
Libertação Pelo Adeus
Capítulo 3
Eu continuei rindo e chorando no meio da rua.
As pessoas que passavam me olhavam com medo, se afastando como se eu fosse louco.
Talvez eu estivesse.
A dor era tão grande, tão avassaladora, que meu cérebro simplesmente não conseguia processar.
Meu corpo tremia incontrolavelmente.
Era o riso de um homem que perdeu tudo.
O choro de um pai que falhou em proteger seu filho.
De repente, meu celular tocou.
O nome na tela me fez parar de respirar.
Isabella.
Eu atendi, minha mão tremendo.
"Miguel? Querido, sou eu!"
A voz dela era alegre, vibrante, cheia de vida.
O som me causou uma náusea profunda.
"Onde você está? Eu estou livre! Finalmente livre! Não é maravilhoso?"
Eu não consegui responder.
Um nó se formou na minha garganta.
"Miguel? Você está aí? Por que não está dizendo nada? Não está feliz por mim?"
Feliz?
Eu queria gritar.
Queria esmagar o telefone.
Queria dizer a ela que nosso filho estava cego, que eu tinha ouvido tudo, que eu a odiava com cada fibra do meu ser.
Mas as palavras não saíam.
Apenas um silêncio pesado.
"Ah, não importa. Estou tão feliz que mal consigo pensar direito", ela continuou, alheia à minha angústia. "Estou no shopping com Ricardo. Ele é um amor, me comprou tantas coisas bonitas."
Ricardo.
Ela disse o nome dele com tanta naturalidade.
"Escuta, mal posso esperar para ver você e o Pedro. Vamos comemorar todos juntos! Estou pensando em comprar umas roupas novas para o Pedro. Ele já deve ter crescido tanto, não é?"
Minha mente se encheu de uma zombaria amarga.
Pedro.
Ela nem sabia.
Ela não fazia ideia do que tinha acontecido com ele.
"Vou comprar um conjunto para um menino de cinco anos. Acho que vai servir, né?"
Pedro tinha sete anos.
Sete.
Ela nem se lembrava da idade do próprio filho.
"Tudo bem, querido. Te vejo em casa. Mal posso esperar para te abraçar. Beijos!"
Ela desligou.
Eu fiquei parado, o telefone na mão, enquanto a realidade caía sobre mim como uma avalanche.
Eu me olhei no reflexo de uma vitrine.
Eu estava magro, com olheiras profundas, vestindo roupas velhas e sujas.
Meu cabelo estava desgrenhado, meu rosto marcado pelo cansaço e pela dor.
Lembrei-me de como eu era antes.
Um arquiteto de sucesso, sempre bem vestido, frequentando os melhores restaurantes, dirigindo um carro de luxo.
Eu tinha uma vida.
Uma vida que eu sacrifiquei por ela.
Por uma mentira.
Com uma determinação fria, comecei a andar em direção ao shopping.
Eu precisava vê-la.
Precisava ver a mulher que destruiu minha vida sorrindo e feliz, ignorante da tragédia que causou.
Entrei no shopping de luxo, um lugar que eu costumava frequentar.
Agora, os seguranças me olhavam com desconfiança, como se eu fosse um mendigo.
Eu a vi de longe.
Ela estava linda, radiante.
Usava um vestido caro, sapatos de grife, e seu cabelo estava perfeitamente arrumado.
Ela estava rindo, segurando as sacolas de compras, de braços dados com Ricardo.
Eles pareciam o casal perfeito.
Eu me aproximei.
Ela estava em uma loja infantil, olhando umas roupas.
"Acho que este aqui vai ficar ótimo no Pedro", disse ela, segurando um pequeno macacão azul.
Eu olhei a etiqueta.
Tamanho 4.
Para uma criança de quatro anos.
Meu filho tinha sete anos.
E estava cego.
A vendedora sorriu para ela.
"Seu filho vai adorar, senhora. É para qual idade?"
Isabella hesitou por um momento, a testa franzida.
"Ah... uns quatro, cinco anos. Eu não tenho certeza, faz um tempo que não o vejo."
Aquelas palavras.
A indiferença.
A negligência.
Foi a última gota.
A dor no meu peito se transformou em uma raiva gelada.
Eu sabia o que precisava fazer.
A vingança não seria rápida.
Seria lenta, dolorosa e calculada.
Eu a faria sentir um décimo da dor que eu e meu filho sentimos.
Eu a faria pagar.
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