
Frágil? Eu Sou Uma Tempestade
Capítulo 3
A cirurgia foi um borrão de anestesia e vozes abafadas.
Quando acordei, a minha melhor amiga, a Clara, estava sentada ao meu lado, a segurar a minha mão.
Os olhos dela estavam vermelhos.
"Como te sentes?" ela perguntou suavemente.
"Vazia," eu disse. Era a única palavra que se aplicava.
O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Estava silencioso. Nenhuma chamada perdida do Pedro. Nenhuma mensagem.
Claro que não. A Sofia precisava dele.
Clara viu-me a olhar para o telemóvel. A sua expressão endureceu.
"Ele não ligou. Mandei-lhe uma mensagem a dizer que tinhas saído da cirurgia. Ele apenas respondeu com um 'Ok'."
Ok.
Uma palavra. Pelo nosso filho. Pela sua esposa.
Senti uma risada amarga a borbulhar no meu peito, mas saiu como um soluço.
"Clara, eu quero o divórcio."
Ela apertou a minha mão com mais força. "Eu sei. E eu vou ajudar-te."
Peguei no meu telemóvel. As minhas mãos tremiam, mas a minha determinação era firme.
Liguei ao Pedro.
Demorou uma eternidade a atender. Quando o fez, a sua voz estava cheia de sono e irritação.
"Ana? São três da manhã. O que se passa?"
"Eu quero o divórcio, Pedro."
Houve silêncio do outro lado. Depois, um suspiro pesado.
"Estás a ser dramática por causa do que aconteceu. Estás emocional. Vamos falar sobre isto de manhã."
"Não há nada para falar. Eu já decidi. O bebé era a única coisa que nos mantinha juntos, e agora ele se foi."
A menção do bebé pareceu finalmente atingi-lo.
"Não uses o nosso filho como desculpa! Achas que eu também não estou a sofrer?"
"A sofrer? Onde estavas tu, Pedro? Onde estavas quando o médico me disse que o nosso filho estava morto? Onde estavas quando me levaram para a cirurgia?"
"Eu já te disse! A Sofia estava a ter um ataque de pânico! Ela é a minha irmã, Ana! Ela não tem mais ninguém!"
"E eu? Eu não sou nada? O teu filho não era nada?"
"Isso não é justo! Tu és forte, sempre foste. A Sofia é frágil."
Frágil. Essa era a desculpa dele para tudo.
"Estou farta das tuas desculpas, Pedro. Farta de ser a segunda opção. Acabou."
"Tu não podes fazer isto," a sua voz subiu, pânico a infiltrar-se. "O que é que as pessoas vão pensar? A minha mãe vai matar-me!"
A sua mãe. A matriarca que o controlava como uma marioneta.
"Isso já não é problema meu," eu disse, a minha voz fria como gelo.
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Bloqueei o número dele.
Foi a primeira vez em anos que senti que podia respirar.
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