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Capa do romance Lavanda e a Nova Chance

Lavanda e a Nova Chance

Despertar com o perfume de lavanda em seu antigo quarto luxuoso parecia impossível para quem morreu amargurada aos quarenta e cinco anos. No entanto, o calendário marca 15 de outubro de 2023, a data exata em que sua carreira ruiu sob falsas acusações de heresia e traições familiares. Diante de uma segunda chance, ela não aceitará o exílio no convento nem as mentiras de sua irmã, Joana. Agora, a busca por justiça será implacável e feita por suas próprias mãos.
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Capítulo 2

A primeira coisa que Maria sentiu foi o cheiro de lavanda, o mesmo amaciante que sua mãe usava, um cheiro que ela não sentia há anos, desde que saiu de casa. A segunda foi a maciez do lençol de algodão contra sua pele, um luxo que a cama dura e gasta do convento não oferecia. Ela abriu os olhos devagar, a luz do sol invadindo o quarto através das frestas da persiana, e por um instante, a confusão a dominou.

Aquele não era seu pequeno quarto no convento, com as paredes de pedra fria e a pequena janela gradeada com vista para um jardim morto. Aquele era o seu antigo quarto na casa dos seus pais, o quarto de uma estrela da música gospel, com discos de platina pendurados na parede e um closet cheio de roupas que ela não usava mais. O pânico começou a subir por sua garganta. O que estava acontecendo? Teria ela morrido e isso era algum tipo de paraíso estranhamente familiar?

Ela se sentou na cama, o coração martelando no peito. Seu corpo parecia diferente, mais forte, mais descansado. Ela olhou para as próprias mãos, lisas e sem os calos do trabalho pesado na horta do convento. Foi quando seus olhos pousaram no celular sobre a mesinha de cabeceira, o último modelo, brilhante e novo. Com as mãos trêmulas, ela o pegou. A tela se acendeu, mostrando a data: 15 de outubro de 2023.

Impossível.

Essa data era um fantasma, o dia em que sua vida acabou. O dia do lançamento do seu álbum, "A Voz da Redenção" . O dia em que Joana, sua irmã mais nova, a destruiu.

As memórias da sua outra vida, a vida que ela viveu até o fim, a atingiram como uma onda violenta. A festa de lançamento, a música tocando, e então o horror. As mensagens subliminares, sussurros demoníacos escondidos na faixa principal, associando seu nome a rituais satânicos. O escândalo explodindo na mídia. As acusações, os fãs se voltando contra ela, chamando-a de herege, de falsa profeta. A gravadora rompendo seu contrato com uma cláusula de moralidade. Seu pai a repreendendo. E Joana... Joana, com seus olhos cheios de lágrimas de crocodilo, fingindo consolá-la enquanto por dentro celebrava a vitória.

Ela se lembrou da desolação, do refúgio no convento, do silêncio, da fé perdida. Lembrou-se de encontrar o diário daquela freira antiga, acusada injustamente de heresia séculos atrás, e de sentir uma conexão com sua dor. Lembrou-se de tentar lutar, de contratar um advogado com o pouco dinheiro que lhe restava, mas era tarde demais. As provas haviam sumido, as testemunhas se calaram. Ela morreu sozinha, aos quarenta e cinco anos, uma mulher esquecida e amarga, em uma cama fria de convento, com o nome ainda manchado.

Mas agora... agora ela estava aqui. Viva. De volta ao início do pesadelo.

Ela não estava morta. Ela tinha recebido uma segunda chance.

Uma raiva fria e cortante substituiu o pânico. Uma determinação de aço se formou em seu peito. Desta vez, não haveria convento. Não haveria desolação. Desta vez, Joana não venceria. Ela se levantou, o corpo vibrando com uma energia que ela não sentia há muito tempo. Caminhou até o espelho e se encarou. A mulher que a olhava de volta era Maria, a cantora no auge de sua glória, com a pele radiante e os olhos brilhando. Mas por dentro, era a alma de uma mulher que já tinha visto o inferno e voltado.

Ela sabia exatamente o que Joana tinha feito. Na noite anterior, enquanto Maria dava as últimas entrevistas, Joana foi ao estúdio da gravadora com a desculpa de pegar algo para a irmã. Lá, com a ajuda de um técnico de som que ela seduziu e subornou, trocou o arquivo de áudio master por uma versão adulterada. O arquivo original, a prova de sua inocência, provavelmente ainda estava na lixeira do computador do estúdio, ou talvez o técnico ainda o tivesse. Ela tinha poucas horas para agir.

Seu telefone tocou, e o nome "Joana" brilhou na tela. Na sua vida passada, ela atendeu com um sorriso, animada para o grande dia. Desta vez, ela sentiu o veneno subir. Ela respirou fundo, acalmando a fúria, e atendeu com a voz mais doce que conseguiu produzir.

"Bom dia, maninha. Dormiu bem?"

