
Filho Trocado, Vida Revelada
Capítulo 3
Pedro não parou. A atenção de todos era o palco que ele esperou a vida inteira para ter.
"Vocês acham que eu estou exagerando?" , ele gritou para a multidão de convidados boquiabertos, "Eu tenho provas. Provas de todos os anos de inferno que eu vivi nesta casa."
Ele tirou o celular do bolso. Sua mão tremia, não de medo, mas de pura adrenalina e raiva.
"No meu aniversário de quinze anos, eu pedi uma bicicleta usada. Sabe o que eu ganhei? Um sermão sobre como a gente precisava economizar. Na mesma semana, o João" , ele cuspiu o nome, "ganhou um videogame de última geração porque estava 'triste' com uma nota baixa."
Ele passou o dedo na tela do celular.
"Quando eu fiquei doente, com febre alta, ela me mandou para o posto de saúde sozinho, dizendo que estava ocupada com a cerâmica dela. Mas quando o João torceu o tornozelo jogando futebol, ela o levou para o melhor hospital particular da cidade e ficou ao lado dele por dois dias."
As pessoas começaram a cochichar. Os olhares de pena se voltaram para Pedro, enquanto os de julgamento se fixavam em Maria.
"E não é só sobre dinheiro ou cuidado. É sobre algo muito mais nojento."
Pedro fez uma pausa dramática. Seus olhos encontraram os de Cida, a avó, que assistia a tudo com um interesse macabro, quase satisfeita com o espetáculo.
"Eu vou mostrar a vocês a verdadeira natureza da relação dela com o 'filhinho querido' ."
A acusação ficou no ar, pesada e suja. Carlos, o marido, empalideceu.
"Pedro, o que você está insinuando? Isso é doentio!"
"Doentio é o que eu vi nesta casa!" , retrucou Pedro, ignorando o pai. "E se vocês não acreditam em mim, talvez acreditem nisto. Eu tenho tudo gravado. Cada momento estranho, cada conversa suspeita. Eu posso mandar para cada um de vocês. Posso colocar na internet. O mundo inteiro vai saber quem é a verdadeira Maria."
A ameaça pairou no ar, gelando a espinha de todos. João, que até então estava paralisado, finalmente reagiu. Ele deu um passo à frente, com os olhos cheios de lágrimas.
"Pedro, por favor, para. Se o problema é comigo, eu vou embora. Eu abro mão de tudo. Da faculdade, do carro... tudo. Só não faça isso com a mamãe."
A sinceridade na voz de João era palpável. Ele era a inocência presa no meio de um jogo sujo que mal começava a entender. Mas sua bondade não teve efeito.
Foi Cida quem quebrou o momento. Ela se aproximou, com o rosto contorcido em uma máscara de indignação justa.
"Ouviram isso?" , ela disse, com a voz alta para que todos escutassem. "O pobre menino se oferecendo para se sacrificar! Esta mulher" , ela apontou um dedo trêmulo para Maria, "envenenou esta família. Ela destruiu meu filho, afastou meu neto de mim, e agora está destruindo estes dois meninos. Carlos, você precisa fazer alguma coisa! Expulse essa mulher da nossa casa! Agora!"
O apelo de Cida foi a faísca que faltava. O murmúrio dos convidados se transformou em um clamor de concordância. A multidão, antes festiva, agora era um júri enfurecido, e o veredito já estava dado. Maria era a culpada.
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