
Intenso Vol 3
Capítulo 2
Depois que as lágrimas se derramaram, eu me senti melhor em relação ao que
acontecera. Sabia que tinha feito uma tempestade em copo d’água; Kellan não
fizera o vídeo recentemente. O choque havia me transtornado, só isso. E o
nojo. Não podia suportar a ideia de outra mulher tocando nele, mesmo tendo
sido anos antes. Só a lembrança de ouvi-lo satisfazendo outras mulheres
enquanto eu estava do outro lado do corredor já era bastante ruim. A ideia de
assistir a isso me dava vontade de vomitar. Até cheguei a pôr a mão na boca,
por via das dúvidas.
Quando os soluços cessaram, ouvi murmúrios no andar de baixo.
Provavelmente, meu pai passando um sermão em Kellan. Sabendo que
precisava superar isso, tentei pensar em outra coisa que não nos saltos
amarelos de Joey rodeando o corpo de Kellan. Mas foi muito difícil tirar essa
imagem da cabeça.
Precisando me concentrar em alguma coisa concreta, tirei a aliança do dedo e
observei os diamantes que cravejavam as laterais. Enquanto estudava cada um
deles, relembrei todas as coisas românticas e comoventes que ele dissera para
mim, e mais ninguém.
Prefiro abraçar uma linda mulher a acordar todo dolorido amanhã. Preciso
ficar perto de você. Cada mulher é você para mim. Você é tudo que vejo… é
tudo que quero. Nós poderíamos dar muito certo juntos. Você me arrasa.
Fica. Fica comigo. Resolve as coisas comigo. Mas não me deixa… por favor.
Tenho certeza de que quero você para sempre na minha vida. Estamos
casados… você é minha mulher. Eu te amo.
Quando, algum tempo depois, ouvi uma batidinha leve à porta, minhas
emoções e meu estômago já tinham se acalmado. Na verdade, estava até me
sentindo meio boba em relação a essa história. Kellan entreabriu a porta, mas
não entrou no quarto.
– Kiera… posso entrar?
Virando-me na cama de frente para a porta, sequei os olhos e puxei o vestido
curto.
– Pode – respondi com a voz rouca.
A porta não se abriu na mesma hora, e franzi o cenho, olhando para ela.
Depois de outra pausa, Kellan perguntou:
– Você não vai… atirar nada em mim, vai?
Deixei escapar um riso e, ao ouvi-lo, Kellan abriu a porta. Sorri ao ver sua
expressão preocupada, balançando a cabeça.
– Não, pode entrar, em confiança.
Kellan fechou a porta sem fazer barulho, e então caminhou até a cama.
Observou a aliança que eu ainda girava entre os dedos. Seus passos
diminuíram e seus olhos se vidraram. Sem conseguir tirá-los da aliança, ele
sussurrou:
– Você vai me deixar?
Enquanto eu observava seu rosto perturbado, refleti sobre a impressão que
meu gesto devia ter causado. Eu ficara transtornada, me afastara dele de um
jeito dramático, e então ele me encontrara manuseando a aliança de casada
como se não quisesse mais usá-la. Na mesma hora, voltei a colocá-la no dedo.
Seus olhos, ainda pesados de lágrimas não derramadas, se ergueram até os
meus. Meu coração se encheu de dor quando abri os braços para ele.
– Não, é claro que não vou te deixar.
Como ele ainda parecia inseguro, sentei sobre os joelhos e o puxei pela
camisa, passando os braços pelo seu pescoço. Na mesma hora ele relaxou e
passou os seus pela minha cintura. Aspirando seu aroma, sussurrei no seu
ouvido:
– Eu estava me lembrando de todas as razões por que te amo tanto. Estava
apreciando tudo que você faz, tudo que você é. Estava me apaixonando por
você de novo.
Kellan se afastou, com uma expressão surpresa.
– Você descobre, menos de vinte e quatro horas depois do nosso casamento,
que eu tenho um vídeo pornô com outra mulher… e isso faz com que você se
apaixone por mim de novo? – Pôs a mão na minha testa, como se tivesse
certeza de que eu estava com febre.
Caí na risada, puxando-o para a cama comigo.
– Não, quer dizer, eu não fiquei lá muito satisfeita com o vídeo, mas… –
encostando a cabeça no seu ombro, observei seus olhos azul-escuros – … há
tantas coisas em você que me fazem feliz, que eu não vou permitir que um
único fato estrague isso… e o que temos.
Kellan sorriu, dando um beijo na minha testa.
– Eu já te disse hoje o quanto te amo?
Eu me aconcheguei na curva do braço dele, enroscando as pernas entre as suas
e pousando o rosto em cima do ponto onde meu nome estava gravado, no peito
dele.
– Provavelmente sim, mas nunca vou me cansar de ouvir.
Enrolando as mãos na barra da sua camisa, curti o conforto do seu aconchego
por um momento. Sua voz grossa soou no meu ouvido quando ele rompeu o
silêncio:
– Me perdoe, Kiera. Eu jamais quis que você ficasse sabendo disso.
Dei uma olhada no seu quadril, imaginando se ainda estaria com o cartão no
bolso, e então observei seu rosto, que deixava transparecer seu
arrependimento.
– Não quero que você me esconda as coisas por achar que a verdade vai me
fazer infeliz. Nós já criamos problemas demais por causa disso.
Kellan assentiu, seus olhos pensativos.
