
Herança Roubada: Família Aniquilada
Capítulo 3
Ana Clara escapou da mansão de Pedro Henrique sob o manto da madrugada. O ar frio da manhã a fez tremer, mas não era o frio que a incomodava. Era a urgência. Ela precisava recolher os últimos vestígios de sua família, as pequenas coisas que sobraram na casa que um dia foi seu lar.
Tudo de valor já havia sido levado, vendido, liquidado por Pedro Henrique. Ela não queria joias ou móveis. Ela só queria pegar algumas peças de roupa, um livro, o xale de tricô de sua mãe. Coisas pessoais, sem valor monetário, para que seus pais e sua irmã não sentissem frio ou falta de roupas "do outro lado" . Era um pensamento infantil, desesperado, mas era tudo o que lhe restava.
Quando se aproximou da antiga fazenda, um som atingiu seus ouvidos e apertou seu coração. Risadas. Vozes altas e animadas. E, acima de todas, a voz de Pedro Henrique, ressoando com uma autoridade cruel que a fazia sentir náuseas.
A casa de sua família estava iluminada, cheia de gente. Um leilão. Ele estava leiloando até os restos, os destroços de suas vidas.
Ela parou, escondida pelas sombras de uma velha mangueira. A raiva e a dor lutavam dentro dela, deixando-a paralisada.
Pedro Henrique, que fumava um charuto caro na varanda, a viu. Seu sorriso se alargou, um sorriso de predador.
Ele fez uma pausa e a chamou, a voz carregada de falso espanto.
"Ora, ora, vejam só! A órfã da família também veio para o leilão dos pertences de seus parentes?"
Ana Clara cerrou os punhos com tanta força que as unhas cravaram em suas palmas. A garganta estava seca, as palavras presas. Ela não conseguia acreditar na crueldade que ouvia.
"O que você disse, Pedro Henrique?" , ela conseguiu finalmente sussurrar, a voz rouca. "Aqueles também eram seus sogros. Sua cunhada."
Os olhos de Pedro Henrique ficaram frios, o divertimento desaparecendo para dar lugar a um gelo cortante.
"Quando sua família estava usando a minha para ganhar boa fama na cidade, eles não pensavam que eu era um bom genro. Eles pensavam que eu era uma posse."
Dito isso, ele se virou e abraçou uma mulher deslumbrante que estava ao seu lado, uma das muitas que agora habitavam sua vida.
"Mariana, peça o que quiser. Hoje eu estou generoso."
No palco improvisado montado no jardim, o leiloeiro exibia um par de brincos de pérola e um pente de prata. Eram de sua mãe. Ana Clara sentiu as lágrimas queimarem seus olhos.
A garota, Mariana, com os olhos brilhando de cobiça, levantou sua placa sem hesitar.
"Cinco milhões de reais! Pedro, eu quero isso!"
Outra garota, mais jovem, fez um bico e puxou a manga de Pedro Henrique, os olhos cheios de lágrimas fingidas.
"Mana, você pode deixar pra mim? Eu também gostei tanto!"
Pedro Henrique riu alto, um som que parecia rasgar o ar.
"Calma, meninas. Mariana, você é a mais nova aqui, Clara cede para você, e o próximo item eu te dou, ok?"
Ele se virou para a multidão de mulheres que o cercava.
"Meninas, peçam o que quiserem! Se não conseguirem dar o lance, venham falar comigo, eu ajudo vocês a conseguirem o que o coração mandar!"
Assim que ele terminou de falar, as garotas vibraram, um frenesi de placas levantadas e lances competitivos. As joias e as roupas de seus pais, cada peça carregada de memória, foram rapidamente arrematadas por estranhas que riam e se exibiam. Ana Clara ficou ali, impotente, assistindo ao desmembramento de seu passado.
Então, o leiloeiro trouxe o próximo item. A humilhação atingiu um novo nível, um poço de degradação que Ana Clara não imaginava existir.
Era uma peça íntima de sua irmã.
"Senhores, e agora, uma preciosidade!" , anunciou o leiloeiro com um sorriso lascivo. "E vem com um vídeo extra. Lance inicial de dez milhões de reais!"
Vários playboys na plateia levantaram suas placas imediatamente, um desejo doentio brilhando em seus olhos. As mulheres ao redor de Pedro Henrique reviraram os olhos com desdém.
"Hoje em dia, a calcinha de qualquer uma vale uma fortuna! Eu não quero! Tenho medo de pegar alguma doença!"
Mas Clara, uma das favoritas de Pedro, sorriu vitoriosa e se virou para ele.
"Pedro, por que você não compra isso e dá para a Ana Clara? Ela não tem mais dinheiro, deve estar sem roupa nenhuma! É melhor usar as da irmã do que comprar coisa barata por aí."
Pedro Henrique sorriu, um sorriso lento e cruel, olhando diretamente para Ana Clara com um desprezo avassalador.
"Boa ideia, Clara. Eu compro."
Ele deu o lance vencedor. O leiloeiro entregou a peça a ele. Pedro Henrique a pegou pela ponta, com dois dedos, como se tocasse em algo sujo. Ele caminhou até Ana Clara.
E jogou a peça na cabeça dela, junto com um pequeno pendrive.
"Já que está falida, leve isso e aprenda. Talvez um dia você precise disso para ganhar a vida."
Ana Clara riu, um som seco e quebrado. A dor em seu peito, a dor física do fragmento de madeira, intensificou-se.
"Eu disse que tinha medo de sentir dor" , ela sussurrou, as palavras mal saindo. "E você prometeu me ser fiel. Como pode dizer uma coisa dessas agora?"
Pedro Henrique zombou, o rosto se contorcendo em uma careta de nojo.
"Você está louca? Eu disse que ia me dedicar a você porque eu não queria te tocar! Eu sentia nojo de você, nojo! Inventei uma desculpa qualquer, e você, a tola, acreditou?"
A ferida em seu coração, que já estava dilacerada, doeu. Doeu tanto que o mundo girou e ela quase desmaiou. A dor no coração realmente tinha um som, um som de algo se partindo para sempre.
Ela se agachou, pálida, segurando o peito com força.
Pedro Henrique e seu grupo de mulheres riram e passaram por cima dela, como se ela fosse um obstáculo no caminho.
"Para de se fazer de coitadinha. As únicas pessoas no mundo que teriam pena de você já morreram."
Eles estavam se afastando quando a voz dela, fraca mas firme, os parou.
"Esperem."
Ana Clara se levantou, apoiando-se na árvore. Seus olhos estavam fixos no palco.
"O próximo item, eu compro."
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