
Gravidez, Traição e Renascimento Feminino
Capítulo 3
A clínica era silenciosa e decorada em tons pastéis, um esforço para acalmar os nervos dos pacientes. Mas para Sofia, o ambiente parecia estéril e frio. Ela estava sentada em uma poltrona de couro, as mãos entrelaçadas sobre o colo, o olhar fixo em um ponto qualquer da parede. A decisão, tomada na noite anterior em um acesso de clareza gélida, agora pesava sobre ela com uma realidade esmagadora.
Dra. Lúcia, a médica que a acompanhou durante todo o processo de fertilização, sentou-se à sua frente. Seus olhos, normalmente cheios de otimismo profissional, agora continham uma profunda preocupação.
"Sofia, eu recebi sua ligação. Eu preciso perguntar de novo: você tem certeza absoluta disso?"
A voz da médica era gentil, mas firme.
"Eu sei o quanto você lutou por essa gravidez. Nós lutamos juntas. Abortar agora... é uma decisão irreversível."
Sofia ergueu os olhos e encontrou o olhar da médica. Não havia lágrimas, apenas uma determinação sombria.
"Eu lutei por uma família, doutora. Não por um elo com um homem que me traiu e humilhou. O que eu carrego aqui," ela pousou a mão sobre o ventre, "deixou de ser um sonho. Tornou-se uma âncora que me prende a uma vida de mentiras. Eu preciso cortar essa âncora para não afundar."
Dra. Lúcia suspirou, reconhecendo a dor por trás da firmeza. Ela sabia que não era seu papel julgar, mas o lado humano de sua profissão tornava a situação difícil. Ela tinha visto a alegria de Sofia quando o teste de gravidez deu positivo, a esperança renovada a cada ultrassom. Ver tudo isso desmoronar era desolador.
"Eu entendo. Ou melhor, eu tento entender a sua dor," disse a médica, pegando os formulários de consentimento. "Vamos agendar o procedimento para a próxima semana. Preciso que você assine aqui."
Sofia pegou a caneta. A mão dela não tremeu. Cada letra de sua assinatura era um passo para longe de Pedro, para longe da mulher que ela tinha sido.
Enquanto preenchia a papelada, seu celular vibrou na bolsa. Era uma mensagem de Pedro. Ela abriu, o coração endurecido.
"Estou indo para um happy hour com o pessoal do escritório. Não me espere para o jantar. Não se esqueça de comprar meu vinho preferido para o fim de semana, o estoque acabou."
A banalidade da mensagem era um insulto. Ele estava com ela, com Camila, celebrando sua vida dupla enquanto Sofia assinava os papéis para apagar o último vestígio do futuro que eles supostamente construiriam juntos. Ela não respondeu. Apenas deletou a mensagem.
Minutos depois, outra notificação. Um número desconhecido. Uma foto.
Era Camila, sorrindo para a câmera do celular. Ela estava no banheiro do apartamento de Sofia e Pedro. Inconfundível. O papel de parede, os frascos de perfume de Sofia na bancada. Camila usava um dos robes de seda de Sofia, ligeiramente aberto, insinuante. A legenda era curta e venenosa.
"Ele diz que seda fica melhor em mim. E que meu cheiro é mais excitante que o seu."
A provocação era tão direta, tão vil, que por um momento Sofia sentiu o ar lhe faltar. A invasão de seu espaço mais íntimo, a apropriação de suas coisas, a crueldade calculada. A antiga Sofia teria chorado, teria se sentido diminuída. A nova Sofia sentiu a raiva se transformar em combustível.
Ela não respondeu com raiva. Ela respondeu com poder. Digitou uma resposta rápida, sem emoção.
"Fique com o robe. Fique com o homem. Restos não me interessam. Aproveite bem a vida que você está roubando. Você vai precisar de sorte."
Antes que Camila pudesse responder, Sofia bloqueou o número. Ela se levantou, entregou os papéis assinados para a recepcionista da Dra. Lúcia e saiu da clínica. O ar de São Paulo nunca pareceu tão poluído. Ela caminhou pela rua, a cabeça erguida. O procedimento estava marcado. O contato com Pedro, rompido em seu coração. A guerra estava apenas começando, e ela não seria mais a vítima. Ela seria a estrategista.
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