– Tem razão. De todo modo, acho que, mais cedo ou mais tarde, eu acabaria te
contando… mas nunca na manhã seguinte à nossa noite de núpcias. Para ser
honesto, já tinha até me esquecido do vídeo com a Joey.
– Franziu os lábios, extremamente infeliz com o infortúnio de Joey ter
reaparecido e relembrado a ele.
Observando seu rosto forte e bem barbeado, perguntei:
– Como você pôde se esquecer de ter filmado uma transa com uma roommate?
Seria de se esperar que uma coisa dessas fosse inesquecível.
Senti Kellan ficar tenso debaixo do meu corpo, e prestei atenção nos seus
olhos. Antes de poder formular a pergunta que me enchia de pavor, ele
suspirou, balançando a cabeça.
– Me perdoe, Kiera. Ela pediu… e eu não me importei. Não tinha o hábito de
dizer não para a maioria das mulheres na época, e ela… – Mordeu os lábios
com força, fechando os olhos. Quando os reabriu, sussurrou: – Eu não estava
pensando no futuro, no que estava deixando para trás… me perdoe.
Começando a ter um péssimo pressentimento, eu me sentei.
– Esse não foi o único vídeo que você fez, foi?
Kellan estremeceu, e na mesma hora tive uma resposta.
– Me perdoe, Kiera – tornou a sussurrar.
Cruzando os braços, balancei a cabeça, incrédula.
– Ah, meu Deus… eu me casei com um ator pornô.
Kellan se esforçou por manter a expressão neutra, mas não conseguiu por
muito tempo. Dei um tapa no seu ombro quando ele começou a rir. Segurando
minhas mãos, ele sentou, passou os braços pela minha cintura e me puxou para
o peito, esfregando minhas costas para me tranquilizar. Minha breve raiva se
dissipou enquanto ele me abraçava. Então, fui assaltada por um sentimento de
melancolia.
– Eles não vão ficar escondidos para sempre, Kellan. Não quando as músicas
da sua banda estourarem nas rádios. Não quando o seu nome ficar conhecido.
Quando as pessoas souberem que podem ganhar dinheiro à sua custa… – olhei
para seu rosto
– … esses vídeos vão começar a aparecer por toda parte.
Com um sorriso triste, ele concordou.
– Eu sei… e peço desculpas de todo coração.
Examinando sua expressão, fiquei morta de pena dele.
– Não é o meu corpo que vai ser vendido, Kellan. Você não precisa se
desculpar por uma coisa que fez anos atrás. Eu só… me sinto mal por saber
que sua vida íntima vai ser tão… devassada.
Kellan deu de ombros.
– Não me importo com isso. – Segurou meu rosto. – Só não quero que você
seja magoada.
Aninhando o rosto em sua mão, soltei um longo suspiro.
– Bem, pelo menos vou estar preparada.
– Sorri para ele. – De todo modo, jamais vou assistir a esses vídeos. – Kellan
riu, e eu balancei a cabeça, fechando os olhos. Doía um pouco saber que mais
cedo ou mais tarde o mundo inteiro veria meu marido como veio ao mundo,
mas, no fundo, não importava. Ele não era mais aquele homem. Ele era meu
homem.
Abrindo os olhos, observei sua expressão preocupada. Querendo acalmar seu
medo de que eu o rejeitasse, murmurei, brincalhona:
– Você é um tremendo galinha.
Balançando a cabeça para mim, ele voltou a me puxar para a cama. Depois de
um momento, lembrei que ambos tínhamos coisas a fazer, pessoas à nossa
espera. Quando começava a me mover, para lembrar a Kellan que precisava
ligar para Gavin, bateram à porta do quarto. A voz preocupada de minha mãe
perguntou:
– Kiera, querida, está tudo bem?
Kellan se remexeu embaixo de mim, me afastando para o lado, a fim de se
levantar. Desejando poder puxá-lo de volta para os meus braços, sentei,
ajustando o vestido apertado.
– Está… pode entrar.
Quando ela fez isso, deu uma olhada em Kellan com uma expressão dividida.
Pude perceber que não ficara satisfeita com o que ouvira na sala. Minha mãe
gostava muito de Kellan, mas era tão superprotetora quanto meu pai, e Kellan
a deixava nervosa. Beleza, fama, juventude e monogamia não costumavam
andar juntas. Embora ela se esforçasse ao máximo para confiar no meu amor,
estava convicta de que ele acabaria me abandonando.
Mas ela não conhecia Kellan tão bem quanto eu. E eu tinha certeza de que ele
não faria isso. Já tinha levado esse tipo de vida, e agora queria algo mais.
Agora, queria uma vida inteira… ao meu lado.
Abri um sorriso radiante quando ela se aproximou. Kellan olhou para uma e
para outra, e então deu um beijo no meu rosto.
– Vou ligar para o Gavin… e dar uma olhada no meu carro. Volto em um
minuto.
– Assenti, beijando sua mão antes de ele sair.
Mamãe ficou olhando enquanto ele se afastava, e então sentou na cama ao meu
lado. Não me perguntou nada, mas a pergunta que fizera antes ainda estava
clara nos seus olhos verdes. Pondo a mão no seu joelho, repeti a resposta que
já dera:
– Estou ótima, mãe, sinceramente.
Ela pareceu perplexa com essa resposta.
– Como você pode estar ótima sabendo que ele e aquela menina…?
Não concluiu a pergunta, e eu dei de ombros.
– Aquilo foi há séculos, muito antes de ele me conhecer. Aquele vídeo não tem
nada a ver comigo, e agora que o choque passou… estou ótima.
