
Grávida e Traída, a Esposa Inútil era um Génio Médico
Capítulo 2
A luz da manhã que filtrava para a suíte principal era cinzenta e implacável. Cortava através das frestas das cortinas, atingindo Alexandre Valente diretamente nos olhos.
Ele gemeu, virando-se e enterrando o rosto na almofada. A cabeça latejava. O stress da noite anterior, a visita ao hospital, as lágrimas de Escarlate, o prazo da fusão - tudo pesava nas suas têmporas.
Estendeu a mão cegamente em direção à mesa de cabeceira. Esperava o calor de uma caneca de cerâmica. Eva trazia-lhe sempre café preto, exatamente às 6:30 da manhã. Fazia parte da engrenagem da vida dele. O café aparecia, as roupas estavam dispostas, a agenda sincronizada.
A mão dele não encontrou nada além de ar fresco.
Alexandre franziu a testa. Tateou a superfície. Vazia.
Abriu os olhos, semicerrando-os contra a luz. Sentou-se, uma irritação a crescer no peito.
Eva? chamou. A voz estava rouca de sono.
Silêncio.
O silêncio era diferente esta manhã. Não era a quietude de uma casa bem ordenada. Era o vazio de um vácuo.
Balançou as pernas para fora da cama. Foi então que viu.
Na almofada ao lado dele - a almofada onde Eva costumava dormir, encolhida numa bola para ocupar o mínimo de espaço possível - estava uma folha de papel. E em cima do papel, cintilando na luz pálida, estava a aliança de casamento dela.
Alexandre olhou fixamente. Por um momento, o cérebro recusou-se a processar os dados visuais. O anel parecia alienígena ali, separado do dedo dela.
Estendeu a mão e pegou no papel. O anel rolou e bateu no colchão com um baque suave.
Dissolução de Casamento.
Ele percorreu o documento com os olhos. O olhar saltou sobre o jargão jurídico. Rutura irreversível. Renúncia de bens. Efeito imediato.
Soltou um escárnio curto e incrédulo. Atirou o papel de volta para a cama.
Outro pedido de atenção, murmurou para o quarto vazio.
Ela tinha andado temperamental ultimamente. Silenciosa. Retraída. Ele assumiu que era por causa do aniversário. Sabia que o tinha falhado, mas certamente ela compreendia a gravidade da condição de Escarlate? Escarlate era família. Escarlate era... frágil. Eva devia ser a robusta. Aquela que não precisava de manutenção.
Levantou-se e saiu do quarto, apertando o cinto do roupão de seda. Esperava encontrá-la na cozinha, talvez amuada sobre o fogão, à espera que ele pedisse desculpa para o perdoar e servir o café.
Eva! Pára com este jogo infantil, chamou ao entrar na sala de estar. Não tenho tempo para dramas esta manhã.
A cozinha estava imaculada. As bancadas limpas. Não havia cheiro de café. Nenhum cheiro de torradas. Os eletrodomésticos estavam frios.
Alexandre parou no centro da sala. Uma centelha de inquietação genuína acendeu-se no seu estômago.
Então, a porta da Suíte de Hóspedes abriu-se.
Eva saiu.
Alexandre piscou. Ela parecia... diferente.
Usava uma gabardina apertada na cintura sobre roupas simples. O cabelo, geralmente naquele coque severo e desarrumado, estava solto, embora ainda sem estilo. Mas era a postura dela que o confundia. Não estava curvada. Não se estava a encolher. Mantinha-se com a coluna alongada, o queixo erguido.
Segurava uma mala, mas pousou-a junto à porta do quarto de hóspedes.
Vais a algum lado? perguntou Alexandre, a voz a pingar condescendência. Caminhou em direção à ilha da cozinha, encostando-se a ela para mostrar o quão indiferente estava. O drama é desnecessário, Eva. Arruma a mala.
Eva caminhou até à bancada para servir um copo de água. Não olhou para ele.
Eu assinei os papéis, Alexandre, disse ela. A voz estava calma. Inaturalmente calma. Quero sair.
Alexandre riu-se. Foi um som áspero, um latido. Sair? Não tens nada sem mim. Percebes isso, não percebes? És uma 'Cortez' apenas no nome. O teu pai não te vai aceitar de volta. Não tens emprego. Não tens dinheiro. Não tens apartamento.
Ele desencostou-se da bancada e deu um passo em direção a ela, usando a altura para intimidar. Elevava-se sobre ela, projetando uma sombra no rosto dela.
És uma substituta, Eva. Não te esqueças disso. Existes neste mundo porque eu permito. Porque eu precisava de uma esposa no papel.
Eva finalmente olhou para ele. Atrás das lentes grossas dos óculos, os olhos dela eram escuros e ilegíveis. Não havia raiva lá. Apenas uma vasta e vazia indiferença.
E tu és um tolo cego, disse ela.
O insulto foi tão inesperado que Alexandre congelou. Eva nunca o insultava. Eva nunca respondia.
Como disse? a voz dele desceu uma oitava, tornando-se perigosa.
Não sou uma substituta, disse ela, a voz firme. E certamente não sou tua. Já não. Ficarei na suíte de hóspedes até os advogados finalizarem os detalhes. Não tenho interesse em tornar isto um espetáculo público.
O temperamento de Alexandre estalou. Estendeu a mão e agarrou o braço dela. Não foi um golpe, mas foi um aperto de posse. Uma ordem para ficar.
Pede desculpa, rosnou ele. Pede desculpa e vai fazer o raio do café.
A ordem pairou no ar.
Algo mudou nos olhos de Eva. O embaciamento desapareceu. Uma faísca de aço frio e duro substituiu-o.
Ela não se afastou violentamente. Não gritou. Simplesmente olhou para a mão dele no braço dela como se fosse um trapo sujo.
Com um movimento subtil, quase impercetível do pulso - uma técnica que exigia anos de treino - ela quebrou o aperto dele. Foi sem esforço.
Deu um passo atrás, alisando a manga.
Não sou tua criada, Alexandre, disse ela. A voz não tremeu. E acabei.
Alexandre ficou ali, com a mão ainda suspensa no ar. Olhou para a própria palma, depois para ela. Como é que ela tinha feito aquilo? Ela era fraca. Ela era desajeitada.
Tu... começou ele, mas as palavras morreram na garganta.
Eva não esperou que ele terminasse. Virou costas, a gabardina a rodopiar à volta das pernas.
Caminhou para a porta da frente.
Onde vais? exigiu Alexandre, a autoridade a escorregar.
Sair, disse ela simplesmente.
Abriu a porta e entrou no corredor. A porta fechou-se com um clique atrás dela, deixando Alexandre parado no meio da sua cozinha perfeita e vazia, um frio estranho a instalar-se no peito onde a certeza costumava estar.
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