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Capa do romance Golpe de Sorte

Golpe de Sorte

Após uma desilusão amorosa no Nordeste, Lizandra Ferreira busca um recomeço no Rio de Janeiro, mas acaba sendo vítima de um golpe terrível. Sozinha e sem recursos na metrópole, um acidente inesperado a aproxima de uma família acolhedora que decide ajudá-la. No entanto, para encontrar a paz, ela precisa enfrentar Heitor Alves de Bragança. O herdeiro arrogante desconfia de suas intenções e Lizandra terá que provar que não é uma oportunista explorando a bondade alheia.
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Capítulo 3

Heitor

Depois de muita insistência da Heloísa eu tinha aceitado acompanhá-la para passar o Réveillon em São Miguel do Gostoso e agora eu me questionava porque eu sempre acabava cedendo aos caprichos da minha irmã chata e impulsiva. Logo eu respondia a mim mesmo: Eu a amo, apesar de tudo.

— Você deveria tentar se divertir, Heitor! — Heloisa repete a mesma frase pela enésima vez só naquela noite — É sempre tão certinho. 

— Sou um cara responsável, foi isso que você quis dizer, não? — sugeri de maneira irônica.

— Um chato! Foi isso que a Heloisa quis dizer — Bernardo diz, se intrometendo no assunto.

— Não lembro de ninguém aqui ter pedido a sua opinião, Bernardo — falei de maneira rude.

— Gente, vamos apenas aproveitar o réveillon? — Heloísa tenta mais uma vez — É possível ou não? 

— A Heloísa tem razão — Catarina diz de maneira cordata — O que acham de descer e nos juntar ao restante dos hóspedes e assistir a queima de fogos?

Todos concordaram em seguir a sugestão de Catarina e pedimos a conta dos drinques que tomamos no bar do hotel e fomos nos reunir a maioria dos outros hóspedes, que estavam na área de festa próxima a piscina e onde estavam espalhadas várias mesas com buffet completo e atrativo, com muitas comidas tradicionais do Réveillon e também por comidas típicas da região Nordeste.

Enquanto experimentava algumas das iguarias, olhava em torno do ambiente, reconhecendo alguns rostos e torcendo para que Heloísa e Bernardo logo encontrassem companhias interessantes e esquecessem da Catarina e de mim. Logo que isso aconteça, eu pretendo voltar à minha suíte e dormir. Estava entediado, essa era a única palavra que poderia me definir naquele momento. Tenho certeza de que a minha namorada não se importaria de perder o restante da “festa”.

Catarina e eu namoramos há dois anos e pretendo pedi-la em casamento no dia do aniversário do meu avô Vicente que vai acontecer dentro de um mês e este será o meu presente para o patriarca da família Alves de Bragança, tendo em vista que o seu maior desejo no momento é que seus netos casem e tenham filhos, pois ele não vê a hora de ter crianças correndo pelos jardins da sua mansão.

Apesar dos planos de casamento para muito em breve, não posso dizer que amo a minha namorada, pois não acredito no amor nem acho que possa um dia me apaixonar. O único motivo pelo qual a escolhi para ser a minha esposa é pelo vínculo existente entre nossas famílias e o fato de conhecer Catarina há anos e termos bastante afinidade um com o outro. 

Não vejo problema algum em termos uma relação tranquila, ou como Bernardo sempre faz questão de dizer, um namoro morno e sem graça. Mas a opinião do meu melhor amigo e maior mulherengo que eu conheço realmente não vem ao caso.

— O que acha de voltar para a nossa suíte? — perguntei discretamente a Catarina logo após a meia noite e depois que perdi Heloísa e Bernardo de vista.

— Vamos ficar só mais um pouco… — Catarina pediu em um estranho tom de voz.

Olhei atentamente para a minha namorada quando ela pegou mais uma taça de champanhe da bandeja do garçom que estava passando e tenho certeza que aquela deveria ser pelo menos a quarta vez em que eu a via fazer isso.

— Você não acha que já bebeu muito por uma noite? — perguntei sem disfarçar a reprovação em minha voz.

