
Indomável Paixão
Capítulo 3
Kiara nunca se importou tanto com sua aparência como naquela noite. Tudo o que queria era estar deslumbrante e atrair o máximo de atenção que conseguisse. Parecia supérfluo, mas seu orgulho assim exigia.
Escolheu um simples vestido preto de mangas compridas que colava em suas curvas como uma segunda pele. Ele ia ate o meio de suas coxas e era totalmente liso de detalhes, até ela virar de costas, onde havia uma renda sensual na altura dos ombros e cintura, emodurando as costas, que ficavam nuas.
Kiara colocou um belo colar dourado, com correntes mais grossas, e um brinco de argola que fazia par ao colar. Nos pés, sandalias pretas de tira simples e salto agulha transparente e uma bolsa de mão preta completava o look.
Seus longos cabelos castanhos estavam presos num rabo de alto. Seus olhos cor de âmbar eram destacados pelo esfumado da maquiagem. E o perfume que havia escolhido para aquela noite era de uma fragrância floral, porém suave.
Mirando-se no espelho ficou satisfeita com o que viu. Não que estivesse se arrumando para Korsac, mas queria mostrar que ele estava errado quanto ao que disse na boate.
Por volta das oito da noite, Kiara terminava de se arrumar indo dar uma força para Íris, que estava tendo problemas para decidir com que roupa iria à festa. Acabou optando por um vestido verde que combinava com as mechas vermelhas em seu belo cabelo negro.
Às oito e meia, vendo que Íris continuava enrolada, Kiara resolveu se adiantar e chamando um táxi se dirigiu ao local da festa. Preferiu não esperar por Korsac. Não queria e nem precisava de escolta. Muito menos de alguém arrogante pertencente à família que destruíra a vida da pessoa mais importante em sua vida.
ooOoo
As festas organizadas pela Reitoria de Harvard eram lendárias e muito restritas. Pouquíssimas pessoas tinham acesso a elas. Somente pessoas influentes ou com muito dinheiro eram convidadas, além de poucos alunos que ingressariam nos programas. Mas esse não era o caso de Kiara. Um amigo, veterano no curso de Arquitetura que ela tanto almejava, conseguiu um convite para Íris e ela irem. Sua presença naquela festa era uma ajuda imprescindível para ser admitido nos programas de Mestrado e conseguir bons orientadores.
Antes da balada seria servido um jantar formal onde todos poderiam se conhecer melhor. Cada lugar era previamente determinado. E qual não foi a surpresa de Kiara ao descobrir que se sentaria ao lado de William. Uma dor de cabeça já ameaçava despontar só de imaginar o que o excêntrico rapaz faria naquela noite. Meio a contragosto sentou-se em seu lugar, olhando para o lugar vazio ao seu lado. Percebeu então o alvoroço entre os convidados e ouviu o nome de Korsac sendo pronunciado em voz alta por um grupo de homens engravatados, provavelmente os patrocinadores da festa.
Forçando-se a permanecer imóvel, espiou com o canto dos olhos a imagem imponente de Nikolaos enquanto ele se aproximava. Espantou-se ao vê-lo acomodar-se na cadeira, do lado oposto da mesa, bem à sua frente. Sabia que aquele não era o lugar reservado a ele, uma vez que se tratava de uma figura de destaque.
Kiara piscou duas vezes, quase não acreditando na elegância e sensualidade que ele apresentava. E, a julgar pelos sussurros, não tinha sido a única a notar. Nik usava terno e calça cinza chumbo com alguns detalhes negros e uma camisa branca impecável. Para completar, usava abotoaduras em formato de dragão. Kiara engoliu em seco. O homem do outro lado era mesmo de tirar o fôlego!
O par de olhos negros de Nik revirava-se nas órbitas, como se não quisessem perder nenhum detalhe ao seu redor. Parecia não se importar com os olhares e cochichos. Na verdade, parecia apreciá-los.
Naquele instante um dos principais diretores da Universidade tomou seu lugar na cabeceira da mesa e deu por iniciado o jantar. Garçons uniformizados serviam os mais variados tipos de comida. Tudo regado a muito vinho branco e champanhe.
O número de pessoas presentes era impressionante para um evento de cunho didático. Apesar do ambiente mais erudito, muito negócios eram fechados entre a Universidade e empresas importantes.
Kiara não imaginava onde William estava. E também não estava preocupada. O que realmente a perturbava era aquele par de olhos escuros que a observavam, quase que indiscretamente.
O som de taças de cristal sendo servidas e o barulho de talheres, além dos sussurros entre os convidados, de repente, começou a incomodar Kiara, que se viu isolada e solitária em meio a tantas pessoas desconhecidas. Arrependeu-se de não ter esperado Íris, pois pelo menos teria com quem conversar. Ela também se sentia desconfortável com os toques "acidentais" do homem acomodado à sua direita, além do olhar fixo de Nik, atento ao menor gesto que fizesse.
