
Farsa Revelada, Destino Resgatado
Capítulo 2
A tempestade lá fora rugia, e a chuva batia forte contra a janela do corredor. Eu estava parado do lado de fora do quarto de Ana Clara, segurando uma bandeja com o jantar dela, como fazia todas as noites nos últimos cinco anos. Minha tia, a mulher que eu amava e idolatrava, a quem eu dedicava cada minuto da minha vida desde que o suposto acidente de carro a deixou paraplégica.
Eu tinha dezessete anos quando aconteceu. Meu sonho era ser jogador de futebol, eu estava prestes a fazer um teste para um grande clube, mas abandonei tudo para cuidar dela. Agora, com vinte e dois, minha vida era o quarto dela, a cadeira de rodas dela, as necessidades dela.
A porta estava entreaberta, e eu ouvi vozes lá de dentro. A voz de Ana Clara e a de sua melhor amiga, Lúcia. Eu hesitei, não querendo interromper.
"Você não acha que já foi longe demais, Ana? Cinco anos. O garoto largou a vida dele por você", disse Lúcia, a voz dela um sussurro preocupado.
Meu coração parou por um segundo. Do que ela estava falando?
A risada de Ana Clara soou, clara e sem um pingo de remorso.
"Longe demais? Lúcia, querida, ele estragou a minha vida. Ele merece cada segundo disso. Você se lembra do Ricardo? Aquele encontro que ele me fez perder? Eu poderia ter me casado com o Ricardo."
Ricardo. O nome ecoou na minha cabeça. Um ex-namorado dela de anos atrás. Eu me lembrava vagamente. Eu era um adolescente, tive uma crise alérgica terrível naquele dia, e Ana Clara, que deveria me levar ao hospital, teve que cancelar o encontro dela. Foi isso? Tudo isso... por causa de um encontro perdido?
"Mas, Ana, fingir uma paraplegia? Contratar um médico falso? O Pedro te adora, ele te vê como uma deusa", insistiu Lúcia.
"E é exatamente assim que eu gosto. Ele me servindo, aos meus pés, se sentindo culpado pelo 'acidente' que nunca aconteceu. Ele me deve isso. Ele me devia uma vida com o Ricardo, agora ele me paga com a vida dele. É justo."
A bandeja tremeu nas minhas mãos. O prato de sopa quente escorregou e caiu no chão com um barulho surdo, espalhando o líquido pelo tapete.
O som do meu mundo se quebrando foi muito mais alto.
As vozes dentro do quarto silenciaram. A porta se abriu e Lúcia apareceu, o rosto pálido. Atrás dela, Ana Clara estava na sua cadeira de rodas, a expressão perfeitamente ensaiada de preocupação no rosto lindo e manipulador.
"Pedro? O que aconteceu? Você está bem, querido?"
Eu olhei para ela. Para o rosto que eu amei, para os olhos que eu pensei que continham um mundo de dor, mas que agora só refletiam uma crueldade fria e calculista. Cinco anos. Cinco anos da minha juventude, dos meus sonhos, do meu suor e das minhas lágrimas, tudo baseado numa mentira mesquinha.
A dor era tão intensa que eu mal conseguia respirar. Era um buraco negro se abrindo no meu peito, engolindo todo o amor, toda a devoção, e deixando apenas um vazio gelado. O ódio começou a borbulhar ali, quente e amargo. Eu queria gritar, queria quebrar tudo.
Mas eu não fiz nada. Eu olhei para o rosto dela, para a farsa que ela mantinha com tanta perfeição, e uma nova determinação tomou conta de mim. A vingança dela tinha durado cinco anos. A minha estava apenas começando.
"Eu... eu tropecei. Desculpe, tia. Vou limpar isso", eu disse, a voz saindo como um arranhão.
Eu me ajoelhei e comecei a juntar os cacos do prato, sentindo o olhar dela queimando nas minhas costas. O amor tinha morrido. Naquele exato momento, ele foi substituído por um único objetivo: escapar e fazê-la pagar.
Mais tarde naquela noite, a farsa continuou. Ana Clara me ligou do hotel onde estava encontrando Ricardo. Sim, o mesmo Ricardo. Aparentemente, eles tinham se reconectado. A voz dela era doce e manhosa ao telefone, me pedindo para levar um remédio que ela "esqueceu".
"Seja rápido, Pedrinho. Minha cabeça está doendo tanto."
Eu fui. Entrei no quarto de hotel e a cena me atingiu como um soco no estômago. Ana Clara estava na sua cadeira de rodas, mas Ricardo estava lá, de pé, olhando para mim com desprezo.
"Então esse é o seu cachorrinho cuidador?", ele disse, com um sorriso de escárnio.
Eu senti o sangue ferver nas minhas veias, mas mantive meu rosto inexpressivo. Entreguei o frasco de pílulas para Ana Clara.
Ricardo se aproximou de mim, o cheiro de álcool forte no seu hálito.
"Olha aqui, garoto. Eu não gosto de você. Da última vez, você estragou tudo. Hoje, você só vai fazer o que ela mandar e sumir."
Ele me deu um empurrão forte no peito. Eu tropecei para trás, batendo contra a parede. A dor física não era nada comparada à humilhação, à raiva que me consumia por dentro.
Ana Clara assistia a tudo com uma calma fria, a vítima perfeita em sua cadeira de rodas.
"Ricardo, pare com isso. Ele é só um menino", ela disse, a voz falsamente suave.
Eu me endireitei, olhando diretamente para Ricardo.
"Desculpe. Eu não quis atrapalhar."
Eu me virei para Ana Clara.
"Tia, a senhora precisa de mais alguma coisa?"
"Não, querido. Pode ir. Te vejo em casa", ela disse, dispensando-me como se eu fosse um empregado.
Eu me forcei a sorrir para ela, um sorriso que não alcançou meus olhos mortos.
"Tudo bem. Boa noite."
Eu me virei e caminhei para a porta, mantendo minhas costas retas. Eu não podia deixá-los ver o quanto aquilo me destruiu. Eu precisava ser forte. Precisava continuar atuando.
Ao fechar a porta atrás de mim, antes que o clique final soasse, eu ouvi a risada de Ana Clara. Uma risada alta e genuína, misturada com a de Ricardo. Era um som de triunfo, de desprezo.
O som da minha humilhação.
Parei por um momento no corredor silencioso do hotel, a risada deles ecoando na minha cabeça. Cada risada era um prego no caixão do amor que eu senti por ela. Eu respirei fundo, cerrei os punhos com tanta força que minhas unhas cravaram na minha pele, e comecei a andar. Eu não ia correr. Eu não ia chorar. Eu ia planejar minha fuga. E quando eu saísse, eu a deixaria com nada além do eco da própria mentira dela.
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