A voz de Joana do outro lado era puro fingimento.

"Marília! Bom dia! Ansiosa para hoje à noite? Vai ser o seu grande momento! Estou tão orgulhosa de você!"

"Você não imagina o quanto, Joana," Maria respondeu, um duplo sentido afiado em suas palavras. "Estou a caminho da gravadora para resolver uns últimos detalhes. Nos vemos na festa."

Ela desligou antes que a irmã pudesse responder. O tempo estava correndo. Ela se vestiu rapidamente, escolhendo um terninho branco, poderoso e impecável. Ela não era mais a vítima. Hoje, ela era a caçadora. Ela pegou a chave do carro e saiu do quarto, seus passos firmes e decididos. A redenção não viria de Deus desta vez. Viria de suas próprias mãos.

A festa de lançamento aconteceria em um salão de eventos luxuoso no centro da cidade. A imprensa, os executivos da gravadora, os líderes da igreja, todos estariam lá. Seria o palco perfeito. Na sua vida passada, foi o palco da sua humilhação. Nesta vida, seria o palco da sua vingança.

Enquanto dirigia, ela ligou para um número que sabia de cor, o número de Carlos, um técnico de som leal que ela ajudou a pagar a faculdade do filho. Ele tinha sido demitido logo após o escândalo na sua vida passada, por se recusar a mentir sobre a segurança do estúdio.

"Carlos, é a Maria. Preciso de um favor enorme e discreto. E preciso para agora."

À noite, o salão de eventos estava deslumbrante. Lustres de cristal pendiam do teto alto, e mesas bem arrumadas estavam espalhadas pelo local, ocupadas por figuras importantes do mundo gospel e da indústria musical. Maria chegou e foi imediatamente cercada por fotógrafos e jornalistas. Ela sorriu, posou, respondeu a perguntas com a graça de sempre, mas seus olhos varriam o local, calculando, planejando.

Ela viu Joana perto do palco. Sua irmã mais nova usava um vestido vermelho vibrante, uma cor ousada demais para a ocasião, como se quisesse roubar a atenção. Ela sorria e acenava para as pessoas, agindo como a anfitriã, a irmã devotada e orgulhosa. A visão fez o estômago de Maria revirar. A falsidade dela era tão palpável, tão nojenta. Joana a viu e acenou, um sorriso radiante no rosto, um brilho de triunfo mal disfarçado em seus olhos. Ela achava que já tinha ganhado.

O CEO da gravadora, Senhor Almeida, subiu ao palco para iniciar a cerimônia. Ele falou sobre o talento de Maria, sobre como o novo álbum era uma obra-prima, sobre a honra de trabalhar com uma artista tão abençoada. Maria quase riu. Ela se lembrava de cada palavra que ele usou no comunicado à imprensa que a demitiu na outra vida.

"E agora," Almeida anunciou com uma voz potente, "sem mais delongas, vamos ouvir em primeira mão a faixa principal do álbum 'A Voz da Redenção', a canção 'Ele me Guiará'!"

O produtor no fundo do palco se preparou para dar o play. Os convidados aplaudiram em antecipação. Joana, ao lado do palco, tinha um sorriso que ia de orelha a orelha. Aquele era o momento.

"Esperem!"

A voz de Maria cortou o ar, firme e alta, silenciando a música antes mesmo que ela começasse. Todas as cabeças se viraram para ela. Com passos calmos e deliberados, ela subiu no palco, pegando o microfone da mão de um Almeida chocado.

Ela parou no centro do palco, sob a luz dos holofotes, e olhou diretamente para a multidão. Depois, seus olhos se fixaram em sua irmã. O sorriso de Joana vacilou, a confusão substituindo a presunção.

"Boa noite a todos. Peço desculpas pela interrupção," Maria começou, sua voz ressoando com uma autoridade que surpreendeu a todos. "Mas antes de ouvirmos minha música, preciso informar que há um problema sério. Um problema de sabotagem."

Um murmúrio percorreu o salão. As câmeras da imprensa, que estavam prontas para filmar a audição da música, agora focavam intensamente no rosto de Maria.

Ela não tirou os olhos de Joana.

"Alguém, maliciosamente, trocou o arquivo de áudio original por uma versão adulterada, com o objetivo de destruir minha carreira e minha reputação."

A cor sumiu do rosto de Joana. O pânico começou a aparecer em seus olhos.

Maria ergueu o queixo, sua voz se tornando ainda mais forte e imperativa.

"Eu exijo que a segurança da gravadora traga imediatamente o master original que está guardado no cofre do estúdio," ela ordenou, olhando para Senhor Almeida. "E também exijo que o técnico de som que estava de plantão ontem à noite seja chamado aqui. Vamos comparar os arquivos na frente de todos vocês e descobrir quem é o traidor que está entre nós."

O silêncio no salão era total. Ninguém ousava respirar. A festa de lançamento tinha acabado. O julgamento estava prestes a começar.

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