uma pasta de couro. Na outra, um cigarro aceso que exalava um cheiro amargo.
Irina engoliu em seco, sentindo a garganta secar quando os olhos dele pousaram sobre ela. Não havia simpatia, nem compaixão. Só cálculo e ameaça.
Ele abriu a pasta devagar, tirando de dentro um envelope grosso. Estendeu-o para Ekaterina, que hesitou antes de pegar, como se o simples toque pudesse queimar.
- Vocês têm trinta dias para quitar a dívida. - A voz do homem soou baixa, rouca, mas carregada de um peso que fez o estômago de Irina revirar. Cada palavra vinha pausada, como um veredito. - Caso contrário... a casa será confiscada.
Fez uma pausa longa, olhando para o interior da casa com desdém. Seu olhar percorreu os móveis simples, os tapetes gastos, os retratos na parede, como se medisse tudo o que poderia ser tomado deles.
Então, inclinou-se levemente para frente, abaixando a voz, tornando-a ainda mais cortante:
- E vocês... despejadas.
Ekaterina apertou o envelope contra o peito, encarando o homem com o rosto pálido, mas o homem não havia terminado. Um sorriso lento, perturbador, surgiu no canto dos seus lábios.
- Claro... - disse, ajeitando o paletó, como quem escolhe as palavras com precisão. - Sempre existem... outras formas de pagamento.
Irina sentiu o corpo inteiro gelar. O olhar dele a percorreu de cima a baixo, lento, insolente, parando por um instante nos lábios dela antes de voltar para os olhos.
- Uma garota bonita como você... - murmurou, com um tom que fez o sangue de Irina ferver de indignação e medo. - Com toda certeza... o senhor Gorbachev aceitaria"acertar" a dívida de outro jeito.
Ekaterina deu um passo à frente, colocando-se instintivamente entre o homem e a filha o encarando furiosa.
- O senhor não tem o direito de falar assim! - disse, com a voz trêmula, porém firme.
O homem ergueu as sobrancelhas, como se estivesse se divertindo com a reação.
- Direito? - Ele riu, um som baixo e seco. - Não, senhora Petrov... não é questão de direito. É negócio. Quem tem o poder... define as regras e o senhor Gorbachev não é um homem paciente, isso pode custar mais caro do que vocês possam imaginar.
Então, recuou um passo, colocando as mãos nos bolsos com um ar calculado, antes de soltar o último golpe:
- Pensem bem. Trinta dias passam rápido... e tudo tem um preço.
E saiu, fechando a porta devagar, como quem sabia que havia deixado uma bomba-relógio para trás.
Ekaterina estava parada ao lado da porta, tentando manter a postura, embora os olhos marejados a traíssem. No tapete da sala, Anastácia, sua irmãzinha de cinco anos, abraçava o ursinho de pelúcia gasto, com os olhos azuis cheios de inocência, sem imaginar que todo o mundo delas estava prestes a ruir.
naquele instante que Irina entendeu que não havia saída fácil.
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