Mamãe exibia uma expressão confusa, e eu ri um pouco, encostando a cabeça
no seu ombro.
– Ele não é mais aquele homem, e… – Fiz uma pausa, a consciência dos meus
próprios erros subitamente me atingindo. – Não posso jogar o passado de
Kellan na cara dele.
Ao ouvir meu tom, mamãe se afastou para me forçar a olhá-la.
– E o seu passado? – Estudou meu rosto.
– Quer me contar o que realmente aconteceu entre você e Denny, querida?
Pisquei os olhos, atônita. Tanto ela quanto meu pai tinham acreditado quando
eu lhes dissera que Denny me deixara para poder aceitar um emprego na
Austrália. No entanto, minha mãe era observadora, estava preocupada e se
sentia curiosa, o que sem dúvida deve ter feito com que juntasse várias peças
soltas, como olhares culpados e comentários abafados, para formar o
quebracabeça do meu triângulo amoroso, que era muito maior do que a peça
minúscula que eu lhe dera. Eu tinha certeza de que ela suspeitava da verdade.
Sentindo meus olhos se encherem de lágrimas, comecei a balançar a cabeça.
Não, não queria lhe contar que eu era um ser humano horrível, que ela criara
esse tipo de mulher, que eu tinha ainda mais defeitos do que o homem que
filmara uma transa com a ex-roommate. Preferia que ela continuasse pensando
em mim como sua doce e inocente filhinha. Mas, por outro lado… eu seria
uma mentirosa se a deixasse continuar pensando assim.
Abaixando a cabeça, sussurrei:
– Eu tive um caso com Kellan. Denny descobriu e… me deixou. – Lágrimas de
culpa me escorreram pelo rosto. Olhando para ela, disse, com voz embargada:
– Me perdoe, mãe.
Seus olhos ficaram úmidos ao ver minha dor. Esperei por suas palavras
ríspidas de condenação, mas não vieram. Em vez disso, ela apenas me deu um
abraço apertado. O que só fez com que eu chorasse mais ainda. Encostando o
rosto no seu ombro, abri as comportas que represavam meu remorso. Solucei
nos seus braços, enquanto ela tentava me acalmar, sussurrando palavras
carinhosas no meu ouvido e esfregando minhas costas.
Quando as lágrimas cessaram, levantei a cabeça.
– Está furiosa comigo? – Minha garganta se fechou com as palavras.
Ela secou minhas lágrimas com o polegar. Com um sorriso tranquilo, balançou
a cabeça.
– Não, é claro que não estou furiosa com você.
– Você não vai gritar comigo? Dizer que sou horrível?
Eu já ia abaixar a cabeça, mas ela segurou meu queixo. Manteve os olhos fixos
nos meus por longos segundos antes de responder:
– Não há nada que eu poderia lhe dizer que a punisse mais do que você mesma
já se puniu. – Balançou a cabeça, suas longas mechas castanhas se agitando
nos ombros. – Agora, se você não demonstrasse um pingo de arrependimento,
seu pai e eu te daríamos uma coça daquelas. – Sorriu mais ainda, segurando
meu rosto. – Mas, obviamente, foi uma coisa que te deixou arrasada, e não
posso imaginá-la se infligindo esse tipo de sofrimento novamente.
Neguei com a cabeça, veemente. Não, não queria jamais passar por aquela
tortura outra vez. Ela sorriu para mim, abaixando a mão.
– Na verdade, estou muito mais chateada por você ter se casado escondido de
mim. – Cruzando os braços, franziu os lábios, arqueando uma sobrancelha. –
Quer explicar isso?
Suspirei, sabendo que não me safaria dessa tão fácil.
Demorou um pouco, mas finalmente consegui convencê-la de que só tinha
mesmo ficado noiva na noite anterior. Kellan e eu consideramos nosso
momento no bar como um casamento, mas eu sabia que as pessoas não o
veriam desse jeito e, de todo modo, fora uma cerimônia sem qualquer valor
legal. A mensagem que eu deixara na secretária eletrônica para meus pais fora
muito curta, sem qualquer explicação. Basicamente, eu só dissera que Kellan e
eu tínhamos nos casado e não voltaríamos para casa até a manhã seguinte. Era
um verdadeiro milagre que meu pai não tivesse posto a SWAT atrás de mim.
Quando mamãe compreendeu o que tínhamos feito, riu de alívio.
– Ah, antes assim, eu estava com medo de que você tivesse tomado um avião
de madrugada para Las Vegas e se casado com algum sósia de Elvis Presley! –
Balançou a cabeça, segurando minha mão para examinar o anel de
compromisso que se elevara ao status de aliança de casamento. – Essa não é a
maneira certa de se começar uma vida a dois… se é que você tem mesmo
certeza de que quer passar o resto da vida com ele.
Assenti enfaticamente. Isso era algo de que eu tinha a mais absoluta convicção.
Uma profunda determinação se estampou no rosto de minha mãe, e ela sorriu.
– Nesse caso, acho que é melhor começarmos a planejar o casamento, não? –
Seus olhos se iluminando ainda mais, ela apertou as mãos. – Podemos marcar
a cerimônia para dezembro, depois que Anna tiver o bebê… ou então na
primavera, quando as árvores estiverem em flor, que tal?
