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Capa do romance Garras

Garras

Uma auror novata inicia sua primeira missão oficial ao lado de um experiente especialista do Ministério. Juntos, eles precisam investigar uma série de assassinatos brutais que está dizimando a população de dragões. Por trás dessa onda de violência, um vilão enigmático articula um plano sombrio e perigoso. Em uma jornada repleta de mistérios e perigos, a dupla deve descobrir a verdade antes que o objetivo final do inimigo seja alcançado.
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Capítulo 3

Pov Moira

Não fazia sentido ficar a manhã toda no quarto, precisava sair e encontrar algo decente para comer.

A rua na vila estava iluminada e o sol tentava, inutilmente, passar entre as nuvens.

- Bom dia, senhora - um homem de aparência rude e visivelmente bêbado se apoiava na cerca de sua casa.

- Seu velho safado - a esposa gritou da janela.

Não era o tipo de lugar que eu andaria, com certeza, mas as crianças correndo despreocupadas na rua, davam mais alegria á vista.

Avistei uma casa com uma placa onde se lia "Ristorante" e comecei a salivar enquanto andava decidida até lá.

- Não comeria ali, se fosse você.

Me virei bruscamente já com a varinha em mãos apontada no pescoço do indivíduo.

- Hei, hei... calma, docinho.

- Mordaque - eu bufei.

- Surpresa em me ver tão cedo?

- Na verdade, sim. Não tem mais dragões para encinerar?

- Vim com Charles.

- Ele já chegou?

- Como assim? esperava por ele? Não, achamos que você podia querer o couro da asa do segundo dragão.

- Sim, eu quero.

- Mas esqueceu, não é tão experiente assim. Não é, docinho.

- Eu tenho nome, Moira Scringeour ou Srta. Scringeour para você.

- Não fica tão na defensiva, acho que podemos ser bons... amigos - ele deu uma piscadinha de lado - além do mais, não sei pronunciar esse nome.

- Duvido. Agora, se me der licença eu preciso comer.

- Vou aconselhá-la mais uma vez a não comer ali.

- Eles servem comida italiana, é melhor que a hospedaria.

Mordaque ficou sério por um segundo, com os olhos sombrios enquanto olhava rápido para a estalagem no começo da rua, mas logo voltou com seu ar cafajeste.

- Italiana?

- Sim, está escrito Ristaurante.

- O velho Wathe é quase analfabeto - ele riu - eles servem carne de baleia quando elas chegam mortas à margem.

- Repugnante - eu ajeitei meu blazer puxando a barra com força - melhor eu seguir meu caminho, com licença.

- Espera.

Eu continuei em em frente sem dar atenção até pisar em algo mole e viscoso. Eu não queria olhar, sabia onde havia pisado.

- As ruas não são assim tão limpas como no ministério, docinho.

- Acha isso engraçado?

- Não, mas devia considerar mudar de roupas. Aliás, se tiver dificuldade com isso, eu me ofereço para ajudar.

- Não há problema nenhum com as minhas roupas.

- Concordo, blazer e salto alto são realmente sexy, mas essa é uma cidade montanhosa, botas seriam mais confortáveis.

- Você é tão intrometido - e bonito.

- Só estou preocupado com seu bem estar - ele deu alguns passos para trás, balançando o corpo de um lado para outro - docinho.

Meu estômago roncava, bati os sapatos sujos no chão de terra e tomei o caminho de volta.

Pov Carlinhos

- Meio cruel fazer a moça andar da reserva até aqui ontem a noite, se temos a carroça.

- Não ia tirar os cavalos naquele frio, estavam dormindo - pulei no chão e desamarrei as cordas que prendiam o rolo de couro - além do mais, a Srta. Scringeour precisa entender como as coisas funcionam por aqui.

- E acha que ter os pés maltratados naqueles sapatos vai mudar alguma coisa? - Mordaque virou o corpo na carroça apoiando o cotovelo na coxa - ela é uma garota rica.

- Eu sei, mas é um começo. Anda, me ajuda com isso.

Ele levantou o couro enrolado e jogou sobre meus ombros.

- Quer que eu entre? - a relutância na sua voz era nítida.

