
Grávida, Traída e Buscando Minha Vingança
Capítulo 2
Ponto de Vista: Heloísa
Passei a noite apagando-o metodicamente. Deletei cada foto, cada mensagem, cada vestígio digital dos nossos cinco anos juntos. Depois, peguei meu notebook e comecei a atualizar meu currículo, candidatando-me a todos os escritórios de advocacia de primeira linha que um dia recusei por ele. Foi um processo frio e robótico, minha dor guardada em uma caixinha arrumada no canto da minha mente.
Na manhã seguinte, meu celular vibrou com um número desconhecido. Quase ignorei, mas uma ponta de curiosidade mórbida me fez atender.
A voz era inconfundível. Antônio Medeiros. O pai de Caio.
— Heloísa — disse ele, seu tom tão nítido e frio quanto uma manhã de inverno. Sem cumprimentos, sem preâmbulos. — Esteja na fazenda em uma hora. Precisamos conversar.
Ele não esperou por uma resposta. A linha ficou muda.
Um arrepio de apreensão percorreu minha espinha. Não era um pedido; era uma intimação. Eles sabiam. Eu não tinha certeza do que eles sabiam — sobre a clínica, sobre minha descoberta, sobre o bebê — mas estavam se preparando para a batalha.
A antiga Heloísa teria ficado apavorada. Mas a antiga Heloísa se foi, reduzida a cinzas na sala de espera daquela clínica. Uma calma estranha e gélida se instalou sobre mim. Eu não ia fugir. Eu ia entrar direto na cova dos leões e enfrentá-los.
Quando cheguei à propriedade dos Medeiros em um condomínio fechado no interior de São Paulo, o silêncio opressivo foi a primeira coisa que me atingiu. O grande hall de entrada, geralmente movimentado com funcionários, estava parado. O clã Medeiros inteiro estava reunido na sala de estar formal: Antônio em sua poltrona que parecia um trono, a mãe de Caio, Eleonora, sentada no sofá ao lado dele, e suas duas irmãs os flanqueando como sentinelas.
E de pé ao lado de Eleonora, com a mão apoiada no ombro da mulher mais velha em um gesto de familiaridade íntima, estava Catarina Yang. Ela usava um vestido de caxemira creme, a imagem perfeita da elegância recatada. Uma futura senhora da mansão.
Ela me deu um pequeno sorriso de pena quando entrei. Era o mesmo olhar triunfante que eu tinha visto na clínica.
Ignorei todos eles, meu olhar varrendo a sala antes de escolher uma poltrona diretamente oposta a Antônio, forçando-o a me olhar de frente. Sentei-me, cruzei as pernas e esperei.
O silêncio se estendeu, denso de hostilidade não dita.
— Você foi uma... distração para o meu filho por cinco anos, Heloísa — Eleonora finalmente disse, sua voz pingando desdém. — Esse tempo acabou.
O sorriso de Catarina se alargou. Ela apertou o ombro de Eleonora afetuosamente.
— Estamos preparados para ser generosos — Antônio interveio, sua voz plana e profissional. — Pelo seu tempo e... serviços. Daremos a você um cheque de cinco milhões de reais. Em troca, você assinará um acordo de confidencialidade e desaparecerá da vida de Caio. Permanentemente.
Cinco milhões de reais. O preço que eles colocaram em cinco anos da minha vida. No meu amor. No neto deles.
A calma gélida dentro de mim começou a rachar, substituída por uma fúria que queimava lentamente.
— Onde está o Caio? — perguntei, minha voz firme, não traindo nenhum do tumulto interior. — Quero ouvir isso dele.
— Catarina está grávida — anunciou Eleonora, como se isso explicasse tudo. — Eles vão se casar no próximo mês. Caio tem um dever para com sua família e para com seu filho — seu filho legítimo.
A palavra legítimo foi um golpe deliberado e calculado. Senti o impacto, mas me recusei a mostrar a ferida.
— Vou perguntar mais uma vez — eu disse, minha voz baixando. — Onde está o Caio?
— Sua pequena insolente... — Eleonora começou, seu rosto se contorcendo de fúria, mas uma comoção na porta a interrompeu. Uma empregada apareceu, parecendo nervosa.
— O Sr. Caio está a caminho, senhora. Ele chega em cinco minutos.
O pânico brilhou nos olhos de Eleonora. Ela trocou um olhar com Antônio. Isso não fazia parte do plano deles. Eles me queriam fora antes que ele chegasse.
— Tirem-na daqui — Eleonora sibilou para os dois seguranças corpulentos que estavam perto da porta.
— Espere — disse Catarina, sua voz suave como seda. — Os estábulos são muito perto da entrada principal. Ele vai ver o carro dela. Levem-na para os canis nos fundos da propriedade. Ele nunca vai lá.
Vi o brilho de pura malícia em seus olhos e entendi. Ela não estava apenas tentando me esconder. Ela sabia do meu medo de infância de cães, um medo tão severo que era quase uma fobia. Uma história que Caio provavelmente contou a ela em um momento de intimidade descuidada.
Os guardas agarraram meus braços. Lutei, meu coração se apertando com um terror que era totalmente separado da devastação emocional das últimas vinte e quatro horas.
— Não! Não!
Eles eram muito fortes. Arrastaram-me por uma porta lateral, meus saltos fincando inutilmente no gramado bem cuidado. Os latidos começaram antes mesmo de chegarmos ao portão de ferro forjado dos canis. Era um coro de rosnados profundos e ameaçadores. Dobermans. Os cães de guarda premiados dos Medeiros.
Eles me empurraram para dentro do cercado e trancaram o portão atrás de mim. O fedor de animal e terra úmida era avassalador. Três Dobermans pretos e elegantes começaram a me circular, seus dentes à mostra, rosnados baixos vibrando em seus peitos.
Meu sangue gelou. Recuei lentamente, minha respiração presa na garganta.
Um deles avançou.
Uma dor lancinante subiu pela minha perna quando seus dentes cravaram na minha panturrilha. Gritei, tropeçando para trás, caindo com força no chão lamacento. Os outros dois cães se aproximaram, rosnando, seu hálito quente no meu rosto.
E então, através da névoa de terror e dor, ouvi a voz dele. Caio. Ele estava chamando meu nome da direção da casa.
— Helô? Você está aqui?
Uma esperança desesperada e primitiva surgiu dentro de mim. Ele estava aqui. Ele me salvaria.
Mas então ouvi a voz de Catarina, doce e preocupada.
— Caio, querido, o que foi? Eu vi o carro dela saindo quando cheguei. Ela pegou o cheque e foi embora. Disse que sentia muito pelo incômodo.
Houve uma pausa. O mundo prendeu a respiração.
— Ela... ela simplesmente foi embora? — A voz de Caio estava carregada de uma incredulidade que estilhaçou o que restava do meu coração. — Sem nem falar comigo?
— Sinto muito, querido — Catarina arrulhou. — Ela não é uma de nós. Sempre soubemos disso.
Ouvi o som de seus passos se afastando, o murmúrio de suas vozes desaparecendo enquanto caminhavam de volta para a casa juntos.
Ele acreditou nela.
Sem um momento de hesitação, ele acreditou nela.
O cão avançou novamente, seus dentes se fechando no meu braço. O mundo se dissolveu em um vórtice de dor e latidos e o som nauseante e destruidor da alma do homem que eu amava se afastando.
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