
Fragmentos de um Amor
Capítulo 2
A primeira coisa que senti foi a mão de Gabriel segurando a minha.
Ele estava ali, como sempre. Sua voz era um sussurro rouco perto do meu ouvido, repetindo meu nome sem parar, como uma oração desesperada. Abri os olhos devagar, a luz do quarto do hospital era branca e forte, machucava minha vista.
Quando Gabriel percebeu que eu estava acordado, ele parou de falar. Seus olhos, vermelhos e inchados de tanto chorar, se arregalaram. Ele levou minha mão aos seus lábios e a beijou, e então começou a chorar de novo, um choro de alívio que sacudia seu corpo inteiro.
"Leo, você acordou", ele soluçou, o rosto molhado de lágrimas. "Você finalmente acordou, meu amor."
Ele se curvou sobre mim, me abraçando com um cuidado que beirava o medo. Eu sentia o calor do seu corpo, o seu cheiro familiar. Era bom, mas algo estava errado. Ele me segurava com muita força, como se eu fosse um objeto precioso que pudesse quebrar a qualquer momento.
"Não se esforce, não fale muito", ele disse, ajeitando meu travesseiro. "Eu vou chamar a enfermeira. Fique aqui, quietinho. Eu cuido de tudo."
Sua preocupação era tão intensa que me sufocava. Eu o amava, mas naquele momento, seu cuidado parecia uma gaiola.
Tentei me mexer na cama, ajeitar meu corpo para uma posição mais confortável. Foi quando percebi. Eu não sentia minhas pernas. Tentei movê-las, mas elas não obedeciam. Nada. Um vazio, um peso morto da cintura para baixo.
Olhei para o lençol branco que me cobria. Estava liso, reto demais. Um pânico frio começou a subir pela minha espinha.
"Gabriel...", minha voz saiu fraca, arranhada. "Minhas pernas... eu não consigo..."
O rosto de Gabriel se desfez. A alegria de me ver acordado foi substituída por uma dor profunda, uma dor que ele tentava esconder, mas que transbordava de seus olhos. Ele segurou meu rosto entre as mãos.
"Meu amor, escuta...", ele começou, a voz trêmula. "O acidente... foi grave. A sua coluna... os médicos disseram... Leo, você não vai mais poder andar."
As palavras dele não fizeram barulho. Elas simplesmente entraram em mim e apagaram tudo. O mundo ficou mudo. Eu só conseguia sentir o peso inútil do meu corpo, a morte dos meus movimentos. O sonho de dançar, a minha vida inteira, tudo se transformou em pó.
Fechei as mãos com força, cravando as unhas nas palmas. A dor aguda era a única coisa real, a única coisa que provava que eu ainda estava vivo.
No meio do meu silêncio, o celular de Gabriel tocou. Ele olhou para a tela e seu rosto mudou. Uma expressão complexa, indecifrável. Ele se afastou um pouco para atender, a voz baixa.
"Preciso ir. É urgente", ele sussurrou. "Prometo que volto logo."
Antes que ele desligasse a tela, eu vi o nome. Rafael.
Ele me deu um beijo na testa, um beijo rápido e culpado, e saiu do quarto. O som da porta se fechando foi o som mais solitário que eu já ouvi.
Sozinho, peguei meu celular com as mãos trêmulas. Abri uma rede social qualquer, sem saber o que procurar. Um post de um blog anônimo e famoso estava no topo dos mais lidos. O título me gelou por dentro.
"Hoje, o mundo dele desabou. E o meu começou."
Um pressentimento horrível tomou conta de mim. Mesmo assim, com o coração batendo descontrolado no peito, eu cliquei.
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