
Justiça e amor
Capítulo 3
Eu estava andando de bicicleta na cidade, apreciando a paisagem e o ar fresco, quando de repente vi um boi vindo em minha direção. Eu tentei desviar, no entanto, não consegui e acabei sendo atropelada pelo animal.
Caí da bicicleta com força e senti uma dor aguda no meu joelho. Comecei a gemer de dor e tentar me levantar, porém, estava difícil. As pessoas que estavam por perto começaram a rir da minha situação.
Eu me senti envergonhada e humilhada. Eu não conseguia acreditar que um boi havia me atropelado e que as pessoas estavam rindo de mim. Sentia muita dor no meu joelho e comecei a chorar.
As pessoas que estavam ali se aproximaram para ver se eu estava bem, contudo, eu sentia uma mistura de dor e raiva. Eu não conseguia entender como aquilo tinha acontecido comigo e porque as pessoas estavam rindo da minha situação.
Eu tentei me levantar novamente, entretanto, estava difícil. Minha perna doía muito e eu sentia que algo estava errado. Eu precisava de ajuda, mas não queria pedir para as pessoas que estavam rindo de mim.
Eu sentia muita vergonha e humilhação naquele momento. Eu queria desaparecer dali e não ser mais vista por ninguém. A dor no meu joelho era insuportável e eu me perguntava como eu iria conseguir voltar para casa naquelas condições.
— Oh, meu Deus! Você está bem? Precisa de ajuda?
— Machuquei meu joelho. Eu não consigo andar. — respondo gemendo de dor.
— Vamos, eu vou te levar para casa. Deixe-me ajudá-la.
Um conhecido chamado Miguel apareceu na hora certa e me ajudou a levantar.
— Muito obrigada, Miguel. Eu realmente não sei o que fazer.
— Não se preocupe. Eu te ajudo a chegar em casa. Vamos lá...
— Obrigada novamente. Você é muito gentil. — segurei no braço dele.
— Não precisa agradecer. Eu só estou fazendo o que qualquer pessoa faria em uma situação como essa.
— Você é um anjo! — comento e ele ri.
— Não sou um anjo, sou apenas um cara normal tentando ajudar. Mas fico feliz em poder ajudar de alguma forma.
Segurei em seu braço enquanto caminhávamos juntos em direção à minha casa. Durante todo o caminho, Miguel conversou comigo, tentando me distrair da dor e do constrangimento que eu estava sentindo. Percebi o quão generoso e prestativo ele era, e me senti muito grata.
Ele era alto, com uma aparência forte e robusta, mas parecia gentil e preocupado comigo. Sua voz era grave, contudo, suave ao mesmo tempo. Fiquei um pouco envergonhada por estar em uma situação tão constrangedora.
Entrei em casa mancando e segurando minha bicicleta que agora estava com a roda dianteira amassada. Minha mãe me olhou com raiva e logo começou a discutir comigo.
— Olha o que você fez com a bicicleta, Ariela! Não tem cuidado nenhum com as coisas. E ainda por cima machucou o joelho, como se isso fosse minha culpa.
Tentei explicar que fui atropelada por um boi, porém, ela não quis ouvir.
— Não quero saber das suas desculpas. Não vou pagar o conserto da bicicleta, isso é problema seu. E quanto ao seu machucado, você que se vire para cuidar disso!
Fiquei triste e frustrada com a atitude dela, mas já estava acostumada com o desprezo que ela demonstrava por mim.
Perguntava-me quem era meu pai e se ele sabia da minha existência. Toda vez que eu tentava tocar no assunto com minha mãe, ela mudava de assunto ou simplesmente se recusava a falar sobre isso.
Eu nunca soube o nome dele ou como ele era, só tinha uma vaga ideia de que ele era um "traste". Era difícil não me sentir um pouco triste e sozinha, imaginando se ele me amaria e se importaria comigo se soubesse que eu existia. Mas eu nunca tive coragem de perguntar mais sobre ele e apenas deixei esse pensamento de lado.
Quando mostrei meu machucado para a minha irmã Ciana, ela ficou muito surpresa e disse:
— Nossa, Ariela, como você é azarada! Quem é atropelada por um boi?
Eu ri um pouco da situação, todavia, estava grata por ela ter me ajudado a limpar o ferimento. Ciana sempre foi influenciada pela nossa mãe, mas naquele momento, eu senti que ela estava genuinamente preocupada comigo. Ainda assim, eu não podia deixar de sentir uma pontada de tristeza por não ter tido um pai presente em minha vida para me amar e me proteger.
— Ciana, eu queria tanto ter conhecido meu pai. Nunca soube quem ele era e nem se ele sabia que eu existia. — comento.
— Pra quê? Você não precisa de um pai. Você tem a nossa mãe!
— E se ele me amasse de verdade? Talvez eu tivesse uma vida melhor.
— Não fala besteira, Ariela. Se ele realmente te amasse, ele teria cuidado de você. A nossa mãe já é suficiente, não precisa de um pai para nos fazer felizes.
— Mas, Ciana, eu sinto falta de uma figura paterna na minha vida. — explico.
— Você não sabe o que está dizendo. Eu sou grata por não ter tido um pai, ele era pobre e não fez nada pela nossa família. Sempre que o vejo é para pedir dinheiro emprestado.
— Entendo que você pense assim, mas eu ainda sinto a falta de alguém que me ame de verdade.
— Não fica pensando nisso, Ariela. Você tem a mim e à nossa mãe, nós vamos cuidar de você!
Eu percebia cada vez mais que minha irmã tinha uma visão muito diferente da nossa mãe do que eu. Ela ainda tinha a esperança de que nossa mãe fosse cuidar de mim, mas eu já sabia que isso não iria acontecer. Toda vez que eu tentava falar com ela, ela simplesmente me ignorava ou me tratava mal.
Era como se eu fosse invisível para ela, e isso doía muito. Eu já havia me acostumado com a ideia de que não tinha uma mãe amorosa, contudo, ver minha irmã ainda acreditando nessa ilusão me fazia sentir ainda mais sozinha. Eu sabia que precisava seguir em frente e cuidar de mim mesma, mas era difícil não sentir falta de uma mãe que nunca existiu.
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