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Capa do romance Laços de Sangue, Laços de Alma

Laços de Sangue, Laços de Alma

Após ser traída pelo marido, João, com a própria irmã, Sofia, a protagonista perde tudo: seus bens e a vida de seu filho, Pedro. Consumida pela dor, ela recebe uma chance inexplicável de voltar ao passado. Agora, com memórias nítidas da humilhação sofrida, ela desperta decidida a mudar o destino. Sem hesitar, ela exige o divórcio para proteger Pedro e garantir que a história não se repita. É hora de lutar por justiça e reescrever sua trajetória.
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Capítulo 3

João só percebeu nossa ausência uma hora depois, quando a festa estava no auge e as crianças corriam pela casa. Ele entrou no nosso quarto com um pedaço de bolo na mão, o sorriso ainda no rosto, completamente alheio à tempestade que se formava.

"Maria? Pedro? O que vocês estão fazendo aqui trancados? A festa está ótima! Pedro, você prometeu que ia me ajudar a montar o videogame novo do Lucas."

Pedro, que estava sentado na cama ao lado de uma mala semiaberta, nem sequer levantou o olhar. A decepção era uma capa pesada sobre seus ombros.

"Eu não prometi nada" , ele respondeu, a voz baixa e ressentida. "Você disse que ia me levar para comprar aquela placa de vídeo para o meu computador. Você prometeu na semana passada."

O sorriso de João vacilou por um segundo. Ele tinha se esquecido, claro.

"Ah, é verdade! Desculpe, campeão. Mas você sabe como é, a correria... A Sofia precisava de ajuda com os preparativos da festa, não tive tempo." Ele deu uma mordida no bolo. "Deixa pra amanhã, sem falta. Agora vem, vamos lá pra sala. Sua tia está te chamando."

"Eu não vou" , disse Pedro, firme.

João franziu a testa, a impaciência começando a surgir. "Como assim não vai? Deixa de ser antissocial, garoto. É o aniversário do seu primo."

"Eu não me sinto bem" , mentiu Pedro.

Antes que João pudesse insistir, o celular dele tocou. Era Sofia. A voz dela soava manhosa do outro lado da linha.

"Joãozinho, meu amor, a bateria do meu carro arriou. Você pode me dar uma carona pra casa? O Lucas já está caindo de sono."

"Claro, meu bem. Já estou indo" , ele respondeu, a voz cheia de uma ternura que ele nunca usava comigo ou com Pedro.

Ele desligou e se virou para mim. "Preciso levar a Sofia e o Lucas pra casa. Vou levar o nosso carro, o dela deu problema."

"O nosso carro?" , repeti, sentindo a raiva subir. "João, eu tenho uma consulta médica amanhã cedo, e o consultório é do outro lado da cidade. Eu preciso do carro."

"Pega um táxi, Maria" , ele disse, displicente, já pegando as chaves na cômoda. "É só uma consulta de rotina. A Sofia precisa de mim agora."

Ele nem esperou uma resposta. Saiu do quarto, deixando para trás um silêncio pesado e o cheiro doce e enjoativo de bolo de festa.

Eu olhei para Pedro. Ele estava com o rosto pálido e os lábios tremendo. A indiferença do pai era mais dolorosa do que qualquer briga.

Naquela noite, Pedro começou a ter febre. Uma febre alta e persistente que me deixou em pânico. Tentei ligar para o João dezenas de vezes, mas o celular dele só dava caixa postal. Ele devia estar na casa da Sofia, "consolando" a irmãzinha desamparada.

A febre de Pedro não baixava com os antitérmicos que eu tinha em casa. Perto da meia-noite, ele começou a ter calafrios e a delirar. Eu precisava levá-lo a um hospital, e rápido. Sem o carro, minha única opção era um táxi ou um aplicativo de transporte. Tentei por quase meia hora, mas com a chuva forte que começou a cair, nenhum carro estava disponível.

O desespero começou a tomar conta de mim. Eu estava sozinha, com meu filho queimando em febre nos braços, presa dentro da minha própria casa. Foi quando me lembrei de um cartão que peguei no escritório do advogado. Um serviço de carro particular que ele recomendou.

Liguei, a voz embargada pelo choro. Do outro lado, um homem de voz calma me atendeu.

"Pois não, senhora?"

"Eu preciso de um carro, urgente. Meu filho está muito doente, preciso ir para o hospital."

