
Maldito mafiso
Capítulo 3
Quando minha mãe falou que nós iríamos morar em outra cidade, jamais pensei que, na verdade, fosse outro país. E aqui estamos: na Itália, mais precisamente na Sicília. Um lugar que, até pelas fotos que eu tinha visto, parecia mágico. Segundo minhas pesquisas, a região é conhecida pelas suas praias de águas cristalinas, pelas cidades históricas e pelo turismo que encanta visitantes do mundo inteiro.
No carro, eu não tirava os olhos da janela. A cada curva da estrada, descobria algo novo. As colinas verdes se estendiam como um tapete vivo e, ao fundo, o azul intenso do oceano cortava o horizonte. Meu coração acelerou de expectativa. Eu sempre sonhei em andar de barco sobre águas azuis e infinitas… e agora esse sonho parecia tão próximo.
Antes vivíamos no sul da França, numa casa grande com um jardim maravilhoso. Eu amava plantas, flores e animais. Passava horas entre os canteiros, brincando com meu gato, aquela bolinha de pelo que era minha companhia fiel. Pensar que agora estava tão longe dele me fazia apertar os olhos para não chorar. Já sentia saudades.
O carro desacelerou diante de portões imensos de ferro trabalhado. Atravessamos uma longa alameda ladeada de ciprestes até estacionar em frente a uma mansão monumental. Tudo ali transbordava riqueza — a entrada com colunas, o hall luxuoso e a sensação de que eu tinha acabado de entrar em outro mundo. Minha família nunca viveu em uma casa simples, mas nada do que tínhamos antes se comparava àquilo.
Na entrada, um homem elegante nos esperava. Pelo jeito como segurava a mão da minha mãe, percebi que era Enrico, o homem com quem ela iria se casar. Ao lado dele, estava um rapaz de cabelos pretos e olhos castanhos que parecia ter mais ou menos a idade da minha irmã. Tinha um charme imediato, e percebi, pela maneira como olhou para ela, que havia gostado dela à primeira vista. O nome dele era Matteo.
Cumprimentei-os educadamente, mesmo sem simpatizar muito com a situação. Uma empregada logo me conduziu até o meu quarto. Era enorme, com janelas que davam vista para um jardim exuberante, quase como um quadro vivo. Mas a beleza não compensava o peso das palavras que a empregada disse em seguida:
— Café às oito, almoço ao meio-dia, jantar às dezenove. Nunca, em hipótese alguma, entre nos quartos dos meninos. E, principalmente… — ela apontou para fora da janela — está vendo aquela parte do jardim cercada? Nunca entre lá. Se o senhor Giovanni pegar você, ele vai te matar.
O sangue gelou em minhas veias. Depois dessas palavras, a mulher simplesmente se retirou, como se não tivesse acabado de me lançar em uma prisão.
Era isso que aquele lugar parecia para mim: uma prisão dourada. Decidi que obedeceria às regras por enquanto, mas já começava a traçar planos. Mais cedo ou mais tarde, eu fugiria dali. Voltaria para a França e aprenderia a viver por conta própria.
Uma semana se passou. Enquanto minha mãe e minha irmã já tinham feito amigos e explorado a cidade inteira, eu permanecia isolada naquele quarto. Hoje era o casamento da minha mãe. Ela me trouxe um vestido azul-claro rodado, digno de princesa, e avisou que uma empregada viria me ajudar a me arrumar. Mal sabia ela que eu tinha um plano: durante a cerimônia, eu tentaria escapar.
Da janela, observei a movimentação: dezenas de convidados elegantes chegavam à mansão. Eu, que nunca gostei de multidões, sentia o peito se apertar. Meu mundo sempre foi a terra, as flores e os animais. Mas ali… eu precisava parecer a menina perfeita.
Desci as escadas em silêncio, tentando passar despercebida. O vestido rodava em volta das minhas pernas enquanto eu caminhava furtivamente até meu objetivo: os portões. Mas, claro, estavam trancados. Eu deveria ter imaginado. Nada proibido seria deixado sem segurança.
Enquanto tentava forçar a entrada, uma mão firme agarrou meu braço.
— O que pensa que está fazendo aqui? — a voz era grave, autoritária.
Virei-me assustada e encarei um homem. Ele tinha cabelos pretos como o de Matteo, mas o rosto era mais sério, maduro, e a presença dele… quase sufocante. Seus olhos escuros me atravessaram, e um arrepio percorreu meu corpo. Tentei sorrir, com a cara de cachorrinho que sempre usava quando queria algo.
— Só queria ver o jardim… por favor.
Para minha surpresa, os olhos dele se suavizaram. Um leve sorriso despontou em seus lábios. Sem dizer nada, ele abriu o portão e, em seguida, segurou minha mão, guiando-me para dentro daquele jardim proibido.
Lá dentro, parecia outro mundo. Ele me falava das rosas com uma voz calma, quase gentil, e perguntou meu nome. Respondi, e em seguida perguntei o dele. Foi então que descobri que ele era Giovanni, o filho mais velho do homem que minha mãe acabara de se casar. O mesmo de quem todos diziam que era perigoso.
Mas, ali, ele não parecia perigoso. Ao contrário, me fazia sentir à vontade. Tanto que me permiti subir em uma árvore, esquecendo que estava de vestido. Só percebi o erro quando vi que ele podia estar olhando minha calcinha. Corei de vergonha, e antes que pudesse descer sozinha, escorreguei. Ele me segurou nos braços, colado a mim, e o perfume amadeirado dele me envolveu.
Por um instante, fiquei paralisada. Ele me segurava firme, e o som da respiração dele estava acelerado, quase ofegante. Então, como se lutasse contra algo, me colocou de volta no chão com uma expressão dura.
— Volte para a festa. — disse de forma seca.
Mesmo assim, ele voltou a segurar minha mão enquanto me conduzia de volta. E eu, secretamente, gostei daquela sensação. Antes de sairmos do jardim, ele soltou minha mão para trancar o portão. Num impulso, fiquei na ponta dos pés, dei um beijo rápido em seu rosto e murmurei:
— Obrigada.
Em seguida, corri envergonhada antes que ele pudesse reagir.
Quando cheguei à festa, a cerimônia já havia terminado e começavam os discursos. Sentei-me perto da minha irmã, que me lançou um olhar repreensivo. Levantei os olhos e, para meu choque, Giovanni entrou no salão acompanhado de uma mulher belíssima, que se pendurava em seu pescoço e o beijava sem parar.
Meu estômago revirou. Eu não entendia por que aquilo me incomodava tanto. Não fazia sentido sentir ciúmes de um homem que mal conhecia. Mesmo assim, não conseguia evitar. E o pior: por trás dos beijos que ele distribuía naquela mulher, os olhos dele estavam fixos em mim, como se me estudasse.
O novo marido da minha mãe se levantou para nos apresentar oficialmente como filhas. Minha irmã parecia radiante. Eu, ao contrário, não esbocei emoção alguma. Já tinha um pai — não precisava de outro.
Logo depois, a atmosfera da festa mudou bruscamente. Um homem se aproximou trazendo uma notícia devastadora. Disse que meu verdadeiro pai havia feito um contrato de casamento envolvendo a mim e o filho dele.
O salão mergulhou no caos. Minha mãe empalideceu, convidados começaram a murmurar, e Enrico parecia não acreditar no que ouvia. Antes que eu pudesse compreender direito, minha mãe segurou meu braço com força e ordenou:
— Para o seu quarto. Agora!
Sem entender o que estava acontecendo, subi as escadas correndo, com o coração martelando no peito. A única certeza que eu tinha era que minha vida nunca mais seria a mesma.
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