
Fiona: O Renascer de Uma Herdeira
Capítulo 3
Doze anos. Uma vida inteira dedicada a um homem.
Lembro-me de quando conheci Darren. Eu era Fiona Hayes, herdeira de uma das mais antigas e respeitadas famílias produtoras de vinho do Douro. Ele era Darren Acosta, um homem ambicioso de uma família modesta, com um sonho grande: criar o melhor azeite de Portugal.
Apaixonei-me pela sua paixão, pela sua determinação. Para o mundo dele, eu escondi o meu apelido. Tornei-me apenas Fiona, uma chef de pastelaria que o amava o suficiente para deixar tudo para trás.
Usei as minhas poupanças e, secretamente, os meus contactos familiares, para o ajudar a comprar o seu primeiro olival. A minha avó, a matriarca da família Hayes, desaprovou. "Esse homem está a usar-te, Fiona. O brilho nos olhos dele não é amor, é ambição."
Mas eu estava cega. Via-o como um génio incompreendido, e eu era a sua musa, a sua força silenciosa. Fui eu que lhe apresentei os distribuidores certos, que usei a influência da minha família para lhe abrir as portas dos supermercados de luxo e dos concursos internacionais.
Ele nunca soube. Acreditava piamente que o seu sucesso era fruto do seu próprio mérito. E eu deixei-o acreditar, para proteger o seu frágil ego masculino. Tornei-me a "mulher por detrás do grande homem", a anfitriã perfeita nos seus jantares de negócios, a esposa virtuosa que todos admiravam.
Agora, o cheiro do perfume de outra mulher no seu fato era um insulto a todos esses anos de sacrifício.
"De quem é esse perfume, Darren?" perguntei, a minha voz perigosamente calma.
Ele recuou um passo, como se a minha calma o assustasse mais do que um grito.
"Não sei do que estás a falar."
"Sabes perfeitamente. É o mesmo perfume que a Lilith usa. Lembro-me de quando me prometeste que nunca mais terias segredos para mim. Foi no dia em que me pediste em casamento."
A memória era vívida. Estávamos num pequeno restaurante em Amarante, e ele tinha lágrimas nos olhos. "Fiona, tu és o meu tudo. Nunca te trairei."
A ironia era tão dolorosa.
"A joia de filigrana", continuei, a minha voz a tremer ligeiramente. "Aquela que eu vi na baixa do Porto. Tu compraste-a para ela, não foi? Com o nosso dinheiro."
O rosto de Darren contorceu-se de raiva.
"E se comprei? Eu ganho o dinheiro! Posso fazer o que quiser com ele! Tu não fazes nada o dia todo, a não ser cozer bolos e sonhar com bebés!"
A sua crueldade atingiu-me em cheio.
"Eu não faço nada?" A minha voz subiu uma oitava. "Eu sacrifiquei a minha carreira por ti! Eu desisti do meu nome, da minha família, de tudo, para te apoiar! Quem achas que te conseguiu aquele contrato com a cadeia de hotéis de luxo? Quem achas que convenceu o júri daquele prémio em Itália?"
Ele riu-se, um som feio e desdenhoso.
"Tu? Não sejas ridícula. Tu és apenas uma dona de casa. O meu sucesso é meu. Eu construí-o com o meu suor e o meu sangue."
Lembrei-me de um tempo, há muito, muito tempo, quando éramos jovens e pobres. Ele não tinha dinheiro para me comprar um anel, por isso fez um com um fio de erva do campo. Colocou-o no meu dedo e disse: "Um dia, Fiona, vou dar-te o mundo."
Naquele momento, eu não queria o mundo. Eu só queria aquele anel de erva e o homem que o fez.
Onde estava esse homem agora? Desapareceu, substituído por este estranho cruel e egocêntrico.
O telemóvel dele tocou. Ele olhou para o ecrã e o seu rosto suavizou-se.
"Lilith? Sim, estou a ir. Não te preocupes, eu trato de tudo."
Ele desligou e olhou para mim com frieza.
"Tenho de ir. A Lilith não se está a sentir bem."
Ele virou-se para sair, sem uma palavra de desculpa, sem um olhar de remorso.
Ele estava a abandonar-me no meu aniversário, depois de ser apanhado em flagrante, para ir ter com a sua amante grávida.
A dor no meu peito era insuportável.
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