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Capa do romance Esquecimento estratégico

Esquecimento estratégico

Após sofrer uma grande desilusão amorosa, Cecília decide aproveitar um inesperado acidente para simular uma amnésia seletiva, fingindo ter apagado Adrian de sua mente. No entanto, manter essa farsa revela-se um desafio complexo e exaustivo. A situação se intensifica quando Adrian, movido pela determinação, resolve utilizar todas as suas estratégias para recuperar as memórias dela, forçando Cecília a lidar com as consequências de sua própria mentira.
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Capítulo 2

- Então o Arthur Sterling realmente contratou um CEO?! - Maya Bloom perguntou, enquanto terminava de alongar os braços.

- Depois que Leon Hart decidiu deixar a empresa para seguir a carreira política, ele não quis perder mais tempo preparando um substituto. Ainda mais agora que está louco para se aposentar e começar a carreira de escritor - respondi, sem disfarçar minha aflição.

Leon era meu melhor amigo e também meu chefe na empresa. Teria assumido como CEO se não tivesse se interessado por política.

Estávamos no parque onde costumávamos correr todas as manhãs, aproveitando o horário em que ainda se encontrava vazio.

- Você sabe algo sobre ele? Nome, ao menos? - perguntou ela, curiosa. - Eu queria tanto voltar a trabalhar na NovaCore, só para conhecer o novo chefe.

- Nada. Nem Elliot Kane conseguiu alguma informação invadindo os arquivos do RH. Parece segredo de Estado. Ou então não querem que descubramos que nosso chefe é um grande carrasco.

Elliot era o gênio do TI, e não havia nada naquela empresa que ele não soubesse.

- Boa sorte, amiga - Maya disse antes de começar a correr, mas demorei para alcançá-la.

Ela acompanhou meu ritmo apenas até a primeira volta. Depois desistiu e se sentou na grama, fazendo fotos e gravando reels.

Enganando seus seguidores iludidos, como fazia todas as manhãs.

Maya havia largado a carreira no marketing para se tornar influenciadora, algo que deu certo - não demorou a alcançar milhões de seguidores.

Mas, exatamente como agora, metade do que postava era mentira.

Desde o acidente no ensino médio, praticar corrida se tornou uma forma de recuperar meu condicionamento físico.

Por causa das lesões, precisei ficar de repouso e abandonar os esportes mais intensos. Porém, assim que fui liberada pela doutora Helena Moore, voltei a praticar.

Foi na faculdade que me apaixonei de vez pela corrida.

Agora, com minha carreira estável, decidi treinar para competir nos 10 km de Serra Nova. Estava determinada a ganhar.

Leon costumava treinar comigo todas as manhãs. Seu objetivo era conquistar os votos da galera do esporte - mas, para isso, precisava convencer na prática.

Hoje, porém, resolveu faltar.

Quando terminei a última volta, fui até Maya e sentei ao seu lado na grama, tentando recuperar o fôlego.

- Leon mandou uma mensagem - ela disse, tão estranhada quanto eu. - Avisou que todo mundo tem que ir hoje à noite ao Becker Bar, na casa do Theo.

- Hoje? Segunda-feira? Tem algo especial? - perguntei. Eu estava sem meu celular pessoal desde o dia anterior, quando precisei deixá-lo com Elliot para configurar a segurança e a privacidade. Como diretora comercial, precisava manter meu aparelho sempre protegido contra hackers.

- Não disse nada. Só avisou que ninguém pode faltar - deu de ombros, guardando o celular. - Vamos passar no Luna Café?

- Não fico sem meu café e meu bolo de banana com amêndoas - respondi, acompanhando-a ao se levantar.

O Luna Café era a cafeteria mais charmosa de Serra Nova, com os bolos mais deliciosos da cidade. Ficava em frente à NovaCore e, desde que abriu, passou a fazer parte da minha rotina.

Passei em casa para tomar um banho rápido e vestir meu terninho, deixando para trás a imagem de esportista e assumindo a da diretora comercial da maior empresa de tecnologia, acessórios automotivos e energia sustentável do país.