Minha cabeça dava voltas enquanto ela ia enumerando as coisas que
precisaríamos fazer até a data do casamento. Na certa se incumbiria de
escolher meu vestido, os trajes das damas de honra, os ternos de meu pai e de
Kellan, as flores, a música, a igreja, o bufê, o bolo de casamento, e até faria a
lista de convidados…
Quando a lista já ameaçava se tornar infindável, cobri as mãos dela com as
minhas para interromper seu falatório.
– Mãe, eu não preciso de nada luxuoso. – Sorri com ar apaixonado. – Kellan e
eu já estamos casados, e agora só precisamos oficializar a união.
Minha mãe me olhou com uma expressão perplexa, e então perguntou:
– Você vai querer que seja aqui em Seattle ou em Athens? Porque nossa
família inteira está lá, e obrigá-los a tomar um avião para cá não seria nada
simpático.
Suspirei. Ela não ia mesmo largar o osso. Eu ia ter que me produzir toda e
desfilar por um corredor enfeitado de rosas, quisesse ou não. Só de pensar
nisso meu estômago deu mil nós de ansiedade.
Tentando mudar de assunto, murmurei:
– É melhor eu ir falar com papai, para acalmá-lo. – Provavelmente ele ainda
estava meio baqueado com o episódio do vídeo, e também com a história do
casamento. Pobre papai. Aquele não era mesmo o seu dia.
Decidi vestir alguma coisa mais confortável antes de enfrentar a fera. O
tubinho emprestado por Anna ficava se enrolando na altura das coxas, e eu não
queria ter que ficar puxando-o para baixo toda vez que meu pai me chamasse a
atenção. Além disso, o decote quadrado cavadíssimo não permitia que eu
usasse um sutiã, o que até viera a calhar na noite de núpcias, mas não cairia
nada bem num têteà-tête com meu velho.
Minha mãe ficou olhando enquanto eu vestia um jeans qualquer e uma
camiseta; ainda estava animadíssima, planejando os detalhes do casamento,
falando pelos cotovelos sobre o arranjo de flores ideal. Já vestida, fui para a
sala. A descrição que ela fazia da cerimônia de casamento não acabava mais,
suas palavras me bombardeando a cada passo que dava. Enquanto descia a
escada, me imaginei avançando pela nave da igreja em direção ao meu
marido. Quando cheguei ao último degrau, Kellan estava parado perto das
janelas, fazendo que sim com a cabeça para meu pai com uma expressão
compenetrada. Imaginei Kellan de terno, e eu com um vestido de cetim. Na
minha cabeça, ele estava lindo, como sempre, e eu também, pela primeira vez.
A ideia de uma igreja cheia de gente me deixou meio nauseada, por isso tive
que imaginar que ele e eu estávamos sozinhos. Comecei a sentir um sobe e
desce no estômago, a marcha nupcial tocando na minha cabeça.
Kellan olhou para mim e abriu um sorriso. Eu tinha certeza de que ele não
estava tendo a mesma visão que eu, mas a expressão no seu lindo rosto era tão
cheia de amor e encanto quanto a minha. Corando de expectativa ao pensar em
como nossa cerimônia de casamento poderia ser maravilhosa, caminhei até ele
e passei os braços pela sua cintura. Sorrindo para mim, ele me abraçou e deu
um beijo na minha testa. Estávamos olhando um para o outro com ar bobo
quando meu pai pigarreou.
Despertei bruscamente da visão romântica e olhei para ele. Com as
sobrancelhas franzidas numa expressão confusa, ele perguntou:
– Está tudo… bem?
Sorri, assentindo, e ele suspirou, obviamente não entendendo como eu podia
ter passado de um extremo ao outro num espaço de vinte minutos. Dei um
risinho ao soltar Kellan para ir abraçar meu pai. Essas alterações de humor
eram corriqueiras no meu convívio com Kellan. Ele podia me pôr nas alturas,
ou me estilhaçar no chão. Embora às vezes eu até curtisse essa montanharussa, encontrar um ponto de equilíbrio entre os extremos era algo que eu
queria muito. Nós precisaríamos dessa serenidade, se pretendíamos ter uma
relação a longo prazo. E o casamento era uma relação a longuíssimo prazo.
Pelo menos, para mim.
Quando meu pai e eu terminamos de nos abraçar, ele olhou para Kellan, às
minhas costas. Pude perceber claramente como seus sentimentos estavam
divididos. Meu pai queria que eu fosse feliz, mas não aprovava o fato de eu
estar com um roqueiro. E um roqueiro que carregava o vídeo de uma transa no
bolso, ainda por cima. Inclinandose para mim, ele disse:
– Kellan me contou sobre o… casamento de vocês dois… no bar. – Franziu o
cenho, dando uma olhada em Kellan. – Tem certeza de que é o que você quer,
Kiera?
Com um sorriso radiante, dei um beijo no seu rosto.
– Absoluta, pai.
Mas a resposta não fez com que sua expressão se animasse. Na verdade, ele
pareceu envelhecer diante dos meus olhos. Vendo a sisudez nos vincos de sua
testa, segurei seus braços.
– Kellan te contou que o pai dele vai vir tomar um brunch com a gente? –
Olhando para Kellan, perguntei: – Você conseguiu falar com o Gavin?
– Acabei de falar. – Kellan exibiu o celular. – Ele vai estar aqui em meia hora.
– Seus olhos azul-escuros brilhavam de alegria. Sentimentos positivos por um
parente eram uma novidade para ele, que relutara muito em se permitir sentilos. Acho que em parte ainda hesitava, como se estivesse se preparando para a
inevitável implosão emocional que se aproximava. Mas, por ora, estava sendo
otimista.