- Não, compre algumas cenouras para os cavalos - enfiei a mão no bolso da jaqueta e joguei moedas para ele.

- Te espero aqui?

- É, vai ser rápido.

Seria difícil subir as escadas carregando duas asas de dragão mas não podia pedir que Mordaque me ajudasse, ele já se sentia mal o suficiente de ver a hospedaria de fora, não queria que a visse por dentro.

Assim que passei pela porta fui recebido pelo proprietário que estava tão feliz em me ver quanto eu em vê-lo.

Homenzinho detestável.

- Weasley, espero que esteja com meu dinheiro.

- Na próxima semana.

- Disse isso o mês todo.

- Vou pagar duas prestações juntas, está bem?! Agora, preciso falar com Moira Scringeour.

- Não tem ninguém com esse nome aqui.

- A auror, talvez a reserva seja no nome do estagiário, Dominic Ioannou.

- Terceiro andar á esquerda - ele resmungou enquanto voltava para o bar.

- Idiota.

Como eu pensei, cheguei ao terceiro andar já ofegante e parei para tomar um ar, encostado na parede eu pude ver o quadro que tanto me incomodava.

A pintura em cores quentes dos pais e um filho, o cabelo amarelo do menino, tão vivo como se fosse real.

- Weasley?

Dominic subia a escada de onde eu tinha vindo.

- Ioannou? Estou procurando a Moira.

- Ela devia estar aqui, eu acabei de mandar uma coruja pra você.

Ele fez sinal para que eu o seguisse e fiz isso mantendo alguma distância.

- Porque me mandou uma coruja? - entrei no quarto carregando o couro e o joguei em cima da cama que despencou no chão com os quatro pés quebrados e uma nuvem de poeira.

Olhei para Ioannou já me preparando pra me explicar mas ele deu de ombros.

- Essa é da Moira.

- Ela não vai gostar - ele ficou olhando com indiferença para o móvel no chão - então?

- Ah, sim. Não conseguimos os livros mas Moira tem um palpite, soubemos de uma catedral, queremos que nos leve até lá.

- Não.

- Não?

- Não está acostumado com essa palavra?

- A Moira é uma auror em exercício da função - ele tomou um ar autoritário e nada simpático enquanto se mantinha pomposo, era engraçado - e você um especialista ao serviço dela.

- Em dragões, não em expedições.

Ele torceu o nariz e ficou ainda mais nervoso, se continuasse se segurando poderia facilmente explodir. A porta atrás de mim se abriu e minha atenção se voltou para ela.

Moira entrou no quarto bravejando e arrancando as roupas.

- O que eles pensam que eu sou - blazer.

- Moira? - Ioannou levantou a mão tentando chamar sua atenção, em vão.

- Se eles querem que eu me vista como uma camponesa - a camisa branca.

- Moira, espera.

- É exatamente o que vou fazer - o fecho do sutiã.

Ela era bonita, as poucas mulheres na reserva eram mais brutas que eu mas Moira era delicada, feminina e eu pensava em como ela poderia ser doce em baixo daquela pose de auror.

Mesmo assim seria errado olhar o corpo dela dessa maneira sem que ela ao menos soubesse, limpei a garganta em duas tossidas rápidas.

Ela se virou assustada cobrindo os seios com as mãos e tentou falar alguma coisa várias vezes mas acabou desistindo quando viu que as palavras não saíam.

- O Sr. Weasley está aqui.

- Eu estou vendo, Dom. Obrigada.

Ela me encarou, dei alguns passos lentos em sua direção até ficar lado a lado com ela e me abaixei para perto de seu ouvido.

- No seu lugar, eu teria continuado o show.

Saí para o corredor me sentindo provocado, as roupas apertando na virilha. Lá embaixo, Mordaque dava cenouras aos cavalos.

- Missão cumprida?

- Sim, e espero que essa seja a última asa de dragão que temos que retirar.

- Weasley? Weasley? - Moira corria para a rua agora usando um suéter mesmo que ainda fosse possível ver que não usava sutiã.

- Em que posso ajudá-la?

- Meus olhos são aqui em cima - ela bravejou chamando minha atenção - Dominic me contou da sua recusa em me servir e devo dizer que é inaceitável.

