
Expulsa de Casa, Renascida na Luta
Capítulo 3
O rosto da minha avó ficou pálido. A mão que segurava o telefone tremia.
"Sílvia, não fales assim da minha neta. E muito menos da minha filha."
"Não falar? A sua neta acabou de ligar ao meu filho, a ameaçá-lo com o fim do noivado! O Pedro está destroçado! O Tiago ouviu tudo, ficou num estado de nervos, o braço partido a doer-lhe ainda mais! Vocês só causam problemas!"
A minha avó respirou fundo, tentando manter a calma.
"O voo atrasou, a tempestade, ficámos presas no aeroporto durante horas. Eu não me estou a sentir bem. A Ana só queria que o noivo dela a viesse buscar."
"Não se está a sentir bem? O meu Tiago partiu um braço! Um braço! E o cão quase morria! Isso não é mais importante? A Ana é uma adulta, pode muito bem apanhar um táxi. Que egoísmo!"
A minha avó desligou. O seu peito subia e descia rapidamente.
Ela olhou para mim, os olhos cheios de uma dor que eu conhecia bem.
"Vamos para casa, querida."
Não havia táxis. A cidade estava um caos por causa da tempestade. Acabámos por apanhar um autocarro que demorou uma eternidade.
Quando finalmente chegámos a casa, a porta estava trancada.
Eu tinha a minha chave, mas não funcionava. A fechadura tinha sido mudada.
Toquei à campainha. Ninguém abriu.
Liguei ao Pedro. Bloqueado.
Liguei para o telefone de casa. Ninguém atendeu.
A minha avó encostou-se à parede, exausta.
"Eles não nos querem aqui, Ana."
Naquele momento, um carro parou em frente à casa. Era o meu pai, a minha madrasta Sílvia, o meu irmão Tiago com o braço ao peito, e o Pedro.
Saíram todos do carro, a rir de qualquer coisa.
Quando nos viram, as suas expressões mudaram.
O meu pai foi o primeiro a falar, o seu tom era duro.
"O que é que estão aqui a fazer? A Sílvia já não vos disse para não virem?"
"Pai, esta é a minha casa. A casa da avó."
"Era", corrigiu a Sílvia, com um sorriso vitorioso. "Agora é a nossa casa. O Pedro e eu decidimos que era melhor para o Tiago recuperar aqui, com mais espaço. E como tu e o Pedro iam casar e mudar-se, achámos que podíamos adiantar as coisas."
Olhei para o Pedro, à espera que ele dissesse alguma coisa. Que me defendesse.
Ele desviou o olhar, incapaz de me encarar.
"Pedro? O que é que isto significa?"
Foi a Sílvia que respondeu.
"Significa que acabou, querida. O Pedro percebeu que não pode casar com alguém tão egoísta e insensível. Ele escolheu a família dele. Nós."
Ela disse "nós" com uma força que me atingiu como um soco.
A minha avó deu um passo em frente.
"Esta casa é minha. Foi o meu marido que a construiu. Vocês não têm o direito."
O meu pai riu-se, um som amargo.
"Mãe, a casa está em meu nome. Legalmente, é minha. E eu decido quem vive nela."
Era verdade. Depois da morte do meu avô, a minha avó, num gesto de confiança, passou a casa para o nome do único filho. Nunca pensou que ele a usaria contra ela.
"Então é assim", disse eu, a voz a tremer de raiva. "Vocês expulsam-nos da nossa própria casa."
"Não sejas dramática", disse o Pedro, finalmente encontrando a voz. "Podes ficar num hotel por uns dias. Até encontrares outro sítio."
Um hotel. Com a minha avó doente. Sem dinheiro, porque a minha carteira com os cartões estava dentro de casa.
"As nossas coisas", disse a minha avó, a voz fraca. "Pelo menos deixem-nos ir buscar as nossas coisas."
A Sílvia abanou a cabeça.
"Não. Já está tarde. E não queremos confusão. Amanhã, se se portarem bem, talvez. Agora, vão-se embora."
Ela apontou para a rua, como se estivesse a enxotar cães vadios.
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