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Capa do romance Esposa Errada

Esposa Errada

Após uma noite intensa, Frederico Castro quer se casar com Graça. Sem interesse no suposto motorista, ela e o pai enganam Fred, colocando a gêmea Bella em seu lugar no altar. Bella aceita o amor sincero dele, mas o choque vem após as bodas: Fred é o herdeiro do senador. O carinho vira desprezo ao ele notar a troca, mergulhando o casal em um mar de mágoas. Enquanto Graça se corrói de arrependimento, Bella luta para sobreviver ao caos desse matrimônio.
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Capítulo 2

São Paulo, dois anos antes...

— Onde está? Onde está? — Bella deixou de lado a muleta para se apoiar no imenso armário no quarto dos pais. Suas pernas engessadas atrapalhavam muito o movimento, mas ela queria encontrar o álbum de fotografias da família para incluir sua foto com o gesso cheio de assinaturas dos seus colegas. Como era de se esperar, sua tentativa ocasionou em uma queda que lhe arrancou lágrimas abundantes de dor.

Na tentativa de se levantar, ela puxou a porta que acabou se fechando. Por alguns instantes, Bella apenas ficou no chão acompanhada pelo choro silencioso, pois seu pai odiava ouvir as filhas chorando, de tal forma que elas aprenderam a serem silenciosas em suas dores. Seu cabelos cacheados se soltaram do coque mal feito e grudavam no seu rosto molhado.

Quando finalmente decidiu se levantar, Bella ouviu a porta sendo fechada bruscamente e a voz grave do seu pai.

— Que merda foi aquela, Francine? De risadinhas com o vizinho? Perdão a noção?

Bella decidiu olhar por uma fresta no exato momento em que sua mãe era jogada contra o chão.

— Nem que precise de uma surra diária, vai aprender a respeitar o homem que tem em casa.

Um urro de dor escapou da boca de Francine quando sentiu o impacto do pé dele em sua barriga. Ele a chutou algumas vezes antes de arrancar as suas roupas e possui-la.

De dentro do armário, Bella chorava e tentava em vão não olhar pela fresta ou tapar os ouvidos para não ouvir os lamentos da mãe ou os gemidos insanos misturados com insultos do pai. Estava tão presa na cena macabra que continuou vendo-a mesmo depois que seu pai saiu do quarto resmungando sobre o jantar ainda não estar pronto.

Ela estava paralisada e acabou deixando seus soluços ganharem vida, já não conseguia controlar.

O barulho fez Francine ir até o armário e escancarar a porta. Seu coração se partiu ao ver o estado da filha. E soube que ela no mínimo ouviu o que aconteceu, ao que foi submetida por um ciúmes sem motivo. Ao que era submetida sempre que Marcos tinha uma de suas crises de ciúmes ou raiva.

Notando o desespero da filha, ela a abraçou.

— Está tudo bem, meu amor!

— A porta não fechava. Eu não tive culpa. — Bella tentava justificar em meio ao pranto. Se sentia envergonhada por presenciar tal ato, se sentia irada.

— Está tudo bem. — Francine disse enquanto acariciava o rosto da filha e tirava os fios de cabelo colocando atrás da orelha.

— Mamãe, ele a forçou, ele a machucou. Não pareceu a primeira vez. Por que a senhora ainda está com esse monstro? — Tinha dificuldades em aceitar que sua mãe vivesse aquilo. Sempre achou que ela fosse uma mulher forte, vê-la apanhando do marido quando tinha saúde, um trabalho... toda uma chance de uma vida melhor, enchia seu coração de revolta.

— Ele é seu pai...

— O que o torna mais monstruoso. A senhora sabe que eu me guardei com o sonho bobo de ser só de um homem; o meu marido. Agora vejo que nem os maridos merecem confiança.

— Seu marido vai amá-la. Eu prometo — disse temendo que a filha abandonasse o sonho de ser esposa e mãe, sonho que tinha desde menina.

— Não vou me casar jamais. Nunca vou deixar nenhum homem me tocar. — Bella tremia. — E nós vamos embora dessa casa porque se eu me encontrar com aquele monstro vou matá-lo com minhas mãos.

Francine a olhou com ternura. Sua amada filha falava em defendê-la mesmo estando amparada por duas muletas.

— Quero que me prometa que vai confiar em seu coração e amar. Não existe nada mais belo que o amor. Prometa — pediu. Sabia que a filha seria uma mulher sozinha e amargurada se passasse a acreditar que todos os homens eram iguais. E ela sabia bem que não era assim. Teve alguém antes de Marcos que a amava acima de tudo, mas o câncer o levou.

— Eu prometo, mas só se a senhora prometer que vai se amar e sair dessa casa. A senhora não precisa passar por isso, mamãe — exigiu.

— Oh, minha filha! Eu amo tanto você e sua irmã. Vou sair sim. Já estava pensando nisso, mas primeiro vou juntar um dinheiro para não ter o perigo de precisar voltar implorando.

— Quanto tempo?

— Uns dois meses, no máximo. Já tenho um pouco. Com mais dois meses vou ter o dinheiro das minhas férias. Não é muito, mas vai ser suficiente para nos manter em alguma cidadezinha até eu conseguir algum emprego. — Acariciou o rosto molhado da filha em busca de passar confiança.

— E a Graça?

— Só vamos contar para ela depois que tivermos certeza de tudo. Ela é muito apegada ao pai. Pode contar para ele e colocar tudo a perder.

— Tudo bem, mamãe. Também tenho um pouco de dinheiro que poupei na lanchonete. E vou fazer mais trabalhos para os meus colegas de escola . Estão todos desesperados por ser o último ano.

— Você e sua irmã são meus tesouros — disse emocionada.

Se abraçaram e, depois dessa troca de carinho, Francine ajudou a filha a se colocar de pé e a ir para o quarto que dividia com a irmã.

***

No dia seguinte, ao retornar da escola, Bella descobriu uma nova dor, a dor da perda. Sua mãe havia sido atropelada por um motorista bêbado quando voltava da padaria, na mesma rua em que ela se acidentou. Ninguém sabe quem foi, pois não foi possível anotar placa e o bairro não tinha câmeras de segurança nas ruas. Seria só mais um crime que seria tratado como “acidente”.

Mas não para Bella, que teve o seu coração destroçado, que nunca mais poderia ouvir a voz doce de sua mãe, que nunca mais a abraçaria novamente.

Para ela, as cores do mundo se tornaram apenas tons de cinza.

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