
Jamais Perdoar: A Traição Dele, A Justiça Dela
Capítulo 3
Na manhã seguinte, Clara desceu as escadas ao som do cheiro de café e da voz irritante de Kenia. Ela estava sentada à mesa do café da manhã, vestindo um dos roupões de seda de Clara, com os pés apoiados em uma cadeira. Eudora Viana, a mãe esnobe de Cássio, sentava-se em frente a ela, radiante.
"Você parece muito mais em casa aqui do que ela jamais pareceu", disse Eudora, sem nem se dar ao trabalho de baixar a voz quando Clara entrou na sala.
Clara as ignorou e foi para a cozinha pegar um copo d'água. Suas mãos estavam firmes agora. A tempestade de emoções havia passado, deixando para trás uma calma fria e clara. Ela tinha um plano.
Kenia a seguiu, encostando-se no batente da porta. "Sabe, aquele velho era muito chato", disse ela, como se estivesse conversando, lixando as unhas. "Ele simplesmente não morria. Os paramédicos estavam, tipo, implorando para eu sair da frente. Foi tão dramático."
O aperto de Clara em seu copo se intensificou.
"Eu contei tudo para os meus seguidores na minha live privada", continuou Kenia, com um sorriso malicioso no rosto. "Eles acharam hilário. Tive, tipo, um milhão de curtidas." Ela riu. "Ele provavelmente era um fracassado sem família, de qualquer maneira. Quem se importa?"
O copo na mão de Clara se estilhaçou.
Ela não sentiu os cacos cravando em sua palma. Ela só viu vermelho. Ela se lançou, agarrando Kenia pelos cabelos loiros descoloridos e batendo sua cabeça contra a parede.
"Meu pai não era um fracassado!", ela rugiu, sua voz um rosnado gutural que ela não reconheceu. "Ele valia mil de você!"
Kenia gritou, um som agudo e penetrante. "Tira ela de cima de mim! Cássio!"
Eudora entrou correndo, seu rosto uma máscara de horror e fúria. "Clara, sua animal! O que você está fazendo?"
Cássio apareceu momentos depois, avaliando a cena: Clara, com sangue escorrendo da mão, segurando uma Kenia aterrorizada contra a parede.
Ele arrancou Clara de Kenia, seu rosto escuro de raiva. "Que diabos há de errado com você?"
"Ela estava zombando da morte do meu pai!", Clara gritou, lutando contra seu aperto.
"Eu não estava!", Kenia soluçou, segurando a cabeça. "Eu só estava dizendo que sentia muito por ele não ter família para lamentá-lo! Eu não sabia que ele era o pai dela!"
Era uma mentira tão patética e transparente. Mas Cássio acreditou. Ou, mais precisamente, ele escolheu acreditar.
"Olha o que você fez", disse Cássio, apontando para uma pequena marca vermelha na testa de Kenia. "Você a machucou. Peça desculpas. Agora."
"Não", disse Clara, sua voz tremendo de raiva. "Eu nunca vou pedir desculpas a ela."
Os olhos de Cássio se estreitaram. Ele olhou para Clara, depois para a soluçante Kenia, e então para o bule de café prateado fumegante no balcão. Uma ideia cruel se formou em sua mente.
"Você está certa", ele disse suavemente, sua voz perigosamente calma. "Um pedido de desculpas não é suficiente."
Ele soltou Clara. Caminhou até o balcão, pegou o bule de café quente e o pressionou nas mãos de Kenia.
Kenia olhou para ele, confusa. "Cássio, o que...?"
"Ela te machucou", disse Cássio, seus olhos fixos em Clara. "É justo que você a machuque de volta. Olho por olho. É uma tradição de família."
A confusão de Kenia se transformou em um sorriso alegre e malicioso. Ela olhou para o bule de café em suas mãos, depois para Clara, que estava parada, congelada de choque.
"Cássio, não", Clara sussurrou, dando um passo para trás.
Mas ele apenas observava, sua expressão fria e inflexível.
Kenia caminhou em direção a Clara, o bule prateado erguido como uma arma. "Isso é por ser uma puritana chata e estúpida", ela rosnou, e jogou o café quente direto no rosto de Clara.
Clara virou a cabeça no último segundo, mas o líquido escaldante espirrou em seu pescoço e ombro. A dor foi lancinante, imediata. Ela gritou, tropeçando para trás.
Ela apertou sua pele queimando, a dor tão intensa que trouxe lágrimas aos seus olhos. Mas ela se recusou a deixá-las cair. Ela encarou Cássio, que não havia movido um músculo. Viu um lampejo de algo em seu olhar - pena? arrependimento? - mas desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituído por aquela mesma determinação fria.
"Agora vocês estão quites", ele disse, como se tivesse acabado de mediar uma briga de parquinho. Ele colocou um braço reconfortante em volta de Kenia. "Pronto, pronto. Já passou."
Clara olhou para eles, o casal feliz, de pé sobre sua vítima. A dor em seu ombro não era nada comparada à agonia em seu coração.
"Sabe", disse Kenia animadamente, o incidente já esquecido, "meu aniversário é na semana que vem. Deveríamos dar uma festa enorme. Bem aqui. Para, sabe, lavar toda essa má sorte."
"Claro", disse Cássio imediatamente, acariciando o cabelo dela. "Qualquer coisa por você, Ken. Daremos a maior festa que São Paulo já viu."
"E a Clara tem que estar lá", acrescentou Kenia, lançando um olhar triunfante para Clara. "Não seria uma festa sem a convidada de honra."
"Eu não vou", disse Clara entre dentes.
O rosto de Cássio endureceu. "Sim, você vai", ele disse, sua voz não deixando espaço para discussão. "Você é minha esposa. Nós somos os Viana. Apresentamos uma frente unida. Você estará naquela festa, você vai sorrir, e vai agir como se nada estivesse errado. Você me entendeu?"
Ele estava falando de sua imagem. Sua reputação. Diante de sua dor, seu luto, sua humilhação, tudo o que ele se importava era com as aparências.
Clara pensou no acordo pós-nupcial em seu cofre. Pensou no vídeo no celular descartável. Pensou em seu pai.
"Sim", ela disse, sua voz um sussurro morto. "Eu entendo."
Ela iria à festa deles. Ela sorriria. E ela os deixaria pensar que haviam vencido. Deixaria que pensassem que a haviam quebrado em mil pedaços.
Eles não faziam ideia de que cada um desses pedaços estava sendo afiado em uma arma.
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