Ainda sorrindo de orelha a orelha, Kellan apontou para a porta:
– E o meu carro está OK. – Sorri ao ver sua expressão de alívio.
Provavelmente ele sairia no encalço de Joey se ela tivesse causado algum
dano ao seu bebê.
Enquanto esperávamos que a família de Kellan chegasse, minha mãe me
perguntou sobre esquemas de cores para o casamento, o olhar fulminante de
meu pai se tornando ainda mais fulminante a cada pergunta. Kellan ficou
segurando minha mão com um sorriso bem-humorado enquanto ouvia minha
mãe. Tinha certeza de que ele concordaria com qualquer cerimônia
extravagante que ela propusesse. Não se importava de ser o centro das
atenções de uma multidão, e nem que eu fosse centro também. Estava sempre
me incentivando a ser mais confiante e extrovertida. Embora isso me deixasse
envergonhada, eu adorava que Kellan me amasse o bastante para me encorajar
sutilmente a amadurecer.
Gavin tocou a campainha bem na hora. Soltando um longo suspiro, Kellan se
levantou e secou as palmas das mãos no jeans. Não vi o volume no seu bolso
quando sua mão passou por ele, e achei que talvez tivesse jogado o vídeo fora.
Pelo menos, foi o que esperei. Não queria vê-lo com outra mulher, mas sabia,
se topasse com o vídeo, que ficaria morta de curiosidade. E era possível que
essa curiosidade me enlouquecesse a ponto de me fazer assistir. E há coisas
que você não pode fingir que não viu. Kellan fazendo a ex-amante gemer não
era uma cena que eu queria gravada no meu cérebro. Só imaginá-la já era
bastante ruim.
Kellan estava visivelmente nervoso ao se dirigir para a porta. Achei isso
superfofo; ele raramente ficava nervoso. Mas esse encontro com o pai era
muito importante para ele. Eu não sabia exatamente como estava se sentindo,
mas, se fosse eu, seria uma mistura de entusiasmo, apreensão e terror. Muita
coisa pode dar errado quando a gente expõe a alma para outra pessoa, ainda
mais quando se trata de um parente. Kellan estava sendo extremamente
corajoso, e eu não podia me sentir mais orgulhosa dele.
Como se estivesse reunindo forças mentalmente, Kellan soltou um suspiro
curto antes de chegar à porta. Abrindo um de seus sorrisos espontâneos, abriu
a pesada porta de madeira. Levantei do sofá ao avistar seu pai. Gavin era tão
parecido com o filho que o parentesco dos dois era inegável. O mesmo porte,
a mesma altura, o mesmo tom castanho-claro dos cabelos, os mesmos olhos de
um azul-escuro profundo, o mesmo contorno do queixo forte e anguloso. Olhar
para os dois lado a lado era como ter um vislumbre do futuro de Kellan. E, por
tudo que eu podia ver… Kellan ia envelhecer muitíssimo bem: Gavin era
podre de atraente.
Ao meu lado, ouvi minha mãe murmurar Ai… Minha nossa!.
Eu e ela nos entreolhamos com ar cúmplice, enquanto Kellan e o pai trocavam
um aperto de mão. Com uma expressão eufórica, Kellan indicou o interior da
casa.
– Que bom que vocês vieram. Vamos entrar.
Gavin assentiu, acompanhando-o. Atrás dele estavam seus dois filhos, os
meiosirmãos de Kellan. Acenei para a irmã, Hailey. Sorrindo, ela retribuiu
meu aceno. Hailey era mais ou menos da minha idade, talvez um ou dois anos
mais nova. Também herdara os olhos azul-escuros do pai, mas, agora, à luz do
dia, dava para ver que seu cabelo castanho era um pouquinho mais claro que o
dos homens da família. Logo atrás dela estava o irmão caçula de Kellan,
Riley. Bonitinho como ele só, parecia ter uns dez anos de idade, apenas dois
anos mais novo do que Kellan era quando tivera sua primeira experiência
sexual. Eu esperava sinceramente que Riley ainda não tivesse se iniciado; ele
era jovem demais. Com seus olhos da cor de um céu de primavera, Riley
olhava para Kellan com uma expressão de deslumbramento. Obviamente, já
idolatrava o irmão rock star.
Kellan fez uma festinha nos cabelos do caçula quando ele entrou. Quando o
trio já estava no vestíbulo, Kellan indicou a pequena sala.
– Por favor, vamos sentar.
Eu me afastei do sofá para que o pai de Kellan pudesse sentar. Meus pais
fizeram o mesmo, para cumprimentar Gavin. Meu pai lhe deu um firme e
caloroso aperto de mão. Minha mãe tremeu nas bases, mas tentou disfarçar
com um pigarro. Papai franziu o cenho ao ver a mulher trocar um aperto de
mão com a versão mais velha de Kellan. Muito esperto, sentou no lugar dela,
ficando ao lado de Gavin no sofá.
Riley sentou no chão, esticando as pernas enquanto dava uma olhada na casa
de Kellan. Não muito tempo antes, eu pedira ajuda a Jenny, minha melhor
amiga, para pintar as paredes da sala. Eram de um branco sujo, sem graça,
desde que eu fora morar lá. Ela me ajudou a pintá-las de um tom quente de
bege, menos uma, que pintamos de vermelho-escuro. Nos cantos dessa última,
Jenny usara sua habilidade artística para desenhar várias notas musicais.