"Endereço, por favor. Estarei aí em dez minutos."

Ele não fez perguntas, não falou sobre a chuva ou a tarifa dinâmica. Apenas prometeu vir. E cumpriu. Dez minutos depois, um carro preto e discreto parou na frente da minha casa. O homem que desceu era alto, de aparência séria, mas com olhos gentis. Ele me ajudou a levar Pedro, que mal conseguia andar, até o carro.

"Para qual hospital?" , ele perguntou, já acelerando pelas ruas alagadas.

"O Santa Lúcia, por favor."

Era o hospital particular mais próximo. Onde, na minha vida passada, eu não consegui internar Pedro por falta de dinheiro.

Chegamos à emergência lotada. O cheiro de desinfetante e doença pairava no ar. Enquanto eu preenchia a ficha de internação na recepção, uma cena no corredor chamou minha atenção.

Lá estava João. Mas ele não estava sozinho. Ele amparava Sofia, que se apoiava nele com uma expressão de dor.

"Ai, Joãozinho, meu pulso está doendo tanto... Acho que torci quando fui pegar o Lucas no colo" , ela choramingava.

"Calma, meu bem, o médico já vai te atender. Vou pedir prioridade, você não pode ficar sentindo dor" , ele dizia, acariciando os cabelos dela.

Minha ficha caiu. Ele não atendeu minhas ligações, ignorou a doença do próprio filho, para estar aqui, com ela, por causa de um pulso torcido. A raiva que senti foi tão intensa que meu corpo tremeu.

A recepcionista me chamou. "Senhora, a consulta de emergência e os exames iniciais ficam em quinhentos reais. Pagamento adiantado."

Eu abri minha carteira. Eu tinha duzentos reais. O resto do meu dinheiro estava na conta conjunta que João controlava. Eu olhei para ele, do outro lado do corredor, pagando a consulta de Sofia com um cartão de crédito dourado. O nosso cartão.

O pânico voltou. Pedro precisava de atendimento.

"Senhora?" , a recepcionista insistiu.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Meu filho podia morrer por quinhentos reais. Não. Não nesta vida.

Minha mão foi instintivamente para o meu dedo anelar. Lá estava ela, a aliança de casamento. Ouro maciço, com um pequeno diamante. O símbolo da minha vida de mentiras.

Eu a arranquei do meu dedo. A pele por baixo estava pálida e marcada.

"Você pode esperar um minuto?" , perguntei à recepcionista.

Saí do hospital e fui até o homem que me trouxe, que esperava pacientemente no carro. Seu nome era Paulo, como eu vi no aplicativo.

"Senhor... Paulo. O senhor sabe onde tem uma joalheria 24 horas por aqui?" , perguntei, a voz desesperada.

Ele me olhou, depois para a aliança na minha mão. Ele pareceu entender tudo em um instante.

"Não precisa disso, senhora. Eu posso pagar a consulta. A senhora me paga depois, quando puder."

"Não, eu não posso aceitar" , recusei. Eu não queria mais dever nada a ninguém.

Ele suspirou. "Tem uma loja de penhores a duas quadras daqui. Eu te levo. Mas, por favor, aceite isso." Ele me estendeu uma nota de cem reais. "Para adiantar alguma coisa, enquanto resolvemos o resto."

Eu hesitei, mas a imagem de Pedro delirando me fez engolir o orgulho. Peguei o dinheiro.

"Obrigada. Eu vou te pagar de volta. Cada centavo."

Ele apenas assentiu.

Vendi minha aliança por oitocentos reais. O valor era uma ofensa, mas era o suficiente. Voltei ao hospital, paguei pela internação de Pedro e ele finalmente foi atendido. O diagnóstico foi uma infecção bacteriana grave. Ele precisaria ficar internado por alguns dias, tomando antibióticos na veia.

Enquanto eu estava sentada ao lado do leito de Pedro, segurando sua mão, meu celular vibrou. Era uma mensagem de João.

"Maria, desculpe o sumiço. Tive que levar a Sofia no hospital, ela torceu o pulso. Já estou em casa. O Pedro está melhor?"

Eu olhei para a mensagem, depois para o meu dedo nu e marcado. A raiva tinha dado lugar a uma calma gélida. Eu não respondi. Apenas apaguei a mensagem e bloqueei o número dele.

A guerra havia começado. E eu não ia perder.

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