
Fúria Feminina: Nascendo das Cinzas
Capítulo 2
Júlia olhava para a tela do seu celular, o sorriso de Pedro, seu marido, preenchia a imagem. Ele era um influenciador digital, um dos grandes, e sua especialidade era vender a imagem do homem de família perfeito. Seus milhões de seguidores viam fotos e vídeos diários de um casamento feliz, de um pai dedicado, de uma vida que parecia um sonho. E, por um tempo, Júlia acreditou que realmente vivia esse sonho. Ela era a esposa bonita, a mãe dos filhos dele, a peça que completava o quadro perfeito que ele pintava para o mundo. Ele sempre dizia que a família era sua base, seu tudo, a razão pela qual ele trabalhava tanto. O sucesso dele era o sucesso deles, e ela se sentia parte daquilo, orgulhosa.
Naquele dia, ele estava fazendo uma transmissão ao vivo, anunciando um novo projeto. Júlia assistia, como sempre, com um sorriso de apoio no rosto.
"Tenho uma novidade incrível para compartilhar com vocês," Pedro disse para a câmera, seus dentes brancos brilhando. "Minha vida está prestes a mudar, a evoluir para um novo nível de consciência e felicidade. E isso porque eu encontrei alguém que me entende de verdade, que vibra na mesma frequência que eu."
O sorriso de Júlia vacilou. Ele estava falando dela? Parecia estranho.
Então, uma mulher apareceu ao lado dele na tela. Uma mulher que Júlia nunca tinha visto, com um sorriso igualmente branco e um ar de superioridade.
"Quero apresentar a vocês a minha nova parceira de vida e de projetos," Pedro continuou, passando o braço pelos ombros da mulher. "Esta é a Sofia, minha coach de vida, mas mais do que isso... ela é a minha verdadeira alma gêmea."
O celular quase caiu da mão de Júlia. O ar sumiu de seus pulmões. Ele não podia estar fazendo aquilo. Não publicamente. Não para milhões de pessoas. A palavra "alma gêmea" ecoava em sua cabeça, cruel e definitiva. O chat da transmissão ao vivo explodiu com comentários de choque, confusão e alguns de apoio ao "casal" que exalava "energia positiva". Ela se sentiu nua, exposta, humilhada na frente do mundo inteiro. A dor era física, uma pressão no peito que a impedia de respirar.
A campainha tocou, tirando-a do transe. Era sua mãe, Isabel. Isabel, uma ex-modelo que ainda mantinha a postura e a beleza dos seus tempos de passarela, entrou e viu o rosto pálido da filha.
"O que aconteceu, querida? Você parece que viu um fantasma."
Júlia não conseguia falar, apenas apontou para a tela do celular, onde Pedro e Sofia agora riam e falavam sobre "conexões cósmicas". Isabel pegou o aparelho, seus olhos se estreitaram enquanto ela assistia à cena. Sua expressão, normalmente calma e controlada, endureceu.
"Desgraçado," ela murmurou. Então, respirou fundo, como se estivesse se preparando para uma batalha. "Júlia, olhe para mim. Nós vamos superar isso."
Mas a avalanche de traição ainda não tinha acabado. O telefone de Isabel tocou. Era uma amiga, com a voz cheia de pena. Isabel ouviu por um momento, seu rosto ficando ainda mais sombrio.
"Obrigada por me avisar," ela disse, e desligou. Ela olhou para Júlia, e havia uma nova camada de dor em seus olhos, uma dor que espelhava a da filha.
"O quê, mãe? O que foi agora?"
"Fernando," disse Isabel, referindo-se ao pai de Pedro, seu ex-marido. "Ele acabou de anunciar o noivado. Com a secretária dele, aquela que tem metade da idade dele. Parece que hoje é o dia oficial de sermos trocadas por modelos mais novos."
A ironia era doentia. Pai e filho, no mesmo dia, descartando as mulheres de suas vidas publicamente, como se estivessem se livrando de roupas velhas. A dor de Júlia se transformou em uma raiva pura e incandescente. Ela se levantou, a paralisia dando lugar a uma fúria selvagem.
"CHEGA!" ela gritou, sua voz rouca de angústia. Ela pegou o tablet da mesinha de centro, o mesmo que Pedro usava para editar seus vídeos de "família feliz", e o atirou contra a parede. O aparelho se espatifou em mil pedaços, um som violento que finalmente trouxe algum alívio. "Eu não vou ser a vítima chorona na historinha dele! Eu não vou deixar que ele me destrua!"
Isabel não a repreendeu. Em vez disso, um sorriso feroz surgiu em seus lábios. Ela se aproximou da filha e a abraçou com força.
"Essa é a minha garota," ela sussurrou. "Chorar não vai trazer nossa dignidade de volta. Mas a vingança, talvez sim. E a liberdade, com certeza." Elas se afastaram e se olharam, a mesma determinação queimando nos olhos de ambas. "Eles querem nos apagar? Ótimo. Vamos apagar a nós mesmas primeiro. Vamos morrer. Digitalmente. E vamos desaparecer para sempre das vidas medíocres deles."
A ideia era louca, drástica, aterrorizante. E, para Júlia, soava como a coisa mais certa do mundo. Elas não seriam as mulheres abandonadas. Elas seriam as mulheres que desapareceram, as que escolheram a própria liberdade. Elas iriam planejar a morte digital de Júlia e a fuga de Isabel. Juntas.
Você pode gostar