Também pintara a letra de uma música de Kellan. Em grandes letras de fôrma
acima da porta de vidro de correr, estavam os dizeres A cada dia vou levar
você comigo, não importa quão longe esteja. Kellan achou que era meio
pretensioso exibir uma letra escrita por ele na parede da sua própria sala, mas
achei que tinha ficado lindo, e não deixei que a apagasse. Afinal, agora a casa
também era minha.
Hailey veio me dar um abraço. Pela alegria no seu rosto, era óbvio que já me
adorava só pelos elogios que Kellan fizera. Agora eu achava quase cômico
que um dia já tivesse chegado a suspeitar que Kellan estivesse me traindo com
ela. Mas ele tratara a descoberta do pai biológico com o maior sigilo e a
escondera de todos, até mesmo de mim. Acho que a maioria das mulheres no
meu lugar teria pensado o mesmo que eu pensei.
Achei que o rosto de Kellan poderia até se rasgar, tão largo era o seu sorriso.
Quando seus olhos se fixaram em Gavin, que conversava com meus pais, ele
bateu as mãos com força.
– Bom, vou começar a preparar o brunch, já que está quase na hora do almoço.
– Rindo um pouco, levantou as mãos para o pai: – Me desculpe por ter te
ligado mais tarde do que o combinado.
Os olhos azul-escuros de Gavin observaram o filho, e então se voltaram para
mim. Sentindo meu rosto queimar sob seu olhar, foi fácil imaginar como esse
homem seduzira uma mulher casada. Claro, era uma situação terrível, tão
terrível quanto a situação em que eu me encontrara dois anos antes, mas era
fácil ver por que tinha acontecido. O rosto de Gavin era daquele tipo a que
poucas mulheres conseguem resistir. Na mesma hora me senti aliviada pelo
fato de papai estar agindo como uma barreira entre Gavin e mamãe. Não que
Gavin fosse dar em cima dela na casa de Kellan, e não que ela fosse cair, mas,
enfim…
Um sorriso afetuoso curvou os lábios de Gavin, que balançou a cabeça para
mim.
Meu rosto ficou ainda mais vermelho quando Hailey me deu um apertãozinho
no ombro, exclamando:
– Você agora é parte da família, Kiera, goste ou não!
Meu pai suspirou.
Vindo até mim, Kellan me afastou da irmã e me deu um beijo leve. Seus olhos
me bebiam como se ele jamais me tivesse visto. O jeito como olhava para mim
fez com que meus joelhos ficassem bambos, meu coração disparasse e minha
respiração acelerasse. Ele era incrível.
– Goste ou não – murmurou, antes de me beijar novamente.
Toda derretida e romântica, respondi, com um suspiro:
– Eu gosto.
Meu pai suspirou outra vez.
Passando o braço pelos meus ombros, Kellan olhou para nossas famílias.
– Vamos estar na cozinha. Vocês precisam de alguma coisa?
Sorrindo ao olhar para Gavin, minha mãe murmurou:
– Não, não precisamos de nada. – Meu pai deu uma olhada nela e se inclinou
um pouquinho para a frente, tentando bloquear a visão do pai de Kellan.
Sem notar, Gavin balançou a cabeça.
– Não, obrigado, filho.
Kellan estava rindo baixinho quando contornamos a parede e entramos na
cozinha.
– Ele me chamou de “filho”.
Sorri para ele, eufórica pelo vínculo que se aprofundava entre ele e o pai.
Kellan parou diante da geladeira, seu sorriso se desfazendo. Seus lábios
carnudos se curvaram numa expressão preocupada.
– Que é que eu preparo para eles? – Olhou para mim, seu rosto em pânico. –
Eu não sou o melhor cozinheiro do mundo.
Abriu a geladeira, procurando alguma coisa no seu interior. Tentando me
lembrar de alguma refeição decente que tivesse preparado, sugeri, impulsiva:
– Eu posso fazer uns ovos mexidos, que tal?
O sorriso radiante de Kellan reapareceu ao encontrar uma caixa de ovos na
geladeira.
– Tá, tudo bem… pode ser. – Passando a caixa para mim, fechou os olhos por
um segundo. – Por favor, me diga que tem bacon em casa. – Eu já ia responder
que comprara um pacote poucos dias antes, quando ele abriu a porta do freezer
e o encontrou. Com uma expressão de grande alívio, suspirou. – Graças a
Deus.
Achando graça do seu nervosismo, coloquei os ovos na bancada e segurei seu
rosto entre as mãos.
– Calma. Eles estão aqui por você, não pela comida.
Kellan soltou um longo suspiro para se acalmar.
– É, eu sei. É que… não quero estragar tudo. – Balançando a cabeça, olhou
para o chão. – Porque eu sempre estrago tudo, Kiera.
Sentindo um aperto no estômago ao ver sua expressão sofrida, passei os
braços pelo seu pescoço e puxei seu corpo para o meu.
– Não, não estraga. – Com uma expressão séria, observei seus olhos. – Você
não estragou a nossa relação.
Seus lábios se curvaram, irônicos, como se ele tivesse certeza de que isso não
era verdade. Mas era, sim. Nosso lado sombrio não podia ser atribuído
exclusivamente a ele. Não, nossos problemas tinham sido criados por nós
dois.
Apontando para o armário embaixo da pia, ele disse, em voz baixa:
– Ah, não? Eu acabei de jogar fora um vídeo pornô, Kiera.
