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Capa do romance Inocente demais para mim!

Inocente demais para mim!

Ivie Collins viveu anos isolada em um internato após a perda trágica de seus pais. Ao retornar, ela se vê sob a tutela de Rowan Sloane, um homem gélido e controlado que nunca viu antes. Apesar da diferença de idade e do passado sombrio de Rowan, uma obsessão perigosa nasce no primeiro encontro. Ele tenta resistir à vitalidade dela, mas o desejo pela protegida ameaça sua sanidade. Seria Ivie tão ingênua quanto aparenta ou Rowan sucumbirá ao proibido?
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Capítulo 3

Ivie:

Meu primeiro ano em Boston deveria ter sido o começo de uma nova vida. Era o que eu dizia a mim mesma sempre que acordava naquele quarto silencioso, com janelas grandes e uma liberdade que nunca parecia realmente minha. Nada ali me prendia... e, ainda assim, eu nunca me senti tão controlada.

Com o tempo, aprendi que viver na casa dos Sloane não era difícil, desde que eu não errasse. Desde que falasse o necessário, estudasse o suficiente e nunca ultrapassasse os limites invisíveis que tio Harold fazia questão de impor sem precisar levantar a voz.

Eu me adaptava, porque era isso que eu sabia fazer. Mas, no fundo, uma parte de mim ainda esperava por algo que nunca chegava.

Às vezes, eu tinha a estranha sensação de estar sendo observada, mesmo quando estava sozinha no quarto. Como se cada passo, cada escolha, cada respiração precisasse seguir um padrão invisível que eu ainda não compreendia completamente. E o mais assustador... era perceber que, aos poucos, eu já estava aprendendo a obedecer sem nem perceber.

Mesmo que fosse uma prisão, ainda seria mil vezes melhor do que aquele colégio onde eu cresci.

Em alguns momentos, eu tinha a impressão de que aquela casa guardava mais do que silêncio e regras. Como se existisse alguém que ainda não estava ali... mas que, de alguma forma, já ocupava espaço. Eu não sabia explicar de onde vinha aquela sensação, só sabia que, sempre que ela aparecia, meu corpo reagia primeiro. Como se estivesse tentando me avisar de algo que ainda não tinha acontecido.

Apesar de ser bastante frio e cheio de regras, o tio Harold era bem fácil de conviver. Bastava ser obediente, estudiosa, respeitar os horários, ele não reclamava em nada.

Eu já sabia exatamente o que dizer... e o que nunca dizer.

Mas, sempre que começavam as semanas de avaliações na universidade, ele fazia questão de limitar o meu contato, o meu celular ficava em silêncio e as portas, sempre fechadas.

Era apenas ida e volta para Harvard e apenas a Augusta, a governanta podia entrar e sair do meu quarto, mas, apenas para trazer água e as minhas refeições, afinal, ele também era bem rigoroso com a alimentação.

A universidade também era boa, mas, mesmo cercada de pessoas, eu ainda me sentia sozinha. Harvard tinha uma das melhores escolas de direito de todo o mundo, a Harvard Law School. E, apesar de ser difícil, mas era gratificante saber que me esforçar tanto poderia me render bons frutos no futuro.

E para completar, ainda era a mesma universidade onde os meus pais se conheceram e se formaram.

Novamente, eu tinha apenas uma amiga, a Siena.

Ela era o total oposto de mim, ria alto, enquanto eu pensava antes de respirar.

Siena só estava ali por uma promessa, e eu... por obrigação.

Ela era espontânea, alegre, e ia para a universidade apenas porque toda a sua família era composta por advogados, e ela também foi obrigada a seguir o mesmo caminho. Mas, hora ou outra vivia fazendo uma piadinha sobre os almoços de domingo em família, onde a pauta principal era "quem você defendeu dessa vez?"

Ela era esperta e inteligente demais para se permitir ser manipulada pela família para ser uma advogada, mas, prometeu ao avô antes dele morrer que iria direitinho as aulas e se tornaria uma boa advogada.

Mas, quem era eu para julgar, também faria o mesmo se tivesse um avô que me amasse tanto e me defendesse, assim como o avô da Siena a defendeu em vida.

No meu quarto ano em Boston o tio Harold descobriu que estava doente.

Foi a primeira vez que vi algo nele quebrar.

Ele começou a definhar diante dos meus olhos, logo as dores abdominais, a urina escura, os olhos e a pele ficaram amarelados, as náuseas e as dores nas costas.

Então, veio o diagnóstico, era câncer no pâncreas, em estágio III. A palavra ecoou na minha cabeça mais do que deveria.

O tratamento o fazia ficar ainda mais fraco. Um médico particular foi contratado para cuidar dele, pois ele não permitia nem mesmo em sua dor que eu me desviasse dos estudos para dedicar algum tipo de atenção a ele.

Com a quimioterapia os cabelos dele caíram, mas ele ainda tentava permanecer forte, dizendo que deveria ficar vivo para cumprir o que prometeu aos meus pais no túmulo deles.

O tio Harold, apesar de ser bem rigoroso e exigente, era uma boa pessoa. Era um bom amigo dos meus pais, e não me deixava faltar nada.

Ele estava morrendo aos poucos.

Foi só quando ele mal conseguia se levantar da cama que me permitiu me aproximar.

- Como estão os seus estudos? - ele perguntou enquanto eu limpava sua mão com uma toalha molhada.

A pele dele estava fria, frágil.Nada parecida com o homem que me controlava.

- Eu estou indo bem! - respondi - As minhas notas estão entre as três melhores da turma.

- Você é uma garota boa e obediente! - ele disse - Mas precisa de dedicar ainda mais, precisa estar em primeiro lugar agora que eu não estarei mais aqui.

- Tio Harold...

- Sem discursos motivadores! - ele me impediu de continuar - Você e eu sabemos bem que eu estou morrendo.

Meu estômago revirou, mas eu não chorei.

- Você é bem inteligente, sei que já percebeu que estou chegando ao fim. Ouça, Ivie, eu te pedi para vir hoje porquê preciso te contar que a sua tutela vai passar para outra pessoa, por isso precisa se esforçar mais.

Ele tossiu.

Peguei o lenço e o entreguei.

- Meu filho, Rowan Sloane, ele será o seu novo tutor! - ele disse após se acalmar

O nome soou pesado, estranho, como se carregasse alguma coisa que eu ainda não entendia.

- Ele é bem exigente e não gosta que o incomodem, por isso você precisa se comportar ainda melhor, você entendeu?

- Sim! - respondi - Eu serei obediente.

- Isso é bom! - ele sorriu. Foi a primeira vez que o tio Harold sorriu para mim.

Eu nunca havia visto o filho do tio Harold. Ele nunca visitava o pai.

E então, na metade do meu quarto ano em Boston, o tio Harold partiu, choveu bastante no enterro, e debaixo de uma árvore, havia uma sombra de alguém, as pessoas cochichavam dizendo que era o filho do tio Harold .

Ele não se aproximou do caixão.

Mas, por um segundo... ele levantou o rosto.

E, mesmo à distância, eu senti.

Ele estava olhando para mim.

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