
Inferno de Laca Branca
Capítulo 3
João encontrou a pasta de couro sobre a mesa do escritório. Dentro, sabia que estavam os contratos de um novo fornecedor para o restaurante. Ele tentou abrir para verificar os detalhes, mas Maria entrou na sala naquele exato momento.
"Deixa isso aí, João. Eu já revisei tudo," ela disse, pegando a pasta da mão dele. Sua voz era calma, mas firme. Ela guardou a pasta em sua bolsa e pegou as chaves do carro. "Preciso resolver umas coisas da loja."
Ela saiu sem se despedir, sem o beijo rápido que costumava lhe dar. João sentiu um impulso de segui-la, de perguntar o que estava acontecendo, mas hesitou. Havia uma distância entre eles que ele não sabia como cruzar.
Ele observou da janela enquanto ela entrava no carro e se afastava. Ele se sentia estranho, como se estivesse perdendo algo que já não tinha. A indiferença dela era nova. Antes, cada abandono era seguido por dias de tristeza silenciosa, de olhares magoados. Agora, não havia nada. Nenhum ressentimento, nenhuma dor visível. Era como se ela tivesse se desligado dele completamente. Essa constatação o incomodava mais do que a raiva dela jamais o incomodou.
Naquela noite, quando ele voltou do restaurante, encontrou-a no quarto, dobrando roupas e colocando-as em uma mala. O coração dele acelerou.
"O que você está fazendo?" ele perguntou, tentando manter a voz casual.
"Arrumando umas coisas para uma viagem," ela respondeu, sem olhá-lo.
Ele se aproximou, abraçando-a por trás, apoiando o queixo no ombro dela. Ele sentiu o corpo dela enrijecer com seu toque.
"Eu sinto sua falta," ele sussurrou, beijando seu pescoço. Era uma mentira, ele não sentia falta dela, sentia falta da adoração dela.
"Não me toque, João," ela disse, a voz cortante. Ela se desvencilhou dele. "Estou cansada. Tive um dia longo."
Era uma desculpa clara, um afastamento deliberado.
"Me desculpe por ter andado ausente," ele disse, tentando soar sincero. "As coisas no restaurante têm sido uma loucura. E com a Sofia precisando de ajuda..."
"Você não precisa se desculpar, João," ela o interrompeu. "Eu entendo suas prioridades." A frase era neutra, mas carregada de um significado que o fez estremecer.
"Eu vou compensar você, prometo," ele disse, sem jeito. "Assim que essa fase passar, vamos viajar, só nós dois."
Ela o olhou pela primeira vez naquela noite, um olhar vazio, desprovido de qualquer emoção. "Você sempre diz isso."
A verdade naquelas palavras o deixou sem resposta. O silêncio se instalou entre eles, pesado e desconfortável. Ele sabia que era culpado, mas admitir isso era admitir que Sofia o controlava, e seu orgulho não permitia.
"Vou tomar um banho," ele disse, apenas para quebrar o silêncio. "Você quer que eu peça alguma coisa para a gente comer?"
Era uma tentativa patética de normalidade, um gesto de cuidado que agora soava oco.
"Não, obrigada. Já comi," ela respondeu, voltando a arrumar sua mala.
A rejeição foi clara, um pequeno ato de independência que o desestabilizou. Ela sempre esperava por ele. Sempre.
Ele foi para o banheiro e, ao abrir o armário, notou algo diferente. O lado dele estava mais organizado do que o normal. Suas loções pós-barba e colônias estavam alinhadas. Ele pegou um dos frascos. Era um perfume novo, amadeirado, forte. Ele não se lembrava de tê-lo comprado. Então, ele se lembrou. Sofia disse que adorava aquele cheiro nele. Ela o levara para comprar na semana anterior.
Seus produtos, suas roupas, até mesmo a marca de café que ele estava bebendo ultimamente. Tudo tinha a influência de Sofia. Ele estava se tornando uma versão de si mesmo moldada pelas preferências dela, e Maria estava percebendo tudo.
Uma pequena caixa de veludo azul estava faltando em sua gaveta de relógios. Dentro, deveria haver um par de abotoaduras de safira que Maria lhe dera em seu primeiro aniversário de casamento.
"Maria, você viu minhas abotoaduras azuis?" ele perguntou, saindo do banheiro.
"Não," ela respondeu, sem desviar a atenção da mala. "Talvez você as tenha perdido."
"Não, eu sempre as guardo aqui. Tenho certeza que estavam aqui," ele insistiu.
"Pergunte à Sofia," Maria disse, a voz baixa. "Ela parece saber onde estão todas as suas coisas ultimamente."
A acusação era velada, mas direta. João se lembrou de ter usado as abotoaduras no jantar com Sofia na noite anterior. Ele devia tê-las esquecido no apartamento dela. A displicência com o presente de Maria e a facilidade com que ele se cercava das coisas de Sofia eram uma prova irrefutável de sua traição emocional.
"Não seja ridícula," ele disse, a voz mais áspera do que pretendia.
Maria finalmente fechou a mala e se virou para ele. Havia uma calma assustadora em seus olhos.
"Sabe, João, pode ficar com as abotoaduras. Eu não me importo mais," ela disse. "Na verdade, eu não me importo com mais nada que venha de você ou que vá para você."
A declaração foi como um soco no estômago. Era uma renúncia, não apenas às abotoaduras, mas a ele, ao casamento deles. Era a liberdade dela sendo declarada em voz alta.
No fim de semana, eles foram a uma festa na casa de amigos. Mal chegaram e Sofia já estava lá, grudada no braço de um empresário qualquer. Mas seus olhos estavam em João.
"João, querido, você não vai acreditar!" ela disse, em voz alta o suficiente para que todos ouvissem. "Lembrei que você tem aquela degustação super importante na terça-feira. Já confirmei com o seu assistente que sua agenda está livre para o nosso almoço de planejamento na segunda. Precisamos definir o cardápio."
A demonstração de intimidade era descarada. Ela não estava apenas mostrando a Maria que controlava a vida profissional de João, estava anunciando isso a todo o círculo social deles. Maria sentiu os olhares de pena e curiosidade sobre ela, mas manteve a expressão neutra. O show de Sofia não a atingia mais. Era apenas a confirmação do que ela já sabia. Seu casamento era uma farsa pública. E o divórcio, sua libertação privada.
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