A sensação que experimentei ao ouvir isso foi estranha. Por um lado fiquei
eufórica por não estar mais no seu bolso, por outro fiquei horrorizada por
saber exatamente onde estava. Mas me obriguei a sorrir do jeito mais natural
possível, e me afastei de Kellan. Pegando uma frigideira para os ovos,
respondi:
– Exatamente. Você jogou fora. – Tirando um garfo da gaveta, dei uma
espetadinha brincalhona no seu peito. – Agora, se tivesse guardado numa
gaveta para assistir mais tarde, aí sim, você seria um babaca.
Kellan riu baixinho, batendo no meu traseiro com o pacote gelado de bacon.
Quando me afastei dele, com a bunda gelada, sua irmã entrou na cozinha.
– Quem é babaca?
Esfregando o traseiro, apontei automaticamente para Kellan. Ele ficou sério, e
então deu de ombros.
– Eu… pelo visto.
Hailey abriu um largo sorriso para o irmão, puxando uma cadeira. Sentando
com os braços sobre o encosto, ficou assistindo enquanto tentávamos preparar
um brunch decente. Kellan degelou o bacon no microondas, enquanto eu
preparava uma jarra de café. O borbulhar do café fervendo se misturou com os
estalos e chiados da gordura quando as fatias de bacon foram jogadas na
frigideira. Comecei a fritar os ovos, quebrando vários em outra frigideira, e
então esperei alguns minutos até que a clara começasse a endurecer. Quando
achei que estavam prontos, tentei soltá-los. Kellan deu uma olhada na
frigideira quando me viu quebrar a gema de mais um ovo.
– Hum, acho que eles têm que ficar mais tempo… – murmurou.
Dando uma olhada na sua frigideira de bacon chiando, notei que uma
desagradável fumaça preta começava a encher a cozinha. Apontando para sua
frigideira, respondi:
– E eu acho que você está deixando o bacon queimar.
Na mesma hora ele voltou a prestar atenção à frigideira, e Hailey caiu na
risada.
– Santo Deus, como vocês dois sobreviveram esse tempo todo?
Levantando, veio até onde Kellan e eu assassinávamos o brunch.
– Podem deixar que eu termino. Vão descansar em outro lugar.
Kellan deu um sorriso para ela, como se se desculpasse.
– Obrigado… irmã.
Ela sorriu para ele, depois de soltar um ovo frito da frigideira com a maior
facilidade.
– Não há de que, irmão mais velho.
Não pude deixar de notar as semelhanças entre seus sorrisos quando os dois se
entreolharam. Fiquei feliz por ver que o sorriso de Kellan parecia ser
genético. Quem sabe ele não podia passar aquele sorriso incrível para os
nossos filhos? Quer dizer, quando tivéssemos filhos. Dali a muitos anos.
Kellan passou os braços pelos meus ombros, com um suspiro satisfeito.
Olhando para mim, balançou a cabeça.
– Há anos que eu cozinho para mim mesmo. Não sei por que eu não estou
conseguindo hoje.
Com um largo sorriso, dei um tapinha no seu estômago.
– Bem-vindo ao maravilhoso efeito colateral de uma crise de nervos, Kellan
Kyle.
Ele franziu o cenho ao ouvir minha opinião.
– Eu não estou nervoso.
Hailey parou de cozinhar por um segundo e se virou para ele:
– Você só pode estar brincando. Quase dá para sentir o cheiro do medo saindo
de você.
– Deu uma risadinha.
Kellan franziu ainda mais o cenho.
– Como estou feliz por ter irmãos…
Adorando o papo brincalhão entre irmão e irmã, passei os braços com mais
força ao redor do seu pescoço. Hailey estava certa sobre o seu nervosismo, e
errada sobre o seu cheiro. Ele estava com o mesmo aroma fantástico que
sempre tinha. Aquele aroma maravilhoso que era só seu e enchia os meus
sentidos enquanto eu me aconchegava a ele. Seu cheiro era melhor do que o do
café e o do bacon.
Riley entrou na cozinha alguns minutos depois, com uma expressão
entusiasmada.
– Kellan, me mostra a sua guitarra?
Kellan sorriu para ele.
– Claro. – Deu um tapinha no ombro de Riley, e um beijo na minha testa. – Já
volto.
Fiquei olhando seu traseiro quando saiu da cozinha, me sentindo totalmente
feliz. Em seguida Hailey disse algo que balançou um pouco essa felicidade.
Dando uma olhada no irmão, perguntou:
– Kellan fez mesmo… um vídeo? – Ergueu as sobrancelhas, maliciosa.
Irritada por ela ter ouvido nossa conversa, estremeci. Vendo minha reação, os
olhos de Hailey na mesma hora se arregalaram e ela voltou a se concentrar na
refeição que preparava.
– Desculpe, não devia ter perguntado. Tenho certeza de que você prefere não
falar sobre o… assunto. – Pareceu um pouco constrangida.
Sem compreender a que ela se referia, Riley pareceu confuso:
– Ele fez um monte de vídeos, Hail. – Olhou para mim, seus olhos o retrato da
mais pura inocência. – Tem vídeo dos D-Bags que não acaba mais na Internet.
Corei, mordendo o lábio.
– É, exatamente… um monte de vídeos na Internet. – Suspirei, sabendo o
quanto essa afirmação era verdadeira.
Hailey fez uma careta, pedindo desculpas por mímica labial.