- Você goste ou não, Srta. Scringeour. Eu não vou fazer uma expedição perigosa pela montanha, ainda mais com pessoas inexperientes.

- Não sou inexperiente.

- E aprendeu sobre exploração e escalagem na sua escola de aurores ou nas aulas de etiqueta?

- Porque acha que fiz aulas de etiqueta? - Moira estava na defensiva e a conversa se tornou quase uma discussão.

- É filha do ministro, não é?!

- Vejo que fez sua lição de casa, no entanto, não pense que me conhece.

- Que seja - dei de ombros enquanto arrumava o interior da carroça - mas não há nada na caredral. Seria inútil.

- Eu tenho uma intuição.

- É vidente?

- Não.

- Anote isso - eu disse para o garoto atrás dela que trazia uma prancheta e uma pena - Não vou levar vocês por um palpite. Encontre outra pessoa.

Um estrondo alto como uma explosão seguido de gritos foi ouvido de uma rua próxima, corri junto a Mordaque até o local.

No meio da rua um dragão repousava, me aproximei a tempo de sentir o vapor quente da sua última respiração, meu peito apertou.

Um grito ensurdecedor fez os curiosos cobriram os ouvidos e correrem desesperados mas eu estava habituado com esse som.

- O que é isso? - Moira gritou com as mãos sobre as orelhas.

- É um filhote - eu apontei para o céu onde um dragão enorme circulava e berrava - e aquela é a mãe, está furiosa.

- O que faremos?

- Eu não sei, Mordaque - olhei para o rosto impassível de Moira - estejam prontos ao anoitecer, no cais.

Pov Charles

O cais ficava no interior da vila, o outro lado da baía era tão longe que não dava para avista-lo nem mesmo com a luneta. Desviei o olhar da imensidão e me sentei sobre um barril velho enquanto esperava, a primeira pessoa a aparecer não era bem quem eu imaginava.

- Você não vai - enfatizei para Mordaque quando o vi se empoleirar no pier.

- Se ele vai eu também vou.

Bentley apontou para o cachorro de porte médio ao meu lado. Brutus era um cão velho e quase surdo da raça Bloodhound.

- É um cão farejador, é útil.

- Eu também, posso carregar suas coisas - ele pegou a mochila de couro ao meu pé e colocou no ombro - ou distrair a auror. Por falar nisso, onde ela está?

- Espero que a caminho.

Brutus se deitou de barriga e esticou o queixo no chão, deixando as orelhas esparramadas.

- Sério, porque trouxe o cão?

- Acredito que a senhorita Scringeour não tenha muito apreço pelos animais que estamos tentando salvar, talvez algo mais próximo e familiar desperte nela esse interesse.

- Ah claro - ele disse ironicamente - até por que Baelfire e dragões tem muitas semelhanças. Um cospe fogo e o outro tem incontinência urinária... sério, Charles... esse cão tem uns cem anos.

- Não ligue pra ele - eu falei para o cão que mal levantou a cabeça - Bentley tem se sentido muito oprimido ultimamente.

- Agora sei porque esse pulguento está aqui, vai usá-lo pra provocar a auror, como faz comigo.

- Não sei do que está falando.

Ter Mordaque aqui não me deixava muito a vontade, o caminho até a catedral era cruel, implacável e suas motivações eram emotivas demais, para dizer o mínimo.

Mas ele tinha razão, Moira precisava se situar de onde estava e com quem estava lidando mas minha mãe criou um cavalheiro, jamais diria coisas tão desagradáveis para ela, não diretamente.

Me surpreendi quando ela apareceu com seu assistente, aparatando á alguns metros de nós, ela usava botas e mal tinham salto, couro e uma saia longa que dava total liberdade de movimento, parecia outra pessoa.

Uma pessoa com quem eu adoraria me ver sozinho.

- Boa tarde, Sr. weasley - ela ainda mantinha a pose - Mordaque? Estou surpresa, esperava uma equipe mais qualificada.

Eu ri com a ingênuidade dela.

- Não se preocupe, temos um cachorro - Bentley respondeu.

- E armas - bati com a mão espalmada no no coldre.

