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Capa do romance IRMÃOS RURIK

IRMÃOS RURIK

Os irmãos Rurik dominam o submundo russo com brutalidade. Maxim, o futuro líder, vê seu foco abalado pelo desejo proibido por sua meia-irmã brasileira. Dmitri assume o lugar do irmão em um casamento forçado para possuir Hanna Petrov, que o despreza. Yuri, um assassino cruel, compra a liberdade de Ilana em um bordel, tornando-a seu objeto de obsessão. Já o frio Viktor vê seu mundo ruir ao resgatar Alice, uma jovem com amnésia que desafia sua natureza implacável.
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Capítulo 2

Se alguém me dissesse, há um ano, que eu estaria cruzando o mundo para morar na Rússia, eu riria. Mas aqui estou eu, no meio do inverno russo, com a mala na mão, tremendo não só de frio, mas de expectativa.

Meu padrasto, que mais parece um personagem saído de um filme de máfia — e, na verdade é, só que da vida real —, decidiu que seria uma boa ideia eu passar uma temporada na Rússia, na casa do filho dele, Maxim Rurik. Um nome que carrega peso. Pesado como chumbo.

A verdade? Eu não ligo se ele me quer ou não. Estou aqui pela cultura, pela arte, pela arquitetura, pelos museus, pelo estudo e pela neve, que nunca tinha visto antes e, principalmente, pela experiência de vida. O filho dele pode ser o próprio anticristo, isso não me afeta.

O táxi me deixa na frente de uma mansão gigantesca, cercada por muros altos, câmeras e portões eletrônicos. Sim, é tudo tão intimidador quanto eu imaginei. Engulo em seco, ajeito meu cachecol e caminho até o interfone.

Mal aperto o botão e um carro preto, com vidros escuros e acelerando feito um demônio, surge do nada.

— Que porra é essa? — grito, pulando para o lado, quase sendo atropelada.

O carro freia tão forte que a neve voa para todos os lados. E eu, que já estava puta da vida, bato a mão na porta do carro. Não satisfeita, chuto.

— Tá maluco? Quer me matar, porra? — berro, sem nem pensar que estou na Rússia, na frente de uma mansão de mafioso, e que provavelmente quem está dentro do carro poderia muito bem me fazer desaparecer sem deixar vestígios.

A porta se abre, e de lá sai... bom, ele.

Maxim Rurik.

Se fosse em outras circunstâncias, talvez eu até diria que é um homem absurdamente bonito. Alto, muito alto, olhos azuis de cortar a alma, cabelo preto, mandíbula forte. Impecável. Vestido em um terno escuro, com aquele ar de quem manda no mundo e pode decidir quem vive e quem morre.

Mas, no momento, tudo que vejo é um babaca que quase me atropelou.

Ele sai do carro como se eu nem existisse, ajeitando o paletó e solta, frio:

— Idiota, fica no meio da rua por quê? Quer morrer? — pergunta em russo, mas entendo muito bem.

Cruzo os braços.

— Se está cego, não dirige, seu animal! — rebato, também em russo, mas com meu sotaque horroroso.

Ele arqueia uma sobrancelha, me olha de cima a baixo como se eu fosse um inseto inconveniente.

— Você só pode ser a brasileira. — Fala como se estivesse amaldiçoando a própria vida. — Ótimo. Mais uma dor de cabeça.

Ele faz um sinal para o motorista e entra no carro.

— Acelera. Passa por cima se ela não sair. — diz, seco.

Eu? Eu rio, mas é aquele riso de quem tá no limite entre a sanidade e o barraco.

— Ah, é? Pois tenta!

O carro vem pra frente. Pulo e caio no chão frio. Levanto irritada, puxo meu canivete do bolso da jaqueta — aquele que meu pai me deu antes da viagem e disse: “Se algum russo louco tentar te sequestrar, você se defende.”

Sem pensar duas vezes, risco a lateral do carro dele. Uma, duas, três vezes. Faço questão de desenhar uma bela linha da porta da frente até a traseira.

O silêncio que se segue é surreal. Os dois homens que estavam do lado de fora, provavelmente seguranças, sacam as armas tão rápido que nem vejo.

Apontam pra mim, e eu, no auge do meu sangue fervendo, abro os braços e grito:

— MAS VOCÊS TÃO LOUCOS? PUXA ESSA PORRA DE GATILHO ENTÃO! QUERO VER! — em português, totalmente surtada.

Maxim não diz nada. Ele me observa. Apenas observa. Seus olhos azuis, que antes pareciam gelo, agora parecem fogo. Ele aperta a mandíbula, sai do carro de novo, dá um passo na minha direção, e por um segundo, penso que ele vai me esganar.

Mas não. Ele levanta uma mão, ordenando que os homens abaixem as armas.

— Vocês tão ouvindo isso? — pergunta, olhando pros caras. — Essa garota é mais brasileira do que a própria bandeira do Brasil. Uma selvagem. — Cospe as palavras, como se eu fosse uma criatura exótica e... irritante.

Eu cruzo os braços, o canivete ainda na mão, e encaro.

— Se acha que vai me intimidar, tá muito enganado, viu, velho bonito.

Ele revira os olhos.

— Bonito? — pergunta, como se isso fosse a pior ofensa do universo.

— Bonito, metido e estúpido. Isso sim. — Rebato. — Agora, faça o favor e saia da frente que preciso entrar. Sou hóspede aqui, querendo você ou não.

Ele se aproxima mais, tão perto que posso sentir seu perfume caro, amadeirado, com notas de couro. Cheiro de perigo.

— Ouça bem, brasileirinha. — Sua voz é baixa, quase um sussurro, mas tão ameaçadora quanto uma arma carregada. — Na minha casa, você não fala comigo. Não olha para mim. Não respira perto de mim. Finja que eu não existo. E eu farei o mesmo. Entendido?

Dou um sorriso debochado.

— Perfeito. Era tudo que eu queria, aliás.

Ele me encara por alguns segundos. Depois, sem mais uma palavra, entra no carro. Mas, antes de fechar a porta, olha de volta e diz, seco:

— E se riscar meu carro de novo, te mandarei de volta para o Brasil, mas em pedaços.

O carro arranca, sumindo pela entrada da mansão. Eu fico ali, no meio da neve, bufando.

— Que homem insuportável, meu Deus. — Digo para mim mesma, guardando o canivete. — Mas bonito ele é, viu. Que raiva.

O portão se abre, e um homem bem mais simpático — imagino que seja algum funcionário — me chama, meio segurando o riso.

— Senhorita Eva? Pode entrar. Bem-vinda à Rússia.

Agradeço, ajeito meu cachecol, puxo minha mala e respiro fundo.

— Vai ser uma longa temporada. — Murmuro.

Mas uma coisa é certa: Maxim Rurik pode ser o próprio capeta vestido de terno, mas ele que me aguarde.

Porque a brasileira aqui não abaixa a cabeça para ninguém.

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