Catarina pareceu estar muito atenta a algo do outro lado da enorme piscina e nem mesmo se importou em prestar atenção ao que eu estava falando, o que me incomodou bastante.

— Catarina? — tentei.

— Sim? –  apesar da resposta, eu realmente não tinha a sua atenção, e percebi em seu rosto uma expressão clara de desagrado.

Olhei mais uma vez na mesma direção em que Catarina tanto prestava atenção, mas não entendi realmente para o que ela estava vendo. Mas logo constatei que o Bernardo já estava aos beijos com uma garota qualquer, algo bastante comum para o meu amigo e que não deveria ser surpresa alguma para nenhum de nós. 

— Qual o problema? — perguntei já irritado com a atitude estranha de Catarina.

— Não há problema algum — respondeu com aborrecimento também — Somos todos livres para fazer o que bem entender, não é mesmo? 

Aquela pergunta me deixou espantado e parecia mais ser uma retórica, pois ela nem mesmo esperou que eu respondesse qualquer coisa e já estava virando a taça e tomando todo o conteúdo em um único e longo gole.

— O que está te incomodando? Não estou entendendo. 

Catarina não me respondeu e de maneira bastante inapropriada e surpreendente, virou as costas e saiu caminhando entre as pessoas sem nem mesmo olhar para trás, me deixando sem entender nada do que tinha acabado de acontecer.

Decidi esperar algum tempo antes de voltar para a nossa suíte, local para onde eu acreditava que a Catarina estivesse, mas quando cheguei ao quarto não havia nenhum sinal de sua passagem pelos aposentos requintados do hotel de luxo no qual estávamos hospedados.

— Onde ela pode estar?

Agora eu estava verdadeiramente preocupado com a minha namorada, afinal, ela não estava em seu estado normal e isso aliado ao fato de estar sozinha por aí poderia ser muito perigoso.

Catarina é uma negra linda de cabelos lisos, cortados na altura do ombro e tem um corpo magro e delicado, com pernas longas extremamente elegantes e tudo isso forma um quadro bastante chamativo e que pode despertar a atenção de algum bastardo mal intencionado, o que é bastante preocupante.

Pensar nisso fez com que eu voltasse ao local onde estava acontecendo as comemoração e que estava ainda mais lotado agora que tinha começado a tocar um cantor de bastante sucesso. Ainda assim, andei por toda a área, atento a qualquer sinal da Catarina ou de quem quer que pudesse dar alguma informação sobre ela.

Por sorte eu encontrei a minha irmã, que como eu já imaginava, estava abraçada a um homem com quem parecia estar se divertindo muito e eu me senti bastante incomodado em interromper o seu momento.

— Não sei onde a Catarina está — falei logo de uma vez.

Heloísa ficou tão preocupada quanto eu e nós combinamos de seguir em direções diferentes e comunicar um ao outro em caso de encontrar a minha namorada.

Decidi procurar também na orla da praia e caminhei atento a todos que por ali estavam, até que uma garota solitária sentada à beira mar me chamou atenção, mesmo que eu tivesse certeza de que não se tratava da Catarina, algo me fez parar e ficar observando as suas ações.

A praia parecia estar se aproximando cada vez mais de onde a garota estava, pois a cada vez que iam e vinham as ondas, mais elas quebravam próximo a garota e ela não parecia se importar por estar se molhando cada vez mais. Cheguei a pensar que ela talvez tivesse adormecido, mas seus ombros pareciam tremer fortemente e entendi que na verdade ela estava chorando copiosamente.

Outro fato preocupante era que naquela parte da orla a praia estava quase deserta, com poucas pessoas caminhando em direção a parte mais movimentada e tudo indicava que iria ficar ainda mais vazia no decorrer do tempo. Mas a garota não deve estar se dando conta disso ou até mesmo desejar estar completamente sozinha para chorar o seu pranto aparentemente tão sofrido.

Por algum motivo, eu não consegui ir embora e fingir que não vi aquela cena nitidamente triste e até mesmo… deprimente de uma garota chorando sozinha em pleno Ano Novo, enquanto as ondas da praia a molhavam mais e mais.

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