
Liberta das Chamas do Passado
Capítulo 2
O cheiro a queimado foi a primeira coisa que me acordou. Um fumo denso e cinzento enchia o nosso apartamento, picando os meus olhos e a minha garganta.
Levantei-me da cama, o pânico a instalar-se. A minha barriga de nove meses tornava cada movimento lento e desajeitado.
"Miguel?", chamei, mas a minha voz saiu rouca.
Ele não estava em casa. Tinha saído há uma hora para ajudar a sua amiga de infância, Sofia, a montar um armário novo.
O alarme de incêndio começou a soar, um barulho estridente que me fez estremecer. Corri, o mais rápido que pude, para a porta da frente. A maçaneta estava quente, a madeira à volta dela a estalar.
Estava presa.
Agarrei no meu telemóvel com as mãos a tremer e liguei para o Miguel. O meu único pensamento era ele. Ele saberia o que fazer.
A chamada demorou uma eternidade a ser atendida. O fumo ficava mais espesso a cada segundo.
Finalmente, a voz dele soou, irritada.
"Clara? O que foi? Estou mesmo no meio de uma coisa."
"Miguel, há um incêndio! No nosso prédio! Estou presa no apartamento!"
Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi a voz de Sofia, a rir de alguma coisa.
"Já ligaste para os bombeiros?", perguntou ele, o seu tom casual.
"Sim, mas não sei quanto tempo vão demorar! A porta está bloqueada, há fumo por todo o lado! Por favor, vem para casa!"
"Calma, não sejas tão dramática", disse ele. "Os bombeiros são profissionais, eles resolvem isso. A Sofia está a ter um ataque de pânico por causa de uma aranha que encontrámos, não a posso deixar sozinha agora."
Uma aranha.
Ele estava a acalmar a Sofia por causa de uma aranha, enquanto a sua mulher grávida estava presa num incêndio.
"Miguel, por favor...", supliquei, a tosse a interromper-me.
"Olha, eu não posso fazer nada que os bombeiros não possam fazer melhor. Deixa de ser criança. Liga-me quando estiveres em segurança."
E desligou.
Olhei para o telemóvel na minha mão, incrédula. O som do fogo a consumir o prédio era agora um rugido.
Sentei-me no chão, encostada à parede mais fria que consegui encontrar, e abracei a minha barriga.
O meu bebé. O nosso bebé.
As lágrimas misturavam-se com o suor no meu rosto. Naquele momento, no meio do fumo e do medo, uma coisa tornou-se clara.
Estávamos sozinhas.
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