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Capa do romance Inocência sob Suspeita

Inocência sob Suspeita

No Rio de Janeiro, os detetives Luís Oliveira e André Gonçalves caçam um serial killer que deixa penas de avestruz nas vítimas, aludindo ao julgamento egípcio de Maat. A investigação revela um desejo de vingança ligado a um crime antigo ocultado. O cenário se complica quando Luís se envolve com uma mulher misteriosa. Em um jogo perigoso, ele precisa descobrir se ela é a culpada pelos assassinatos ou se será o próximo alvo na lista do criminoso.
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Capítulo 3

O café estava amargo. Bárbara tomou mais um gole, torcendo o nariz, enquanto ouvia os intermináveis lamentos de sua melhor amiga, Lívia, com quem dividia o apartamento. Lívia era uma mulher jovem, nos seus vinte e oito anos, magra, estatura mediana e cabelos pintados de ruivo, em um tom que não intencionava enganar ninguém. Pela manhã, sempre reclamava da má sorte que tinha em relacionamentos. A ladainha se repetia e mudava apenas o nome do homem com quem, mais uma vez, acabara o namoro… Bárbara balançava a cabeça, positivamente ou negativamente, nos momentos que julgava conveniente.

Sorveu o café com outra careta:

– Impossível beber isto!

Levantou-se com um pedido de desculpas. Precisava se arrumar ou chegaria atrasada à escola.

Bárbara era uma mulher de vinte e oito anos, alta, rosto com traços finos e delicados, longos cabelos negros combinando com seus olhos. Seu falecido pai costumava brincar chamando-a de “feiticeira”. Seu pai… que estava sempre ocupado com trabalho, ainda assim, arranjava tempo para brincar com suas filhas. Bárbara tinha muito orgulho de seu velho pai, gostava de lembrar-se dele como era antes. O homem de rosto sério, perguntando como estavam as coisas na escola, se ia bem nos estudos…

Tudo ia bem até que...

Respirou fundo ao afastar as últimas lembranças de seu velho pai, tão diferente... bêbado, desiludido, nem sombra do homem que era...

Em breve, ela descobriria que ele não seria o único a chamá-la de feiticeira...

Havia chegado ao Rio de Janeiro há três meses para morar com sua amiga de infância, Lívia. Antes, Bárbara morava em Niterói e lecionava em um colégio particular, onde recebia um salário muito aquém de suas expectativas. Ao ser aprovada em um concurso público, mudou-se para Tijuca, zona norte do município do Rio de Janeiro e aquele era seu primeiro dia como professora de uma escola municipal.

Apesar de todo entusiasmo, pelo que considerava um recomeço de vida, o pesadelo que teve durante a noite a fez sentir-se estranha. Acordara pouco antes das quatro horas da manhã assustada, e não conseguiu recuperar o sono depois. Ficou deitada sem pregar os olhos, até que o relógio despertou e, enfim, se levantou. Tomou uma chuveirada fria, que acreditava ser revigorante.

Não gostou do seu reflexo no espelho, escovava seus longos cabelos perdida em pensamentos, o dia começou mal, não dormiu bem, seu cabelo não queria cair direito sobre a testa e o café… amargo.

– É… hoje vai ser um dia daqueles!

Desceu as escadas com pressa, não querendo chegar atrasada em seu primeiro dia de trabalho, e se deparou com uma placa indicando que o elevador estava em manutenção. Desceu as escada à passos rápidos, passou pelo portão sem nem mesmo cumprimentar o porteiro, foi correndo até o ponto de ônibus e conseguiu alcançá-lo a tempo, graças a um homem de meia-idade, um tanto acima do peso, que avisou ao motorista sobre a passageira que corria pela calçada.

Esbaforida, agradeceu:

– Olá, bom dia e muito obrigada! – Disse ao conseguir se sentar. Estava um pouco desequilibrada com o arranque que o motorista, aparentemente mal-humorado, deu ao colocar o ônibus novamente em movimento, sem responder ao seu cumprimento.

O homem que havia entrado antes e pedido ao motorista para esperar. estava sentado próximo à janela ao seu lado. Ele a olhava de maneira intensa, o que a fez se sentir constrangida. Estava acostumada com olhares masculinos, tinha conhecimento de sua aparência atraente e se incomodava pouco com os assédios que recebia, mas o olhar daquele homem ao seu lado a incomodava… Não era um simples olhar de interesse… Causou-lhe arrepios… E a sensação piorava por não conseguir identificar a razão.

– Oi, moça! Deu sorte, quase perdeu o ônibus!

– Sim, graças ao senhor alcancei a tempo, muito obrigada!

– Não precisa agradecer… – Ele ofereceu a mão para que se cumprimentassem. – Chamo-me Roberto, tenho a impressão que já a vi antes…

Bárbara sorriu. Perdia a conta das vezes que havia escutado aquela frase, pretensos conhecidos querendo puxar assunto…

– Creio que não, se o conhecesse, acho que me lembraria…

Abriu a bolsa ainda sorrindo e tirou um livro que já havia terminado de ler. Escolheu uma página aleatoriamente e fingiu estar interessada na leitura, tentando evitar a conversa, mas seu companheiro de viagem tinha outros planos:

– Gosta de Machado de Assis? Acabei de ler O Alienista. Sabe, acho mesmo que todo mundo seja louco, às vezes, pode ter um louco sentado ao seu lado e você nem se dá conta, ou uma louca, claro, não devemos ser sexistas quando se trata de gente louca, não concorda?

– Não sei se estou apta a classificar qualquer pessoa como louca ou não…– Respondeu sem se comprometer.

– Ah… nisso a senhorita (É senhorita, não é?) tem toda razão! Existem pessoas iguais a mim ou a você, que por alguma razão, se acham no direito de matar sem que a polícia jamais as alcance, e outras que se matam… Perdão falar assim, mas gosto muito desse assunto.

Houve um silêncio curto, quebrado novamente pelo homem:

– Então foi impressão minha, né? Nunca nos vimos?

– É... – Respondeu Bárbara secamente, mostrando o mau humor que havia adquirido com aquela conversa. Olhou para o delicado relógio em seu pulso: 06h30min, seu humor melhorou um pouco com a perspectiva de ainda ter tempo o suficiente para não se atrasar.

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