
Ex Namorado
Capítulo 2
Era hora do jantar, o que deveria ser a grande apresentação oficial: Clara e Martina diante da família, sob o olhar atento de todos. Na vinícola, a sala de jantar parecia um santuário onde luxo e tradição se entrelaçavam, e eu, a recém-chegada, a protagonista que ninguém aceitava plenamente. Senti que, a qualquer momento, o chão poderia se abrir e engolir a impostura que me sustentava.
Marco surgiu na porta com seu andar calmo, elegante, quase ensaiado. Usava um terno escuro que realçava seus olhos claros, aqueles mesmos olhos capazes de despertar charme e, ao mesmo tempo, uma frieza absoluta. Olhei para ele, tentando decifrar o que se escondia por trás daquele sorriso controlado que ele oferecia à família.
"Clara", disse ele, inclinando levemente a cabeça. "Espero que você tenha encontrado seu lugar aqui."
Respondi com um "sim", embora minha mente gritasse outra coisa. Havia algo nele que me irritava, como uma sombra invisível que me impedia de respirar com facilidade.
Sentamo-nos à mesa, rodeados por parentes que lançavam olhares rápidos e sussurros mal disfarçados. A conversa girava em torno de assuntos triviais: o tempo, a última colheita, a economia vinícola. Mas eu estava atento a Marco, a cada gesto, a cada pausa calculada.
Ele se comportou como um anfitrião perfeito, cortês e charmoso; mas também distante, como se mantivesse uma barreira invisível. Quando seus olhos pousaram em mim, senti uma mistura confusa de atração e frustração. Seu olhar era tão frio quanto uma taça daquele vinho tinto delicadamente servido, e eu queria romper aquela casca, embora no fundo soubesse que talvez não devesse.
Em meio ao silêncio forçado, uma tia fez um comentário sobre sua infância, e foi então que percebi: um leve tremor em suas mãos, uma sombra fugaz em seu rosto, um momento em que seus lábios se apertaram demais. "Foi... peculiar", respondeu ele, e rapidamente mudou de assunto.
Meus sentidos se aguçaram, sentindo o suor frio na nuca e aquele nó desconfortável no estômago. Algo naquela resposta soou perturbadoramente sincero e, ao mesmo tempo, velado.
Martina, ao meu lado, lançou-me um olhar compreensivo, como se ela também tivesse percebido aquela estranha tensão.
Durante o jantar, notei como Marco evitava certos assuntos, como seus gestos ficavam mais rígidos sempre que alguém mencionava seu passado. Havia algo que ele não queria que soubéssemos, um segredo que ele guardava a sete chaves.
Quando a conversa mudou para família, uma foto antiga apareceu nas mãos de um dos primos, mas assim que vislumbrei a imagem, alguém rapidamente a arrancou. Senti uma pontada de curiosidade e frustração: por que esconder algo tão insignificante quanto uma foto?
Depois do jantar, quando estávamos saindo, Nicolo apareceu no corredor. Sua presença, forte e silenciosa, preenchia o espaço. Ele me lançou um olhar que misturava advertência e algo que lembrava desejo.
"Não se deixe enganar pelas aparências, Clara", sussurrou ele com voz grave. "Todos nós abrigamos feridas aqui que não queremos revelar. Suponho que você tenha as suas."
Fiquei sem fôlego por um segundo. Sua proximidade era perigosa, quase inebriante. Mas também senti aquele medo inquieto, como se, ao me aproximar dele, estivesse entrando em um jogo do qual não conseguiria sair ilesa.
Naquela noite, no meu quarto, as lembranças me atacaram impiedosamente. Fragmentos de conversas esquecidas, imagens borradas, palavras que agora assumiam um significado diferente. Eu sabia que estava entrando em um labirinto e que cada passo me aproximava de uma verdade que poderia me destruir ou me fortalecer.
Mas eu não podia me dar ao luxo de recuar. Não quando dinheiro e poder estavam tão perto.
Tentando afastar meus pensamentos, observei o quarto. Estava impregnado daquele aroma de madeira velha e vinho envelhecido que parecia ter grudado nas paredes da propriedade. Fechei a porta atrás de mim e afundei na cadeira perto da janela. Lá fora, os vinhedos se estendiam como um mar imóvel sob a lua, e lá dentro, tudo era um turbilhão de incerteza e desejo.
Lembrei-me daquele tremor nas mãos de Marco quando mencionaram sua infância. Que diabos tinha acontecido? Que segredos ele estava tão desesperado para esconder? Eu queria gritar, exigir respostas; mas, em vez disso, mordi o lábio e senti uma onda de náusea que me forçou a respirar fundo, enchendo meus pulmões de ar frio.
Martina apareceu na porta, com aquele sorriso que escondia mais do que mostrava.
"Você está bem?", perguntou ela, com um tom de voz que misturava preocupação e curiosidade.
"Claro", menti, sem convicção.
Sentamos juntos e ela começou a falar sobre os preparativos do casamento, mas eu mal prestava atenção. Minha mente ainda estava presa na imagem que eu mal conseguia ver: uma fotografia de infância, escondida e removida às pressas. Eu queria arrebatá-lo, procurá-lo no álbum de família, mas a oportunidade se perdeu como um suspiro.
Mais tarde, enquanto Martina dormia, repassei cada gesto, cada palavra. Marco era encantador, sim, mas havia um muro invisível entre nós. E havia Nicolo, o irmão mais velho, com aquela mistura perigosa de dureza e magnetismo que me fazia duvidar se ele era minha salvação ou minha ruína.
O silêncio na propriedade era pesado, quase palpável. As paredes pareciam sussurrar segredos, e eu estava determinada a descobri-los, mesmo que isso significasse brincar com fogo.
Eu sabia que a história que estava prestes a começar não seria simples. Mas também sabia que, a cada mentira, a cada olhar, a cada gesto oculto, eu me aproximava do poder que tanto desejava.
Porque naquela família, nada era o que parecia. Disso eu não tinha dúvidas.
E eu estava pronta para tirar vantagem disso. Para assumir o controle.
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