Eu estava na empresa havia três anos. Antes disso, trabalhava na maior concorrente, a TecPlay. Mas, depois de muita insistência do meu amigo Leon Hart - e, claro, da proposta irrecusável do cargo de diretora - deixei a TecPlay e comecei na NovaCore.

Leon era afilhado de Arthur Sterling, o fundador da empresa, e desde a adolescência tinha o futuro praticamente garantido ali.

Ainda na faculdade, Arthur me ofereceu um estágio no setor comercial, mas preferi disputar uma vaga na TecPlay. No entanto, não demorou para eu perceber que o meu lugar sempre foi na NovaCore.

Estacionei meu carro na minha vaga na empresa e, junto de Maya Bloom, atravessei a rua. Na porta do Luna Café, Ivy Collins aguardava nossa chegada.

- Demoraram! - reclamou ela, já entrando no local. - Mandei mensagens para você.

- Meu celular está com o Elliot Kane - expliquei, sentando-me à nossa mesa de sempre.

- O Leon disse alguma coisa? - perguntou Ivy, e senti a angústia em sua voz.

- Não. Ele nem foi correr hoje - respondi, percebendo seu olhar apreensivo.

- Quanto mistério, meu Deus... - ela murmurou.

- Relaxa, Ivy. Vamos pensar positivo - tentei animá-la. - Ele pode ser um amorzinho. Afinal, o Leon não nos deixaria nas mãos de alguém tão diferente dele, né?

- Você só fala isso porque não vai trabalhar diretamente com ele - Ivy abaixou a cabeça, quase chorando. - Estou quase pedindo para mudar de cargo... talvez para a recepção.

- Você é a assistente executiva da presidência - Maya argumentou, indignada. - Arthur confia a empresa a você.

- Se confiasse tanto assim, eu saberia quem será o meu novo chefe - rebateu Ivy, fazendo Maya revirar os olhos.

- Consegue um crachá pra mim? Assim descubro tudo antes da reunião.

- Chega - interrompi, já cansada daquela tensão. - Tenho certeza de que ele é um homem muito agradável e gentil. Agora vamos pedir nosso café.

Falei ao ver Luna se aproximar. Mesmo sendo a proprietária, ela nunca deixava de nos atender.

- Bom dia, Luna.

Ela sorriu, com aquele sorriso sempre doce.

- Bom dia - respondeu, lançando um olhar rápido em direção à entrada. - O Leon não vem hoje?

Havia um quê de tristeza em sua voz. Eu sabia que um dos motivos de Luna sair de seu escritório para nos atender era a esperança de ver meu amigo distraído. O interesse dela era evidente - mas Leon nunca percebia.

Uma vez, comparou o sorriso dela ao de uma modelo de comercial de margarina. Em outra, perguntou se ela poderia preparar um bolo de aniversário para a ficante da época.

E sempre que eu dizia, de forma direta, que ela gostava dele, Leon insistia que era coisa da minha cabeça "desmemoriada".

Mas aquele brilho nos olhos dela não me enganava.

Faltando dez minutos para as oito, Ivy e eu pagamos a conta e seguimos para a empresa, deixando Maya na companhia de Luna.

Corremos até o setor de TI em busca de alguma novidade, mas Elliot estava debruçado sobre a mesa, dormindo profundamente.

- Nada - disse ele ao ser acordado por Ivy. - Vão ter que esperar até a reunião.

- E meu celular? - perguntei, já agoniada sem o aparelho.

- Sinto muito. Vai precisar esperar até depois da reunião. Nem comecei a configurá-lo ainda.

Eu estava pronta para xingá-lo, mas Ivy me puxou pelo braço. Ela estava desesperada, claramente apavorada com a ideia do novo chefe.

Perto do elevador, ela parou para ler uma mensagem no celular.

- É o Leon - disse, fazendo uma careta. - Mandou preparar a sala de reuniões. Disse também como o novo CEO gosta do café: extra forte, puro e sem açúcar.

Meu Deus... quem toma café assim só pode ser muito amargo.