"Não poderia ser pior", – pensou enquanto levava a taça com vinho branco aos lábios sorvendo um pouco do conteúdo.
Mas estava enganada...
– Estou tão decepcionado com você, Kiara.
A voz de William precedeu-lhe a aproximação. Sua expressão estava carregada, denotando um misto de tristeza e contrariedade. Kiara observou como ele estava bonito vestindo uma camisa vermelha sob o terno preto. Seus naturais cabelos loiros estavam brilhantes e alinhados.
"Realmente faríamos um belo casal", – Kiara pensou enquanto William acomodava-se ao seu lado, no lugar previamente determinado.
– Nem sequer foi direta comigo. Como teve coragem? – Will continuou em um tom melancólico e revoltado.
– Não sei do que está falando, William. – a expressão de Kiara era de total confusão.
O loiro jogou um papel dobrado, próximo a um dos talheres dela. Kiara fechou os olhos respirando fundo, desolada.
"William não tem jeito", – lamentou em pensamento. Tornou a abrir os olhos e apanhou o papel.
Tratava-se de outra caricatura envolvendo Korsac. No desenho o Dragão carregava o Ratinho sobre o ombro e fugia pelos ares ostentando uma expressão de vitória, enquanto um Pavão corria desesperado, tentando alcançá-los.
– E então? – perguntou William, entortando a boca com indignação.
– O caricaturista não é dos melhores. – Kiara respondeu em tom baixo, dando de ombros.
– Está negando os fatos? – O loiro perguntou veemente.
– Não vale a pena desperdiçar tempo com isso – Kiara respondeu calmamente, repondo o papel na mesa.
– Será que posso? – a voz de Nikolaos foi ouvida, enquanto esticava o braço por cima da mesa, para alcançar o papel.
Kiara se surpreendeu pela descompostura do gesto. Então percebeu que os lábios do moreno se estreitaram ao contemplar o desenho.
– Então, eu venci? – indagou Nik sem se dirigir a alguém em particular. A seguir mostrou a caricatura para a jovem sentada ao seu lado direito.
Kiara fechou os olhos ao perceber que o papel estava sendo passado de mão em mão, provocando risos e comentários.
– Se queria me magoar, garanto que conseguiu Kiara – queixou-se Will.
– E se pretendia acabar com a minha reputação na Universidade, teve êxito – Kiara respondeu entre os dentes.
– Não era minha intenção. Mas agora estou considerando a possibilidade. – William foi extremamente seco.
– Aquele desenho não significa nada. Hoje quando eu estava indo ao encontro do grupo de estudos acabei encontrando com o Korsac. Apenas conversamos. Foi só isso. – Kiara procurou de todas as formas acalmar os ânimos de Will.
– Pelo que me lembro, você disse que não valia a pena desperdiçar tempo com explicações. – Will se fixou nos olhos de Kiara, todo o sarcasmo evidente em sua voz.
– E não vale.
– E pensar que até a noite de ontem você nem o conhecia... – O loiro olhou para seu prato, suspirando.
– O que quer dizer com isso? – a morena elevou a voz, indignada.
– Você sabe muito bem. – Will voltou a encarar a mulher ao seu lado.
Kiara respirou fundo, tentando se acalmar. A discussão estava começando a chamar a atenção, e tudo o que menos queria era prejudicar sua imagem diante dos administradores da Universidade.
Com as mãos trêmulas pegou a taça de vinho, tomando um longo gole antes de responder:
– Não, Will, eu realmente não sei o que você quis dizer com isso.
– Você sabe sim – a intensidade do olhar de William era constrangedora – Não estou brincando. Desejo mais do que sua amizade.
– Sabe que não é possível, Will. Sinto muito – Kiara disse, repousando uma das mãos no braço dele em um gesto amigável.
O que ela não esperava era que William lhe aprisionasse a mão com o braço livre.
– Sempre me desprezou Kiara, apesar das inúmeras tentativas que fiz para lhe agradar – falava enquanto apertava o pulso delicado em uma carícia. – Desde que te conheci não consigo parar de pensar em você. Eu me aproximo na esperança de poder ficar por poucos instantes ao seu lado, mas até isso você me nega. E nem um simples beijo ou carícia recebi de você. Sabe o que isso significa para mim? E, se eu a encontrar em outros braços, juro que perco a cabeça.
Kiara engoliu em seco. Não queria responder e arriscar-se a uma cena desagradável. Tudo o que conseguiu fazer foi puxar a mão livrando-se do contato.
– Não subestime um homem apaixonado – William ameaçou e levantando-se repentinamente, abandonou o local.
Kiara nunca desconfiou da intensidade dos sentimentos de William. Para ela era algo passageiro, fogo de palha. Agora que sabia, não tinha a menor idéia do que faria a respeito.
Durante toda a cena, Kiara não percebeu que era observada com atenção por um par de belos olhos negros.
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