Assenti. Não fazia sentido me preocupar com todos os vídeos de Kellan que
poderiam vir à tona algum dia. Não importava. Eu podia enfrentá-los. O preço
valia a pena. Provavelmente seria capaz de enfrentar coisas até piores para
ficar com Kellan. Não que quisesse isso, mas, se acontecesse, aceitaria
qualquer limão que a vida jogasse em mim, se era esse o preço de ser sua
mulher.
Kellan voltou à cozinha alguns minutos depois, segurando a guitarra pelo
braço. Estava num intervalo da gravação do álbum da banda em Los Angeles
e, como sempre, trouxera o instrumento favorito para casa. Era quase como um
cobertor de segurança para ele, um objeto do qual parecia não ser capaz de se
afastar por muito tempo.
Sorri para Kellan, que convidou Riley a sentar, e então lhe entregou a amada
guitarra. Achei que o menino seria capaz de desmaiar, tal foi sua empolgação
ao segurála. Os olhos de Kellan brilhavam ao observar a euforia do irmão,
como se lembrasse de si próprio. Deixei os dois se entrosarem e tentei ajudar
Hailey com o brunch. Peguei um melão pingo de mel fresquinho na geladeira e
comecei a cortá-lo em finas fatias, um riff desafinado encheu o ar.
Kellan ajudou Riley a melhorar sua técnica e, enquanto eu ouvia suas
instruções, relembrei a primeira vez que Kellan tentara me ensinar a tocar
guitarra. A lembrança de suas mãos sobre as minhas e sua respiração no meu
ouvido me fez sorrir. Na época, eu me sentira extremamente culpada por gostar
tanto daqueles momentos. Na verdade, ainda me sentia culpada. Eu tentara
fingir que nossa paquera não passava de carícias inocentes, mas de inocente
ela nunca tivera nada. Eu o desejava, e ele a mim. Eu o amava, e ele a mim.
Nada do que havíamos feito estava certo. Mas a lembrança ainda me fazia
sorrir.
Longe dos acordes de Riley e dos chiados do bacon na gordura, ouvi Gavin e
meus pais conversando. Para minha surpresa, meu pai soltou uma gargalhada
homérica. Gavin devia ser tão simpático quanto o filho – mais uma
característica que estava nos genes de Kellan. Que Deus ajude as mulheres do
mundo se Kellan e eu tivermos um filho algum dia, pensei.
Quando a comida estava quase pronta, Gavin apareceu diante da porta em arco
que separava a sala de jantar da sala de estar, e sorriu de felicidade ao ver os
três filhos. Quando seus olhos encontraram os meus, abri um sorriso radiante
para ele, feliz por ver Kellan lhe dar mais uma chance, como ele pedira. Eu
sabia muito bem o que é a bênção de ter mais uma chance, já que Kellan
também me dera uma. Balancei a cabeça para Gavin, que sentou numa cadeira
ao lado de Riley.
– Ouviu isso, pai? Finalmente consegui acertar aquela parte!
O sorriso orgulhoso de Gavin se voltou para o filho caçula.
– Maravilha! Você já está no caminho para o estrelato. – Seus olhos passaram
para Kellan. – Como o seu irmão mais velho.
Riley voltou a tocar, mas Gavin manteve os olhos fixos em Kellan. Abaixando
a voz, ouvi-o perguntar:
– Posso dar uma palavra com você?
Na mesma hora a expressão de Kellan se tornou defensiva, mas ele assentiu,
indicando o corredor. Dando um beijo no meu rosto ao passar por mim,
contornou a parede em companhia do pai. Voltei a olhar para Hailey, mas ela
apenas deu de ombros; também ignorava o que Gavin queria.
Terminando de fatiar o melão, coloquei depressa os pedaços em uma tigela, e
então limpei o sumo das mãos com uma tolha. Curiosa, saí da cozinha, à
procura dos dois.
Kellan e o pai estavam parados pouco depois da aresta da parede, perto da
entrada da área de serviço e do banheiro. Ao lado de Kellan, ouvi Gavin
dizer:
– Não quero discutir isso na frente de Hailey e Riley, mas… – Parou de falar
ao me ver. Kellan ergueu os olhos e me deu um breve sorriso, por isso vi que
podia me aproximar. Gavin pareceu não saber se devia falar na minha
presença, mas Kellan meneou a cabeça para que ele continuasse. – Hum,
enfim, Martin e Caroline me falaram daquela visita que você recebeu horas
atrás. Disseram que a moça… chantageou você…
Kellan suspirou, e meu rosto começou a arder. Gavin olhou para o filho, e
então para mim.
– Está tudo bem?
Kellan retesou o queixo e apertou tanto os punhos que os nós dos dedos
empalideceram.
– Claro, está tudo bem. Isso… não é nada. Vou cuidar do assunto amanhã
mesmo, antes de voltar para Los Angeles.
Senti uma tristeza enorme ao lembrar que Kellan iria embora tão cedo. Mas
ainda não podia ir ao seu encontro. Meus pais iriam passar mais alguns dias na
cidade, e eu tinha um emprego do qual precisava me demitir primeiro. Pete
fora ótimo comigo, por isso eu queria agir da maneira certa dessa vez e lhe dar
o aviso prévio com duas semanas de antecedência. Também prometera à minha
volúvel irmã que a acompanharia na sua próxima consulta com a obstetra. Por
isso, infelizmente, Kellan teria que voltar para Los Angeles sem mim. Mas,
antes, ele teria que se encontrar com aquela… mulher. Cachorra.
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