Concordei com ela. Cheguei a sentir um arrepio.

Por um breve instante, a imagem dele passou pela minha mente.

Bobagem.

Ivy seguiu para a copa preparar os cafés, e eu fui para minha sala. Ainda faltava uma hora e meia para a reunião. Não iria fritar minha cabeça. Durante os minutos seguintes, concentrei-me apenas no trabalho.

Quando faltavam quinze minutos para a reunião, subi para o último andar, onde ficavam o escritório do CEO e a sala de reuniões.

Ao chegar, tive a surpresa - ou talvez não - de ver Maya sentada ali.

- Como conseguiu entrar? - perguntei, sentando-me ao seu lado.

Elliot ajustava o projetor, enquanto Ivy organizava os cafés na mesa onde ficariam Arthur Sterling, Leon Hart e o novo CEO. Nas cadeiras restantes, estavam os responsáveis pelos outros departamentos.

- Disse que aceitaria fazer uma publi para a empresa, desde que pudesse conhecer o novo chefe - Maya respondeu, e me perguntei por que ainda me surpreendia.

Elliot sentou-se do meu outro lado. Ele e Maya mexiam nos celulares, enquanto eu me corroía de ansiedade.

- Ai, minha nossa... - exclamou Maya, encarando a tela.

- Caralho - murmurou Elliot, igualmente surpreso.

- O que foi? - perguntei, impaciente.

- O Leon adicionou alguém no grupo de amigos - Maya disse lentamente.

Eu estava prestes a arrancar o celular da mão de Maya quando a porta da sala de reuniões se abriu.

Primeiro entrou Arthur Sterling, com sua postura firme e segura. Logo atrás, Leon Hart, sorrindo com naturalidade, alheio ao que estava prestes a acontecer.

Então o terceiro homem cruzou a porta.

E tudo dentro de mim parou.

O ar pareceu rarear. O som ao meu redor se dissolveu em um zumbido distante. Meu coração perdeu o ritmo - como se tivesse esquecido, por um segundo, como bater.

- Ele adicionou... Adrian Blackwood - a voz de Maya chegou até mim como um eco distante.

Mas eu já não a escutava.

Porque ele estava ali.

Os mesmos cabelos negros, perfeitamente alinhados.

Os mesmos olhos escuros, profundos, perigosos - olhos que eu conhecia melhor do que deveria.

Olhos que já me despiram, me prometeram coisas que nunca cumpriram... e agora me encaravam como se jamais tivessem me esquecido.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

O estômago revirou. A garganta fechou. As mãos ficaram frias.

Era ele.

Meu ex-namorado.

O homem que eu fingira apagar da memória.

A mentira que sustentei por anos... agora em pé, a poucos metros de mim.

- Bom dia - disse Leon, quebrando o silêncio.

Todos responderam em coro.

Eu não consegui.

No instante em que os olhos de Adrian encontraram os meus, senti o ar abandonar meus pulmões. O olhar dele era lento. Calculado. Como se estivesse me observando por dentro.

- Quero apresentar a vocês - continuou Leon, sem perceber o terremoto que causava -, mesmo que alguns já o conheçam pessoalmente ou apenas de nome. Adrian Blackwood, o novo CEO da NovaCore... e um grande amigo meu.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Adrian manteve o olhar em mim por um segundo a mais do que deveria. Um segundo longo demais. Doloroso demais.

Então, finalmente, desviou - de forma lenta, tortuosa - como quem escolhe exatamente quando permitir que o outro volte a respirar.

- Tenho certeza de que muitos aqui se lembram de mim, Leon - disse ele.

Sua voz era baixa. Rouca. Carregada de algo que fez minha espinha arrepiar.

Eu tinha certeza absoluta de que aquelas palavras não eram para a sala.

E sim para mim.

- Bom dia.

Naquele instante, soube:

Eu não estava preparada.

Para ele.

Para o passado.

Ou para o que Adrian Blackwood tinha voltado para cobrar.

Com toda certeza, eu precisaria marcar uma consulta com Karin - minha psicóloga - assim que saísse dali.

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