
Humilhação e Recomeço
Capítulo 3
"É um relógio que vale duzentos mil" , Lucas continuou, sua voz alta para que todos pudessem ouvir. Ele estava saboreando cada momento, se alimentando da minha humilhação. "Para você, é uma fortuna. Para mim, é só um acessório. Mas eu odeio ladrões."
Ele me pintava como um pobre coitado desesperado, e a frase de Ana sobre a minha mãe tinha sido o toque final na sua obra-prima de crueldade.
Reuni a pouca força que me restava.
"Isso é difamação, Lucas. Se você insistir nessa acusação ridícula, eu vou chamar a polícia."
Eu esperava que a menção da polícia o assustasse, que o fizesse recuar. Mas ele apenas riu, uma risada debochada que fez meu sangue ferver.
"Polícia? Ótima ideia. Assim eles podem te prender em flagrante."
Antes que eu pudesse reagir, ele agarrou a alça da minha mochila com força e a puxou das minhas costas. Ele a virou de cabeça para baixo, e todo o meu mundo caiu no chão de mármore polido.
Um casaco velho, um sanduíche meio comido, minhas chaves, uma carteira barata. E, espalhados entre tudo, os papéis brancos que eram meu pesadelo diário.
As contas do hospital. Os pedidos de exame da minha mãe. O diagnóstico de insuficiência renal crônica em letras pretas e frias.
As pessoas olharam para os papéis, depois para mim. Seus olhares não eram de pena, mas de confirmação. Ali estava o motivo. Ali estava a prova da minha desesperança.
E então, com um baque metálico que soou como um tiro no salão silencioso, o relógio de luxo caiu no chão. O Patek Philippe prateado, brilhando sob as luzes da festa, bem ao lado dos papéis da doença da minha mãe.
A cena era perfeita. O ladrão pobre, o motivo nobre, o objeto do crime. A armadilha havia se fechado.
Um suspiro coletivo percorreu a sala. "Ele realmente roubou." "Inacreditável." "Pego em flagrante."
Meu cérebro demorou um segundo para processar. Aquele relógio não estava na minha mochila. Eu nunca o tinha visto de perto na minha vida. O choque deu lugar a uma clareza gelada.
"Foi você" , eu disse, minha voz baixa e trêmula de raiva, olhando diretamente para Lucas. "Você colocou isso aí."
Ele deu de ombros, fingindo inocência. "Eu? Por que eu faria isso?"
Minha mente correu, procurando uma saída, uma prova.
"As câmeras. O salão está cheio de câmeras de segurança. Vamos ver as gravações agora."
Era a minha única chance. A tecnologia imparcial contra a mentira humana. Por um momento, vi um lampejo de pânico nos olhos de Lucas. Mas ele se recuperou rapidamente.
Ana, que até então observava tudo com uma distância calculada, fez um sinal para o gerente de segurança. O homem, nervoso, correu para uma pequena sala no canto do salão.
A espera foi torturante. Todos os olhos em mim. Eu me sentia nu, dissecado.
O gerente voltou, o rosto pálido. Ele se dirigiu a Ana, evitando meu olhar.
"Senhorita CEO, a câmera que cobre aquela área… o cabo de força foi desconectado. Não gravou nada na última hora."
Lucas soltou uma risadinha.
"Desconectado? Que conveniente. Você pensou em tudo, não é, Miguel? Além de ladrão, é esperto."
Ele se abaixou, pegou o relógio do chão e o limpou teatralmente na manga do seu terno caro. O caso estava encerrado. Eu era culpado.
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