- Uma espada?

- Nunca se sabe, não é? Essa é uma região...

- Inospta. Já usou essa palavra Sr. Weasley.

- Essa é a graça com as palavras Srta. Scringeour - me levantei ficando bem á frente dela, perto de mim Moira parecia ainda mais pequena - você pode usar, elas não gastam.

Ela engoliu em seco mas não expressou nenhuma emoção. Atrás dela, mais uma vez, Dominic tremeu e seus olhos se arregalaram como se fosse explodir mas as palavras se recusaram de sair da sua boca.

- Que seja - era Moira quem falava - desfaça o feitiço de desilusão, vamos logo com isso.

- Não há feitiço.

- E onde está o barco?

- Estará aqui - peguei o relógio no bolso e examinei por alguns segundos - agora.

O píer começou a tremer e Moira se desequilibrou, caindo sobre mim, a segurei pelos cotovelos e sorri ao ver sua expressão assustada me encarando. Seus olhos subiram de onde os meus estavam e se concentraram atrás de mim.

- Moira, isso é um navio subaquático - Dominic parecia muito preocupado - é uma violação do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia.

- Eu percebi, Dom - ela se soltou de mim dando dois passos atrás para me olhar de forma confortável - não viajaremos de forma ilegal.

- Se acalme, vamos pela superficie.

Uma rampa de madeira caiu formando um caminho entre o píer e o navio e no topo dela apareceram dois indivíduos, um subordinado quieto e a capitã com um largo sorriso e um charuto na boca.

- Espere, Brutus - falei com o cão que ainda nem havia se levantado e dei um breve olhar para Moira - deixe as damas irem na frente.

Ela sacudiu o cabelo e levantou o queixo.

- Dominic, pegue a prancheta.

O assistente lutou contra a pasta e mais ainda contra a pena que entregou para Moira assim que chegamos ao topo da rampa e entramos no navio.

- Bem vindos á bordo - a capitã se dirigiu ás pessoas que ela não conhecia - eu sou Acacia Santierra, capitã do Estrela do Norte - ela deu alguns passos até Moira - mas você pode me chamar de mamãe.

- Moira Scringeur - respondeu duramente enquanto assinava o documento que Dominic havia pego na pasta e o entregou á capitã.

- O que é isso?

- Uma multa, navios subaquáticos são ilegais.

O rosto de Acacia se fechou e seus olhos se estreitaram enquanto chega perigosamente ainda mais perto de Moira.

Ela pegou o documento e levantou entre seus rostos e então o rasgou vagarosamente, me vi na obrigação de intervir antes que a viagem acabasse sem nem começar.

- Acacia, posso ver o plano de bordo?

- Claro, acho que terminamos aqui.

Moira mais parecia de gesso, não demonstrava nenhum sentimento mas suas mãos trêmulas me diziam que estava com medo, Mordaque já havia entrado no convés e ela seguiu no mesmo caminho.

- Pode levar a bagagem, serviçal? - disse em tom cortês o assistente - marujo?

- Esse é Einar, ele não fala - respondi olhando do subordinado para Dominic - ou escuta, na verdade, acho que ele nem entende nossa língua.

Acacia fez um gesto rápido e o homem que até então, não havia movido um músculo se colocou para frente apanhando as malas do chão com muita facilidade.

- Vai me dizer porque vão até a bahia? - Acacia disse assim que ficamos sozinhos.

A rampa começou a se recolhei de volta ao convés.

- Tenho que levar a auror até a Catedral.

- Não há nada lá, Charlie.

- Ela tem uma intuição e pra ser bem sincero, eu também.

- Isso é perigoso e ainda mais com o menino.

- Ele vai ficar bem.

- Devia deixá-lo no barco, posso inventar alguma coisa.

- É melhor que Bentley fique comigo. Vai ser bom ter um amigo por perto, de qualquer maneira.

- Vejo que não foi a única companhia que trouxe?

Franzi os cantos do olhos, sem entender o que ela quis dizer e Acacia apontou para o horizonte onde um dragão voava rápido, pela curvatura da asa e pelo tamanho arriscaria dizer que era um Barriga-de-Ferro Ucraniano.

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